A nova ameaça tarifária dos Estados Unidos contra produtos brasileiros não caiu do céu, nem nasceu de um mal-entendido comercial e muito menos poderia ser tratada como simples disputa diplomática. Ela aparece no mesmo roteiro que já havia custado caro ao Brasil: um Bolsonaro vai aos Estados Unidos, conversa com o trumpismo, transforma crise interna em munição externa e, pouco depois, quem paga a conta não é a família instalada no poder político, mas a empresa que exporta, o trabalhador que depende da produção e o país que precisa vender para gerar renda.
Sim amiguinhos, horas depois da proposta norte-americana de taxar produtos brasileiros em 25%, Donald Trump publicou foto com Flávio Bolsonaro. Coincidência? De jeito nenhum: é método.
Primeiro, Eduardo Bolsonaro operou nos Estados Unidos contra interesses brasileiros enquanto buscava apoio político externo para sua guerra doméstica. Agora, Flávio Bolsonaro aparece no mesmo circuito de poder e, de novo, o Brasil recebe a fatura. A família que passou anos gritando “Brasil acima de tudo” conseguiu produzir uma engenharia política perversa: quando seus interesses entram em choque com o país, eles escolhem a própria sobrevivência política e deixam a economia brasileira sangrar.
A tarifa não pune Lula, não pune Brasília e não pune um partido. A tarifa atinge frigoríficos, indústrias, portos, produtores rurais, empresas de máquinas, exportadores de café, madeira, frutas, pescados, aço e aeronaves. Sim, pois quando uma decisão dessa natureza entra na vida real, ela não chega como discurso ideológico, mas como demissão, pedido cancelado, fábrica desacelerada, salário ameaçado e mercado perdido.
A anatomia da irresponsabilidade é claríssima: a bravata rende palanque para os Bolsonaros, mas o prejuízo desce pela cadeia produtiva até alcançar quem nunca entrou na Casa Branca, nunca tirou foto com Trump e nunca usou o comércio exterior como arma eleitoral.
O escândalo maior, porém, está na inversão moral da cena. Os Bolsonaros vendem a imagem de patriotas enquanto celebram canais de influência com um governo estrangeiro que usa tarifa contra empresas brasileiras. Chamam adversários de traidores enquanto sua própria movimentação política se conecta a medidas que encarecem o custo do Brasil no mundo. Acusam o governo brasileiro de prejudicar o país enquanto orbitam uma máquina política estrangeira que trata o Brasil como alvo negociável, mercado a ser pressionado e país a ser dobrado.
O PIX virou uma das desculpas norte-americanas nesse pacote de pressão. A engrenagem é indecente de tão clara: o Brasil criou uma solução pública que barateou pagamentos, reduziu dependência de intermediários privados e entregou eficiência a milhões de pessoas. Empresas estrangeiras perderam espaço potencial. O governo dos Estados Unidos respondeu com pressão tarifária. E a direita bolsonarista, em vez de defender a economia brasileira — como faria qualquer patriotismo que não fosse fantasia de comício — tentou transformar a agressão externa em mera munição contra Lula. O resultado é terra arrasada: quando o país não serve ao projeto de poder dos Bolsonaros, eles aceitam ver o país sangrar.

O setor produtivo já sentiu o gosto amargo dessa aventura. Empresas brasileiras perderam R$ 141,8 bilhões em valor de mercado desde a primeira escalada tarifária de Trump (presentinho de “Dudu” Bolsonaro…), com Petrobras, Vale, PetroRio, Banco do Brasil, Gerdau, TIM, Embraer e Santander Brasil entre as companhias mais afetadas. A Bolsa não reage a xingamentos ou gritos eleitoreiros, mas sim a risco, fluxo de caixa, expectativa de lucro, custo de capital e possibilidade de ruptura comercial. Quando uma família política ajuda a empurrar o Brasil para esse tipo de ambiente, o dano deixa de ser retórico e entra no balanço das empresas. Em outras palavras, o que Brasília chama de “tarifa”, o chão da economia conhece como perda de pedido, negociação refeita, cliente escapando e turno ameaçado.
É aqui que a farsa patriótica desmorona. Patriotismo sem defesa concreta do emprego nacional é fantasia de palanque. Patriotismo que posa com Trump enquanto exportador brasileiro perde mercado é encenação. Patriotismo que transforma sanção comercial em instrumento de disputa contra o governo do próprio país é sabotagem política travestida de alinhamento ideológico. Nenhuma bandeira tremulada em motociata apaga o fato econômico: o bolsonarismo internacionalizou sua guerra e empurrou a conta para a economia brasileira.
O segundo presente de grego dos Bolsonaros não é apenas uma tarifa. É a reincidência de um comportamento político que trata o Brasil como dano colateral. Eduardo abriu o caminho ao buscar apoio estrangeiro contra instituições brasileiras; Flávio aparece agora no mesmo tabuleiro, no mesmo eixo trumpista, no mesmo momento em que Washington volta a mirar produtos nacionais. A família Bolsonaro não precisa assinar a ordem tarifária para carregar a responsabilidade política pelo ambiente que ajudou a alimentar.
A defesa previsível será dizer que a culpa é de Lula, do PIX, do Supremo, do Banco Central, da política externa ou de qualquer outro alvo conveniente. Mas a lógica não fecha. Quem defende o Brasil tenta reduzir tarifa, preservar mercado, proteger empresa e blindar trabalhador. Quem usa Washington como extensão da disputa doméstica não está defendendo o país: o está oferecendo como peça descartável de negociação.
O Brasil pode discordar de governos, presidentes e políticas públicas sem pedir punição externa contra si mesmo. Essa é a fronteira que separa oposição democrática de aventura antinacional. Os Bolsonaros cruzaram essa fronteira quando perceberam que a pressão estrangeira poderia servir como arma contra seus adversários internos. O problema é que ela não mira apenas o Planalto: atravessa a indústria, o agro, a Bolsa, os portos, os empregos e a arrecadação. O Brasil real.
O tarifaço mostra uma verdade incômoda: a família que mais gritou amor ao Brasil ajudou a criar as condições para que o país fosse tratado como alvo econômico por seu principal padrinho político internacional. O custo institucional é a degradação da soberania; o custo econômico é a perda de mercado; o custo político é a naturalização de uma direita que busca fora do país a força que não consegue obter dentro das regras nacionais; o custo social é pago por trabalhadores que não têm sobrenome Bolsonaro, não frequentam a Casa Branca e não lucram politicamente com o caos.





































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