“Eu dava todo dinheiro que eu estou ganhando aqui hoje só para dar um abraço e ficar perto da senhora”. Essa foi uma das últimas declarações do potiguar José de Arimatéia do Nascimento de Melo, de 33 anos, à mãe, em áudio enviado por aplicativo de mensagens. Ele está desaparecido desde o dia 4 de agosto deste ano após ter se alistado ao exército russo na guerra da Ucrânia.
No áudio, Maicon, como ele é conhecido, chora e reitera o arrependimento de ter ido para a guerra. “Eu estou sofrendo demais, só a senhora sabe. Muita luta, mãe. Muita luta, sabe? Não é perigo, não é isso. É a saudade da minha família que eu abandonei atrás de dinheiro. Estou tão arrependido da minha vida”, disse ele.
Os dois filhos José de Arimatéia são criados pela mãe dele em Bento Fernandes, município a cerca de 100 quilômetros de Natal. Nascido na capital potiguar, ele tinha se mudado para a Europa em julho de 2024, inicialmente para Portugal, para trabalhar no setor industrial do país. No entanto, em março deste ano ele recebeu uma proposta para ir à Rússia. “Ele foi recrutado por um cara para trabalhar em área relacionada à tecnologia, sob a perspectiva de receber um bom salário, mas nunca foi informado que iria para a linha de frente, ou recebeu qualquer tipo de treinamento com armas”, relatou a irmã, Maria Vanessa.
Sem notícias do irmão há mais de 50 dias, a família vive dias de angústia. Em busca de respostas, Maria Vanessa entrou em contato com autoridades brasileiras e recebeu retorno do Ministério das Relações Exteriores. De acordo com ela, o Itamaraty informou ter demandado a Rússia sobre informações a respeito de José de Arimatéia e aguarda um posicionamento. “Pode custar dias, semanas, meses. Estamos aguardando”, disse a irmã.
Proposta arriscada
Antes de ir para Portugal, José de Arimatéia morava em Bento Fernandes com a mãe. Já na Europa, ele recebeu uma proposta de ir para a Rússia sob a promessa de trabalhar com drones e área da computação, mas foi surpreendido ao ser colocado para integrar a linha de frente da guerra russo-ucraniana.
Além da angústia em não saber o paradeiro do irmão do outro lado do mundo, em vídeo compartilhado nas redes sociais, Maria Vanessa fez um alerta para que outras pessoas não aceitem propostas como a que José de Arimatéia foi seduzido. “Espero que ele tenha sido o último brasileiro a acontecer isso”, afirmou.
Sobre o alistamento voluntário de brasileiros em forças armadas estrangeiras, no contexto de conflitos armados, o Itamaraty publicou um alerta no último dia 30 de julho recomendando fortemente que propostas de trabalho para fins militares sejam recusadas. “A assistência consular, nesses casos, pode ser severamente limitada pelos termos dos contratos assinados entre os voluntários e as forças armadas de terceiros países”, diz a mensagem.
Na época da divulgação do alerta, o ministério afirmou que havia registro de aumento no número de casos de nacionais brasileiros que perderam suas vidas ou que se encontravam em graves dificuldades ao decidirem interromper sua participação nos exércitos combatentes.
Busca por informações
Uma das imagens enviadas por José de Arimatéia à família mostra uma declaração em russo, assinada por ele. O texto aponta que o potiguar prestou juramento militar no mês de junho e que o documento foi emitido em 12 de julho em Moscou, capital russa.
“Conseguimos contato com um amigo dele, que contou que o meu irmão foi capturado pelas tropas ucranianas, mas nem isso eu consigo confirmar”, disse Maria Vanessa, relatando a aflição que a família vem vivendo. “Somos apenas eu e meu irmão de filhos, e não conseguimos dormir. Como uma mãe consegue dormir imaginando que o seu filho pode estar sendo espancado?”, relatou a irmã em vídeo compartilhado na internet.
Condições do potiguar na guerra
Maria Vanessa relatou ainda que o irmão compartilhava sobre as condições que a tropa russa vivia diariamente na guerra. Segundo ela, Maicon contava dos recrutados mortos em combate, que não tinham o direito de serem enterrados. “Ele chorava muito, nós falávamos para ele pedir para vir embora, mas ele dizia que se pedisse para ir embora ‘eles fuzilam’”, relatou a irmã.
“Enquanto estava lá, ele precisou realizar uma cirurgia delicada, e cinco dias depois já colocaram ele de volta na linha de frente”, relembra Maria Vanessa.
Imagem: Cedida
Fonte: Tribuna do Norte





































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