Há políticos que “exageram” nas palavras. Donald Trump construiu um projeto político por meio delas.
O vocabulário que emprega não é explosão temperamental nem grosseria espontânea. É ferramenta. Quando um presidente descreve povos inteiros como “lixo”, diz que um país “fede” ou sugere inferioridade intelectual de um grupo étnico, ele não está apenas sendo ofensivo. Está reorganizando o mapa moral do mundo diante de milhões de pessoas.
O racismo, nesse caso, não aparece como ódio histérico. Surge como normalidade repetida. E é justamente isso que o torna perigoso.
Por que Hannah Arendt importa aqui
Hannah Arendt foi uma filósofa e pensadora política alemã, judia e refugiada do nazismo. Em 1961, ela acompanhou em Jerusalém o julgamento de Adolf Eichmann, o burocrata responsável por organizar a logística que levou milhões de judeus ao extermínio nazista. A humanidade ainda estava atordoada, perseguindo a pergunta que parecia não ter resposta: como foi possível permitir tamanha desumanização debaixo dos nossos narizes, em sociedades modernas, educadas e cheias de instituições?
Esperava-se encontrar um demônio. Arendt encontrou outra coisa: um homem comum, medíocre, que falava em linguagem administrativa, repetia fórmulas prontas e dizia ter apenas cumprido ordens. Dali nasceu a ideia que atravessou o século: a “banalidade do mal”. Não como suavização do horror, mas como alerta. O mal pode avançar sem precisar de fúria teatral. Ele avança quando se torna rotina, quando se instala na linguagem, quando as pessoas deixam de pensar criticamente e passam a tratar como “normal” aquilo que deveria ser moralmente impossível.
O mal moderno, nesse sentido, não precisa gritar. Ele pode funcionar em tom de expediente.
É por isso que a linguagem de um chefe de Estado importa tanto. Quando um presidente fala de povos como sujeira, atraso biológico ou ameaça natural, não está apenas sendo grosseiro. Está deslocando a fronteira moral que define quem merece proteção e quem pode ser tratado como problema administrativo.
O preconceito que não pede desculpas
Trump não tropeça no racismo. Ele o utiliza. E o episódio envolvendo o casal Obama é um retrato cristalino desse método.
Em sua rede social, Trump compartilhou um vídeo manipulado que retratava Barack Obama de forma racista, reproduzindo uma das formas mais antigas de desumanização: a associação histórica de pessoas negras a macacos. Confrontado, afirmou que “não viu nada de racista”. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, tentou desqualificar a indignação pública como “indignação falsa”. Depois, sob repercussão internacional, Trump jogou a responsabilidade em um suposto “erro de um funcionário” e afirmou que a postagem já havia sido retirada. Não foi. O material permaneceu no ar por cerca de 12 horas. E, como desfecho, declarou que não pretendia se desculpar.
Esse padrão não é novo, nem acidental. Ele é consistente com uma lógica antiga: dizer o inaceitável, testar o limite, negar o óbvio e seguir em frente como se a realidade tivesse obrigação de se adequar à sua narrativa.
Latinos como alvo estrutural, não ocasional
A relação de Trump com a comunidade latino-americana não é fruto de um momento eleitoral específico nem de uma crise recente na fronteira. Ela é fundacional em sua trajetória política.
Desde o início de sua campanha, quando associou imigrantes mexicanos a estupro e criminalidade, passando pela política de separação de famílias, até operações de detenção em massa conduzidas pelo ICE, há uma linha contínua que não se quebra. Muda o contexto, muda a intensidade, mas não muda a lógica: apresentar determinados grupos como ameaça intrínseca.
Em 2018, em um encontro sobre políticas de fronteira, Trump se referiu a imigrantes como sendo “animais”. O episódio foi registrado por veículos americanos como o New York Times e a CNN. Assessores tentaram depois limitar o alcance da fala a criminosos específicos, mas a declaração se inseriu em um contexto mais amplo de retórica em que Trump, mais uma vez e de forma recorrente, associava imigração latino-americana a criminalidade, violência e degradação social.
Esse tipo de linguagem não atua apenas no plano simbólico. Ela prepara o terreno político. Ao transformar pessoas em ameaça biológica ou moral, o discurso desloca essas vidas do universo dos direitos para o da contenção. A exclusão deixa de parecer injustiça e passa a soar como medida de proteção. A normalização se instala, repetição após repetição, até que o público pare de se chocar.
E aí o Estado se sente autorizado.
Venezuelanos e a estética da desumanização
O racismo não se manifesta apenas em termos de “perigo” e “crime”. Às vezes ele vem na forma mais rasteira e eficaz: a estética, a humilhação pela aparência, o rebaixamento do outro à condição de objeto repulsivo.
A CNN Brasil registrou declaração em que Trump descreveu venezuelanos como “as pessoas mais feias que já viu”. Esse tipo de frase não é apenas grosseria de bar. É recurso político. Quando se reduz um povo à “feiura”, apaga-se sua individualidade e instala-se a ideia de não pertencimento. A exclusão começa no imaginário antes de ganhar forma institucional.
Em sociedades com tradição de supremacia racial, o desprezo estético costuma funcionar como senha social: quem é “feio” é também o que “não deveria estar aqui”. O insulto prepara o argumento. O argumento prepara a medida.
Somalis, “QI baixo” e o racismo com verniz de opinião
Um episódio recente no Fórum Económico de Davos expôs esse método em escala global e com constrangimento diplomático. Diante de líderes políticos e empresariais do mundo inteiro, Trump comentou um caso de fraude em Minnesota envolvendo pessoas de origem somali e disse, em essência, que sempre tratou os somalis como “pessoas de baixo QI”, expressando surpresa por eles terem conseguido aplicar um golpe. O Washington Post registrou a fala e o enorme mal-estar gerado no evento.
Pouco depois, em outro episódio noticiado pela CNN, Trump foi ainda mais explícito: disse que a Somália “fede” e chamou imigrantes somalis de “lixo”. Não se tratava de política migratória. Era desumanização pura, vinda da autoridade máxima de um país que se vende como guardião da democracia liberal.
Quando um chefe de Estado usa esse vocabulário reiteradamente, não está apenas ofendendo. Está legitimando a ideia de que certos grupos humanos valem menos que outros, noção que percorre os capítulos mais sombrios da história moderna.
A mentira como combustível da hierarquização
O encontro entre Donald Trump e o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, na Casa Branca, revelou de forma quase didática como a mentira racial é usada como ferramenta de poder. Não se tratou de um comentário improvisado, mas de uma encenação cuidadosamente coreografada.
Diante das câmeras, Trump mandou apagar as luzes do Salão Oval para exibir um vídeo com imagens de políticos sul-africanos cantando um antigo slogan da luta antiapartheid. O material foi apresentado como prova de um suposto “genocídio branco” na África do Sul. A acusação, que já foi amplamente desmentida por dados oficiais e por autoridades sul-africanas, foi exposta como se fosse fato consumado. Questionado sobre a localização dos supostos túmulos de fazendeiros brancos assassinados, Trump respondeu apenas: “África do Sul”, sem qualquer evidência (mesmo dispondo de uma super equipe de assessores).
A cena, descrita pela BBC como uma “emboscada diplomática”, não foi voltada apenas para o visitante estrangeiro. Era espetáculo político para consumo doméstico. A falsa narrativa do “genocídio branco” gira há anos em círculos da extrema direita internacional como símbolo da ideia de que brancos estariam sendo substituídos ou perseguidos em seus próprios países. Ao levá-la ao centro da diplomacia americana, Trump não apenas constrangeu um chefe de Estado aliado, mas legitimou um mito racial como se fosse denúncia humanitária.
É nesse ponto que a mentira deixa de ser distorção e passa a ser ferramenta. A acusação não precisa ser comprovada, mas apenas ser repetida com autoridade suficiente para produzir ressentimento e medo. O alvo deixa de ser um governo específico e passa a ser um grupo humano inteiro, retratado como ameaça moral ou demográfica.
A lógica é clara: ao pintar brancos como vítimas globais de perseguição, reforça-se a ideia de que hierarquias raciais estariam sob ataque e precisariam ser defendidas. A mentira não serve para convencer pela evidência, mas para reorganizar emoções políticas. E, quando a emoção substitui o fato, a exclusão encontra terreno fértil.
Nada disso é novidade na trajetória de Trump
Esse padrão atravessa décadas da vida pública de Trump, muito antes da política.
Nos anos 1970, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos processou a empresa da família Trump por discriminação racial em aluguéis habitacionais, acusando o grupo de bloquear o acesso de pessoas negras a apartamentos em seus empreendimentos. O caso terminou em acordo judicial, mas o episódio já expunha um traço: a hierarquia racial como prática, não como opinião.
Nos anos 1980, Trump pediu publicamente a pena de morte para os jovens negros e latinos do caso Central Park Five. Mesmo depois de provas demonstrarem a inocência deles, manteve a posição. Décadas se passaram e a retratação nunca veio.
Não se trata de falhas ocasionais. Trata-se de continuidade. A coerência está na permanência da lógica, não na mudança de contexto.
O perigo não está apenas na fala, mas na normalização
É aqui que Arendt volta como lâmina, não como citação ornamental.
A banalidade do mal não se manifesta como espetáculo grotesco. Ela opera na repetição, na rotina, na transformação do choque em hábito. Quando ofensas raciais ditas por um presidente viram apenas mais um ciclo de notícias, a fronteira do inaceitável já se moveu. E quando essa fronteira se desloca, políticas que antes pareceriam impossíveis passam a soar apenas como “duras, porém necessárias”.
A desumanização não é um efeito colateral da política. Ela é etapa. Ela é preparação. Ela é o alicerce emocional para que o público tolere aquilo que, em condições normais, repudiaria.
Conclusão
Trump não tropeça nas palavras. Ele governa com elas.
A história mostra que o rebaixamento verbal é o primeiro degrau da exclusão política. Grandes tragédias não começam com demônios gritando, mas quando sociedades inteiras silenciam e passam a aceitarem que algumas vidas valem menos.
Quando essa ideia se instala, a violência deixa de soar como ruptura e passa a parecer procedimento.
E é nesse ponto que a história deixa de ser passado e começa a se repetir.
Por Otaviano Lacet*










































































