Estudo da Prefeitura admite que nova drenagem não acabará com alagamentos em Ponta Negra
Um estudo técnico elaborado pela própria Prefeitura do Natal reconhece que os alagamentos em Ponta Negra continuarão ocorrendo mesmo após a nova obra de drenagem planejada para a região da engorda da praia. O documento também admite risco de erosão, sobrecarga hidráulica e transporte de sedimentos para a faixa de areia.
O material integra o Estudo Técnico Preliminar produzido pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) para contratação das obras de drenagem na orla de Ponta Negra. O texto cita diretamente os alagamentos pelo menos 17 vezes ao longo do documento.
Segundo o estudo, a área da praia possui declividade aproximada de 40 metros e baixa capacidade de absorção natural da água da chuva, fator que favorece o rápido escoamento superficial em direção à orla.
Documento reconhece sobrecarga do sistema atual
O relatório técnico afirma que, durante eventos de chuva intensa, o sistema atual de drenagem tende a operar sob forte pressão hidráulica.
O documento estima que, em episódios pluviométricos mais severos, o volume de água gerado possa atingir aproximadamente 30,5 mil metros cúbicos. Segundo o próprio estudo, isso “evidencia a magnitude das vazões envolvidas e a pressão exercida sobre o sistema de drenagem existente”.
A Prefeitura admite ainda que a insuficiência do sistema atual favorece o transporte de sedimentos em direção à faixa de areia, ampliando processos erosivos na orla.
Entre os objetivos declarados da nova obra estão justamente a redução dos alagamentos, contenção da erosão localizada, diminuição do escoamento superficial e redução do transporte de sedimentos para a praia.
Obra custará R$ 21 milhões e terá reservatórios subterrâneos
Segundo o estudo, a obra possui previsão de investimento de aproximadamente R$ 21 milhões. O projeto prevê implantação de três reservatórios subterrâneos de detenção e infiltração distribuídos em pontos estratégicos da orla.
A capacidade total prevista de armazenamento é de até 50 mil metros cúbicos de água. A proposta busca reduzir a velocidade do escoamento e minimizar a concentração de água lançada diretamente na faixa de areia.
A licitação está prevista para ocorrer no dia 27 de maio. A expectativa da Prefeitura é iniciar a implantação do novo sistema ainda no segundo semestre deste ano.
Secretário admite permanência dos “espelhos d’água”
Durante entrevista coletiva realizada na quarta-feira (13), o secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, Thiago Mesquita, afirmou que os chamados “espelhos d’água” continuarão existindo na praia mesmo após as intervenções previstas.
Segundo ele, eventos de chuva acima de 60 milímetros continuarão formando áreas de acúmulo de água na faixa de areia. O secretário argumentou que a nova estrutura deverá apenas reduzir o volume e a velocidade da água que chega à praia.
“O sistema está sendo melhorado, mas continua com a mesma concepção”, afirmou o secretário, segundo o documento reproduzido na reportagem.
Engorda alterou dinâmica hidráulica da praia
O estudo revela um problema estrutural pouco debatido desde a conclusão da engorda de Ponta Negra: a ampliação artificial da faixa de areia alterou diretamente a dinâmica de drenagem da região.
Com a nova configuração territorial da praia, grandes volumes de água passaram a percorrer distâncias maiores até alcançar o mar, aumentando o acúmulo superficial, a formação de canais temporários e a pressão sobre os dissipadores existentes.
Isso ajuda a explicar por que os chamados “espelhos d’água” passaram rapidamente a se transformar em uma das principais controvérsias urbanas envolvendo a obra.
Documento desmonta discurso de solução definitiva
O próprio estudo técnico da Prefeitura desmonta parcialmente a narrativa pública de que a nova drenagem resolverá integralmente os problemas da orla.
Embora a obra tenha potencial de reduzir impactos hidráulicos, o documento admite explicitamente que eventos de chuva forte continuarão produzindo acúmulo de água, sobrecarga operacional e risco erosivo em determinados pontos da praia.
Na prática, isso significa que a Prefeitura trabalha não com eliminação definitiva do problema, mas com tentativa de amortecimento hidráulico de uma área cuja dinâmica urbana e geográfica se tornou muito mais sensível após a intervenção costeira.
Ponta Negra virou laboratório permanente de engenharia urbana
O caso revela uma característica central das grandes intervenções costeiras contemporâneas: obras de engorda raramente encerram problemas urbanos. Elas frequentemente inauguram novos ciclos permanentes de adaptação hidráulica, manutenção e correção estrutural.
Ao modificar artificialmente a relação entre cidade, drenagem e faixa litorânea, a intervenção cria novas exigências de engenharia urbana contínua.
Isso transforma Ponta Negra em uma espécie de laboratório permanente de gestão costeira, onde cada nova solução técnica passa a gerar novas demandas operacionais, ambientais e financeiras para o poder público municipal.





































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