Maduro: corrupto, mas não o verdadeiro problema
Nicolás Maduro foi, sem sombra de dúvida, um ditador corrupto e autoritário. Fraudes eleitorais documentadas, enriquecimento pessoal e corrupção sistêmica marcaram sua gestão, criando uma elite chavista isolada da realidade do país. Documentos oficiais da OEA e análises do International Crisis Group mostram que, durante seu governo, milhões de venezuelanos sofreram com escassez de alimentos e medicamentos, enquanto a elite política desfrutava de fortunas desviadas do erário.
Análises recentes na The Conversation, assinadas por especialistas vinculados a Harvard, Oxford e a London School of Economics and Political Science, destacam que o bolivarianismo, promessa de justiça social e redistribuição de riqueza, nunca passou de retórica. Enquanto o discurso oficial exaltava políticas de inclusão, pesquisas da Fundação Friedrich Ebert mostram que a população mais vulnerável continuava vivendo em extrema pobreza, evidenciando a desconexão entre propaganda e realidade.
A nacionalização do setor petrolífero promovida por Hugo Chávez, que Maduro manteve, tinha potencial estratégico para transformar a economia do país. Porém, os embargos econômicos dos Estados Unidos, aliados à sabotagem deliberada de empresas multinacionais, impediram que esse recurso fosse utilizado para o desenvolvimento sustentável, como indica o relatório da Organization of the Petroleum Exporting Countries – OPEC de 2025, sobre queda de produção e investimento estrangeiro.
Especialistas em petróleo da Universidade de Columbia afirmam que, se não fossem os embargos, a Venezuela poderia ter replicado parte do sucesso energético de países como a Noruega, equilibrando receita nacional com investimentos em infraestrutura social. Entretanto, políticas externas agressivas criaram um cenário em que o país ficou refém de crises artificiais, sendo o povo novamente o pagador final de decisões políticas internacionais.
Além disso, estudos do Banco Mundial e da United Nations Development Programme – UNDP detalham que a má gestão de Maduro exacerbou problemas existentes, mas não foi a principal razão para a apropriação das riquezas do país por agentes externos. Em outras palavras, sua queda serviu mais como justificativa midiática para encobrir o assalto real: o controle das maiores reservas de petróleo do mundo.
O petróleo venezuelano: riqueza histórica e alvo recorrente
A Venezuela possui atualmente as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em 303 bilhões de barris, segundo a OPEC (2025). Para efeito de comparação, a Arábia Saudita, tradicional líder no setor, possui cerca de 267 bilhões de barris, e os Estados Unidos 47 bilhões de barris. Essa disparidade explica o interesse estratégico de potências globais em controlar esse recurso.
Historicamente, o petróleo venezuelano sempre foi explorado sem que os venezuelanos obtivessem retorno justo. Já na década de 1920, John D. Rockefeller, por meio da Standard Oil of New Jersey (conhecida hoje como ExxonMobil), monopolizou a exploração do país, deixando apenas migalhas para a população local. O historiador Eduardo Galeano detalha que esse modelo de exploração externa criou um padrão de pobreza crônica e dependência econômica.
Especialistas em geopolítica energética, como Michael Klare (Amherst College) e Daniel Yergin (Cambridge Energy Research Associates), ressaltam que o petróleo venezuelano é um ativo que garante influência política global. Controlar essas reservas significa não apenas acesso a energia, mas também poder de barganha em mercados internacionais e capacidade de impor sanções econômicas estratégicas.
Durante os 50 anos de exploração americana direta, o país deixou infraestrutura parcialmente desenvolvida, mas com pouca redistribuição econômica para a população. Relatórios da CEPAL indicam que, mesmo quando a economia venezuelana cresceu devido ao petróleo, a concentração de renda permaneceu entre as elites e empresas multinacionais.
O controle atual das reservas por empresas estrangeiras e pelo governo americano é, portanto, mais do que uma ação econômica: é uma estratégia de poder, repetindo padrões históricos de exploração, agora com a justificativa de “transição democrática” e “luta contra o narcotráfico”, enquanto a verdadeira motivação é a apropriação direta de um recurso vital.
Embargos americanos: a sabotagem planejada
Os embargos impostos pelos Estados Unidos não são uma novidade, nem um instrumento neutro. Desde Cuba, passando por países africanos e, agora, Venezuela, essas medidas econômicas têm mostrado um padrão claro: impactar a população civil, sem afetar significativamente os líderes ou interesses estratégicos.
No caso venezuelano, estudos do Council on Foreign Relations mostram que os embargos reduziram drasticamente a capacidade de investimento da PDVSA, a empresa estatal de petróleo da Venezuela, derrubando produção e receita fiscal. Especialistas como Francisco Rodríguez (University of Miami) e o economista venezuelano Asdrúbal Oliveros destacam que essas sanções causaram queda de 60% na produção entre 2017 e 2025, aprofundando a crise social.
O próprio Congresso americano reconheceu, em audiências públicas, que os embargos têm efeitos limitados sobre a elite política, enquanto atingem principalmente importações de alimentos e remédios. Isso cria uma narrativa conveniente: a culpa da miséria é exclusivamente atribuída a Maduro, desviando a atenção do real responsável — a política externa americana.
Comparações com Cuba e Irã evidenciam o padrão. Cuba vive sob embargos desde 1960, impedindo crescimento econômico sustentável, enquanto a população arca com a falta de infraestrutura e oportunidades. Na Venezuela, o objetivo estratégico era impedir que um modelo de esquerda obtivesse qualquer aparência de sucesso, como a China ou Vietnã conseguiram, garantindo que a narrativa de falha social fosse reforçada.
Estudos da Universidade de Boston, conduzidos por economistas especializados em sanções, mostram que 78% do impacto econômico das sanções é absorvido pela população civil, e não pelos governos ou elites. Ou seja, o embargo funciona mais como arma de coerção e controle social do que como medida de justiça ou combate a práticas ilícitas.
A invasão: guerra às drogas e a mentira da transição democrática
A narrativa oficial americana tenta vender a operação como uma “transição democrática” e uma ação contra o tráfico de drogas. No entanto, análises de especialistas em direito internacional e relações internacionais mostram que a invasão viola frontalmente o Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado. Além disso, o Pacto de San José da Costa Rica (Artigo 3 e 22), ratificado pela Venezuela, protege a soberania e proíbe intervenções externas.
Juristas de renome, como Michael Byers (Universidade de Toronto) e Antonio Cassese (falecido, especialista em direito internacional humanitário), destacam que operações militares sob pretextos humanitários ou de combate ao narcotráfico exigem autorização do Conselho de Segurança da ONU, algo que jamais ocorreu no caso venezuelano. Estudos do Institute for Policy Studies apontam que a justificativa das drogas é um artifício histórico utilizado pelos EUA, similar às alegações sobre Saddam Hussein no Iraque.
Na prática, o argumento de combate ao narcotráfico é insustentável. Dados da UNODC de 2025 mostram que a produção de drogas na Venezuela nunca foi significativa no contexto regional, especialmente comparada à Colômbia e ao México. O que se evidencia, portanto, é que a narrativa serve como cortina de fumaça para legitimar o roubo das reservas petrolíferas, o verdadeiro objetivo estratégico.
Especialistas em segurança internacional, como Mary Kaldor (LSE) e Noam Chomsky, apontam que o padrão se repete historicamente: pretextos humanitários ou de segurança são usados para justificar intervenções cujo interesse real é econômico e geopolítico. Isso cria um precedente perigoso, minando normas internacionais que protegem estados soberanos e populações vulneráveis.
Documentos desclassificados do Departamento de Estado dos EUA, obtidos via FOIA, revelam que planos de controle energético da Venezuela foram discutidos anos antes da operação militar, evidenciando que o combate às drogas era apenas um rótulo estratégico, enquanto o verdadeiro alvo era a riqueza nacional.
O paralelo com o Iraque: pretextos e apropriação de recursos
A invasão da Venezuela não é um caso isolado; ela se insere em um padrão histórico de intervenções americanas. A invasão do Iraque em 2003 é o exemplo mais evidente: pretextos de armas de destruição em massa e combate ao terrorismo foram utilizados, mas nenhum estudo posterior da ONU ou do Congresso americano confirmou a existência dessas armas.
Pesquisas da CNN, BBC e do Brookings Institution mostram que, após a invasão, o Iraque teve suas reservas petrolíferas amplamente apropriadas por empresas americanas e britânicas, enquanto a população sofreu com instabilidade política, violência e pobreza prolongada. Relatórios do Banco Mundial detalham que, mesmo após décadas, o crescimento econômico nunca beneficiou de fato o cidadão comum, evidenciando que os interesses estratégicos sempre se sobrepuseram à promessa de democracia ou prosperidade.
Especialistas em política internacional, como William Engdahl e Noam Chomsky, apontam que a operação venezuelana segue esse mesmo padrão: um pretexto moral ou político encobre um interesse econômico direto, com ênfase no petróleo, um recurso vital para a geopolítica global.
Documentos acadêmicos da Universidade de Harvard sobre conflitos energéticos destacam que o controle de reservas estratégicas sempre foi prioritário nas intervenções americanas. No caso venezuelano, a diferença é que a população não apenas sofre com a violência e o caos social, mas agora vê suas riquezas naturais sendo transferidas diretamente para mãos estrangeiras, sem contrapartida.
Em suma, a Venezuela é o Iraque do século XXI: a justificativa moral é a queda de um tirano, mas o objetivo real é a apropriação econômica e estratégica, deixando o povo novamente à margem das decisões que afetam sua vida e seu futuro.
Trump e a traição da oposição venezuelana
Enquanto Nicolás Maduro caiu, Donald Trump assumiu o controle do país, ignorando completamente a figura de Edmundo González, eleito democraticamente em 2024. Essa manobra evidencia que a invasão não visou restaurar democracia, mas apenas transferir riqueza e poder diretamente para interesses americanos.
Maria Corina Machado, ganhadora do Nobel da Paz e líder da oposição venezuelana, foi publicamente descartada por Trump, sob o pretexto de não ter apoio popular. Especialistas em política latino-americana, como Moisés Naím e Alfred de Zayas, afirmam que tal decisão revela a lógica imperial: os EUA atuam não para fortalecer lideranças locais, mas para garantir que o controle dos recursos permaneça em suas mãos.
Analistas do Council on Hemispheric Affairs destacam que o padrão de cooptar e descartar lideranças locais cria um precedente de instabilidade permanente. O povo venezuelano, que já sofreu décadas de exploração externa e governança autoritária interna, agora se vê novamente marginalizado, vivendo a troca de um tirano por outro, sem que seus interesses reais sejam considerados.
Estudos recentes de pesquisadores da Universidade de Miami sobre intervenções estrangeiras mostram que esse tipo de operação provoca efeitos duradouros na confiança institucional da população, deslegitimando qualquer processo político e criando dependência econômica e política externa.
Em termos práticos, a invasão americana não trouxe e nem trará liberdade real, ou mesmo prosperidade (ao menos não aos venezuelanos…), mas apenas a substituição de um ditador corrupto por uma administração estrangeira que visa controlar a riqueza nacional. O povo venezuelano permanece invisível, enquanto o petróleo, que sempre foi seu, é saqueado à vista de todos.
Conclusão: o verdadeiro assalto
A narrativa midiática global celebra o fim de Maduro, mas ignora que o povo venezuelano continua sendo vítima de um assalto histórico e descarado. O petróleo, riqueza que pertence à população, agora é gerido por forças estrangeiras, sem qualquer benefício direto para a sociedade local.
O que está em jogo não é Maduro, que era corrupto e impopular, mas o controle das maiores reservas petrolíferas do mundo. A atenção do público, manipulada como um truque de mágica, foca no ditador caído enquanto o assalto real acontece nas sombras, consolidando décadas de padrões de exploração e marginalização.
Para o povo venezuelano, a mudança de governo é superficial: sai um tirano, entra outro, e o petróleo, que sempre deveria ser sua riqueza, é apropriado por interesses estrangeiros. A verdadeira pergunta é: quando o mundo vai perceber que a prisão de um ditador não equivale à liberdade do povo?
Por Otaviano Lacet*
*Jornalista, Escritor, Editor e Músico sofrível, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior.





































































