Iniciada em 1995, a série de corrida arcade Screamer ganhou notoriedade pela fidelidade gráfica, que ainda hoje carrega um charme retrô. Apesar de não ter sobrevivido ao longo dos anos como alguns de seus contemporâneos, com quatro jogos lançados até 2000, a franquia deixou sua marca no gênero e conseguiu se reinventar mais de uma vez nesse curto período.
A estética do caos
O visual se divide entre três frentes distintas, que juntas formam a identidade do projeto. Nas sequências de diálogo, o jogo assume uma estrutura próxima de uma visual novel, com conversas longas entre os personagens. Aqui, a estética é limpa, com traços bem definidos e boa variedade de modelos, que condizem com o que está sendo dito.
Já as cutscenes são entregues em animações no estilo anime, visualmente marcantes, que apesar de não aparecerem com frequência, quando surgem têm impacto imediato, graças à boa direção e uso forte de cores.
Durante as corridas, o jogo abandona essa linguagem mais ilustrada, mas sem buscar realismo. Em vez disso, mantém uma abordagem estilizada que se torna uma de suas melhores qualidades. As pistas são visualmente impressionantes, com cores vibrantes que se destacam tanto no pôr do sol refletindo na lataria dos carros quanto nas noites de Tóquio, iluminadas por néons intensos que engolem o percurso.
Mesmo em alta velocidade, tudo permanece legível. Nas configurações iniciais, o motion blur vem ajustado para “alto”, mas a sensação de velocidade melhora ao colocá-lo no “muito alto”. No PlayStation 5, não notei perda de desempenho nessa configuração.
Se o visual se destaca, a parte sonora acompanha esse nível, com músicas que combinam bem com a estética e estão presentes durante praticamente toda a experiência. Algumas faixas acabam se repetindo nas longas sequências de diálogo, o que pode cansar, mas há variedade suficiente e bons momentos de destaque ao longo da campanha que amenizam essa sensação. O principal ponto positivo, no entanto, é a dublagem, que deixarei para me aprofundar quando falar da história e personagens.
Vingança em alta velocidade
O torneio Screamer reúne competidores do mundo inteiro em uma disputa de alta adrenalina e um prêmio de cem bilhões de dólares para a equipe vencedora. Quando esse valor é revelado logo no início, fica claro que a proposta é criar um universo que assume o absurdo para alinhar narrativa e jogabilidade, que também segue regras próprias.
Todas essas esferas são transmitidas através de um elenco robusto e diverso de personagens, que são destaque do jogo. Hiroshi assume a liderança dos Green Reapers sem ter certeza de que consegue substituir Quinn, carregando esse peso durante toda a campanha. Já Ritsuko, líder da Strike Force Romanda — um grupo famoso de K-pop dentro do universo do jogo — entra no torneio para investigar Aisha, que trabalhou com seu noivo antes de sua morte, três anos antes dos eventos da história, a fim de encontrar sentido e solução para o luto mal resolvido.
Esse cuidado se estende ao restante do elenco, pois ninguém é completamente “limpo”. Todos têm falhas, conflitos internos e motivações difíceis de aceitar. Em um momento em que grandes produções evitam dar nuances cinzas aos seus personagens — como em Marvel’s Spider-Man 2, no qual o elenco se recusa a sair de uma zona segura — Screamer vai na direção oposta. Aqui, os personagens recebem liberdade para serem desagradáveis, egoístas e injustos, fortalecendo o envolvimento com a narrativa.
Ainda assim, o ritmo não é perfeito, com algumas justificativas dúbias para corridas, e o formato de visual novel pode cansar em sessões longas, e mesmo com toda a construção, o final encerra a trama logo após o clímax, quando ainda havia espaço para desenvolver melhor as consequências.
No geral, o experimento funciona. Personagens como a enérgica Lavinia, o conturbado Noboru e o conflitante Gabriel ajudam a sustentar uma narrativa ambiciosa, que pode oscilar no ritmo, mas se mantém interessante pela força do elenco e pelas conexões bem construídas entre eles.
Inovação nos controles e limitações nas pistas
Cada carro apresenta variações no comportamento do drift, exigindo adaptação constante e adicionando profundidade, mesmo com um sistema relativamente simples na base.
Por outro lado, o design das pistas limita o potencial do sistema, posto que poucas curvas tiram proveito do controle fino que temos sobre o drift. Nenhuma se destaca em si pelos seus caminhos, apenas pela sua beleza. Apesar de contarem com um atalho em cada, nenhuma apresenta múltiplos caminhos ou variações mais profundas, algo que a série já explorava anteriormente. A sensação de muitas delas é de que colocaram circuitos de Gran Turismo dentro de um jogo que pede a liberdade e exagero de Mario Kart
A inteligência artificial dos oponentes parece excessivamente precisa, ignorando o caos que o jogo propõe. Ainda assim, o desafio mantém uma constância, quebrando esse equilíbrio apenas em uma fase específica, na qual o objetivo é realizar um strike no oponente na pior pista possível.
Além da campanha
O multiplayer local para até quatro jogadores é um destaque à parte, principalmente por ser cada vez mais raro nos dias de hoje. O modo online também está presente, embora não tenha sido possível testá-lo durante o período de análise. Ainda assim, pela base da jogabilidade, a expectativa é de partidas imprevisíveis, com momentos de caos, competitividade e frustração típicos do gênero.
“Como uma estrela cadente…”
Screamer é uma reinvenção audaciosa que funde com sucesso corridas arcade caóticas com a profundidade emocional de uma visual novel. Seu maior destaque é o elenco de personagens imperfeitos e moralmente cinzentos que conduzem uma narrativa envolvente, amparada por uma estética de anime deslumbrante. Embora o design das pistas seja conservador demais para seu sistema de drift com dois analógicos e o ritmo possa oscilar durante longas sequências de diálogo, a personalidade vibrante e o polimento técnico do jogo o tornam uma experiência única e memorável no gênero de corrida.
Prós
- Estética visual deslumbrante, unindo animação de alta qualidade a cenários vibrantes e iluminados;
- Narrativa madura, com personagens multifacetados que fogem dos clichês de “heróis perfeitos”;
- Sistema de drift singular, utilizando o analógico direito para uma pilotagem satisfatória;
- Trabalho de dublagem único, com uma diversidade linguística que traz autenticidade ao universo do jogo;
- Coop local para até quatro jogadores.
Contras
- Design de pistas que não explora totalmente o potencial caótico das mecânicas de jogo;
- Ritmo oscilante, com sequências de diálogos que podem se tornar cansativas em sessões longas;
- Falta de um modo de torneio personalizado nas opções arcade.
Screamer — PS5/XSX/PC — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Análise feita por Matheus de Oliveira
Fonte: GameBlast


























































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