Enquanto a maioria dos brasileiros depende dos corredores de supermercado, milhões de pessoas na Amazônia rural mantêm uma relação direta com a floresta para colocar comida no prato. Sua principal fonte de proteína não vem de bois confinados ou granjas industriais, mas da caça de animais silvestres, um sistema alimentar tradicional e complexo que há milênios sustenta povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Um estudo seminal, publicado na revista Nature, evidencia a escala e a relevância invisível dessa prática, ao mostrar que a saúde da floresta e a segurança alimentar dessas populações constituem dimensões inseparáveis de uma mesma realidade.
A metodologia do estudo foi tão rigorosa quanto os resultados alcançados. O “Dataset Marupiara”, nome inspirado no termo Tupi para “caçador virtuoso”, constitui o banco de dados mais completo já organizado sobre a caça de animais silvestres na Amazônia, reunindo registros de 447.438 indivíduos caçados em 647 localidades. Dezenas de pesquisadores, de pelo menos 50 instituições diferentes de nove países, entre estes a professora Michelle Jacob, do Laboratório de Biodiversidade e Nutrição da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), colaboraram na coleta e análise dessas informações. Esse esforço contou com o endosso formal da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

Estima-se que a caça na Amazônia produz anualmente 0,37 milhão de toneladas de carne comestível. Esse volume é suficiente para suprir quase metade das necessidades diárias de proteína e ferro dos 11 milhões de habitantes rurais do bioma. Além disso, a proteína silvestre fornece uma parcela significativa de vitaminas do complexo B e zinco, nutrientes fundamentais para a saúde em uma região onde a desnutrição é uma ameaça constante. A diversidade é surpreendente, com pelo menos 500 espécies consumidas, mas apenas 20 grupos de animais, como queixada, anta e paca, concentram a maior parte da biomassa extraída.
O valor econômico oculto desse sistema é colossal. Quando comparada aos preços atuais da carne bovina, a produção anual de carne silvestre na Amazônia equivale a aproximadamente US$ 2,2 bilhões. Esta é uma riqueza que não aparece nas bolsas de valores, mas que sustenta a segurança nutricional e a economia local de forma profunda. “Esse valor econômico oculto da produção de carne silvestre sugere que a caça tradicional é um serviço ecossistêmico significativo para os povos da Amazônia, fornecendo nutrição de alta qualidade e acessível e reduzindo os gastos com carne”, detalha o artigo.

Apesar dos números expressivos, a caça tradicional não pode ser reduzida a um simples extrativismo. Trata-se de uma prática orientada por saberes, normas e costumes culturais que regulam o uso da fauna há milênios, na qual povos indígenas e comunidades tradicionais têm atuado como os guardiões mais eficazes da biodiversidade. “Áreas protegidas mantêm populações saudáveis de espécies-chave de caça, inclusive aquelas que já haviam sido exploradas comercialmente em excesso. Propostas ilegítimas de proibir, restringir ou substituir a carne de caça sem reconhecer sua relevância cultural e nutricional refletem uma mentalidade colonial que fragiliza a autonomia e os sistemas alimentares tradicionais dos povos amazônicos”, detalham os pesquisadores no artigo.
Ameaças

A maior ameaça a esse sistema milenar, no entanto, não é a caça de subsistência, mas a dupla pressão do desmatamento e da urbanização. Em áreas onde mais de 70% da floresta foi perdida, a quantidade de animais e de biomassa animal disponíveis por caçador caiu 67%. A disponibilidade de carne silvestre por habitante é significativamente menor em comunidades com maior número de pessoas, mais próximas dos centros urbanos e com florestas mais degradadas. Nesses locais, as comunidades são forçadas a mudar sua dieta, caçando proporcionalmente mais espécies generalistas como tatus, capivaras e pombas, sobretudo na proximidade de centros urbanos onde a demanda por proteína animal é maior.
A solução, frequentemente sugerida, de substituir a carne silvestre por carne bovina se mostrou um tiro pela culatra. Produzir a mesma quantidade de proteína com gado exigiria derrubar até 64 mil quilômetros quadrados de floresta para pasto, liberando até 1,16 bilhão de toneladas de CO₂, o que equivale a 3% das emissões globais atuais. Além do alto custo ambiental, a carne doméstica, especialmente a de frango, contém níveis muito menores de ferro, zinco e vitaminas essenciais, agravando riscos de deficiências nutricionais.

Para a ciência e para as políticas públicas, as implicações são profundas. A pesquisa demonstra que proteger a Amazônia é vital não apenas para conservar a biodiversidade, mas para garantir a saúde, o bem-estar e a soberania alimentar de milhões de pessoas. Os autores reforçam que a demarcação de terras indígenas e o fortalecimento da governança tradicional são estratégias centrais para a sustentabilidade desses sistemas alimentares. O estudo se conecta diretamente com o cumprimento de diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, como Fome Zero, Vida Terrestre e Ação Contra a Mudança Global do Clima.
O caminho apontado pela pesquisa não é o da proibição, mas o do reconhecimento e do apoio. Onde os direitos indígenas são respeitados e os territórios protegidos, a floresta e sua vida selvagem prosperam, formando os maiores berçários de fauna da Amazônia. A saúde dos ecossistemas está diretamente ligada ao bem-estar dos povos amazônicos e a floresta em pé representa riqueza em forma de alimento, cultura e equilíbrio climático. Sua destruição para substituir a caça por criação de gado ou frango, de menor valor nutricional, configura um contrassenso ambiental e social.
Fonte: Agecom/UFRN









































































