Quando Eduardo Luz conta que é jogador profissional de pôquer, nem sempre a reação é de curiosidade. “Isso aí vicia, só perde dinheiro, cuidado”, já ouviu mais de uma vez. Aos 45 anos, o carioca conhece bem o preconceito que ainda acompanha as cartas. Antes de transformar o pôquer em profissão, há quatro anos, ele era funcionário público. A mudança preocupou pessoas próximas. Eduardo havia deixado uma carreira convencional para entrar em um universo frequentemente associado a cassino e jogo de azar. A resposta veio de uma maneira bastante objetiva. “Quando as pessoas viram as contas sendo pagas todos os meses, a preocupação acabou”, conta Eduardo, aos risos.
A história de Eduardo ajuda a revelar uma face pouco conhecida do pôquer. Por trás das grandes premiações e das imagens de jogadores cercados de fichas, profissionais descrevem uma rotina que envolve horas de estudo, cálculos de probabilidade, preparação física e psicológica, controle emocional e rigor na administração do dinheiro destinado às competições. O paulista Stefano Porto, de 35 anos, profissional há três, patrocinado pela Gorila’s Poker, calcula dedicar aproximadamente quatro horas à preparação antes de começar a jogar. Academia, estudo e meditação fazem parte do cotidiano. Ele também frequenta aulas de pôquer e trabalha a preparação psicológica. “A maior parte da carreira de um jogador de pôquer não é viajando, e sim em um quarto, estudando por horas e jogando por outras horas, em frente ao computador”, afirma Stefano.
Para Stefano, a popularização das bets e de jogos de cassino online voltou a aproximar, no imaginário de algumas pessoas, atividades que possuem características diferentes. Ele conta que, ao revelar sua profissão, já ouviu como resposta: “Eu também jogo cassino, roleta, blackjack”. Os próprios jogadores reconhecem que ela existe. É justamente esse ponto que torna a discussão mais complexa. Uma carta improvável pode decidir uma mão e até interferir fortemente no resultado de curto prazo. A questão é saber o que acontece quando milhares de decisões são acumuladas durante anos.
Vitor Villela, de 33 anos, joga há 13, mas não se apresenta como profissional. Como não depende financeiramente da modalidade, define sua relação com o pôquer como um “hobby lucrativo”. Sua experiência acrescenta um contraponto à discussão. “Há muitos bons jogadores que não conseguem o resultado esperado devido à alta variância do jogo, mesmo jogando muito bem”, observa.

Pesquisas acadêmicas já investigaram essa fronteira entre acaso e habilidade. Estudo publicado na revista científica PLOS ONE, baseado em uma ampla base de partidas de pôquer online, encontrou persistência no desempenho dos jogadores e identificou um componente significativo de habilidade, que se torna mais perceptível à medida que aumenta o número de mãos analisadas. Isso não significa ausência de risco nem garantia de lucro. A capacidade de administrar perdas, aliás, aparece como uma das exigências relatadas pelos jogadores. Vinicio Palaia Neto, de 42 anos e profissional há dois, admite que uma derrota inesperada pode mexer com o emocional mesmo de quem conhece profundamente a modalidade.
“Com o tempo, tiltamos menos, mas dizer que não tiltamos é uma mentira”, afirma. Tilt é o termo utilizado no pôquer para o estado de desequilíbrio emocional em que frustração ou irritação começam a interferir nas decisões seguintes. Outro elemento fundamental da profissionalização é a gestão de banca. Conhecida no meio como bankroll, a banca é o dinheiro separado especificamente para disputar torneios. Eduardo diz já ter visto bons jogadores quebrarem financeiramente por desrespeitarem os próprios limites. Stefano também defende a separação entre o capital destinado ao pôquer e os recursos necessários à vida pessoal. A disciplina financeira ajuda ainda a diferenciar o profissional do comportamento impulsivo de tentar recuperar rapidamente uma perda. Nenhuma estratégia, entretanto, elimina os riscos associados a uma atividade que envolve dinheiro.
O pôquer diante da lei
A própria legislação brasileira oferece um elemento importante para o debate. A Lei das Contravenções Penais define jogo de azar como aquele em que ganho e perda dependem “exclusiva ou principalmente da sorte”. O pôquer não é citado nominalmente nessa definição. No cenário internacional, a World Poker Federation tornou-se, em novembro de 2024, membro afiliado da International Mind Sports Association (IMSA), organização internacional que reúne entidades ligadas aos chamados esportes da mente. A filiação fortaleceu institucionalmente o reconhecimento dos componentes estratégico e intelectual da modalidade.
O pôquer também chegou ao ambiente acadêmico. A Unicamp já incluiu em sua programação conteúdos relacionados ao jogo, envolvendo estratégia e tomada de decisão. Depois de mais de uma década nas mesas, Vitor encontrou uma maneira simples de explicar a modalidade para quem só consegue enxergar o baralho. “O jogo de xadrez é um esporte da mente. O pôquer é um xadrez com o baralho”, define Vitor. A comparação não elimina uma diferença fundamental: no xadrez, todas as peças estão visíveis. No pôquer, é preciso decidir sem conhecer as cartas do adversário.
Talvez o preconceito também tenha algo dessa informação incompleta. Quem observa de fora enxerga cartas, fichas, dinheiro e premiações. Nem sempre vê as horas de estudo, as derrotas, os cálculos, a disciplina financeira e a preparação emocional existentes antes de uma decisão na mesa. E é justamente o que permanece escondido que esses jogadores querem colocar sobre a mesa.
Imagens: Divulgação
Fonte: Assessoria de Comunicação










































































