O Brasil chegou ao segundo trimestre de 2026 com a taxa de desemprego em 5,4%, uma das menores já registradas pelo IBGE, mas a melhora do mercado de trabalho ainda não se converteu em alívio equivalente no orçamento doméstico. Cerca de R$ 30 de cada R$ 100 da renda familiar estão comprometidos com juros e pagamento do principal das dívidas. O resultado é um país com mais gente trabalhando, porém ainda cercado por insegurança financeira. (IBGE, FGV)
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O descompasso aparece no Índice de Confiança do Consumidor da Fundação Getulio Vargas, que permanece abaixo de 100 pontos — faixa considerada pessimista — em todos os níveis de renda. A confiança melhora à medida que o rendimento aumenta, mas nem mesmo os grupos mais ricos demonstram o entusiasmo que normalmente acompanharia um ciclo de desemprego baixo e expansão da renda.
A média melhora, mas o perfil da população também mudou
Parte do avanço dos indicadores trabalhistas decorre de uma transformação na composição da população. Os brasileiros estão mais escolarizados e envelheceram. Como pessoas com maior nível de instrução costumam apresentar desemprego menor e remuneração mais alta, o aumento desse grupo melhora as médias nacionais mesmo quando a situação dentro de cada faixa educacional pouco avança.
Um exercício contrafactual do FGV IBRE manteve a estrutura educacional e etária da população nos níveis de 2012. Nesse cenário, a taxa de desemprego do primeiro trimestre de 2026 seria de 7,4%, e não os 6,1% oficialmente registrados naquele período. O rendimento médio cairia de R$ 3.722 para R$ 2.873.
Quando os pesquisadores também corrigiram a renda pelo comportamento dos preços dos alimentos, o valor estimado recuou para R$ 2.361. A conta ajuda a explicar por que uma família pode ouvir que a renda média cresceu e, ao mesmo tempo, perceber que leva menos produtos para casa: alimentos ocupam parcela maior do orçamento dos mais pobres e afetam diretamente a sensação de poder de compra.
O crédito chega a mais pessoas — e cobra mais delas
A ampliação do acesso ao sistema financeiro colocou crédito ao alcance de milhões de brasileiros, mas essa inclusão ocorreu com presença crescente de modalidades caras. Cheque especial, empréstimo pessoal sem consignação, cartão rotativo e cartão parcelado representavam aproximadamente 25% do crédito livre das pessoas físicas em abril de 2026, maior proporção desde agosto de 2007.
O problema não está apenas no tamanho da dívida. Está no custo e no prazo. Empréstimos com juros elevados exigem parcelas maiores, comprometem a renda por mais tempo e deixam pouco espaço para despesas como alimentação, energia, saúde, educação e lazer. Se surge um gasto inesperado, a margem já estreita pode desaparecer.
O Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central confirma que o comprometimento da renda cresceu com maior intensidade entre tomadores de menor renda. O documento também identifica elevada participação de cartões e crédito não consignado, justamente modalidades que aumentam a vulnerabilidade das famílias.
A dívida pesa mais na base da renda
A desigualdade aparece com nitidez quando o endividamento é separado por faixa salarial. Entre as pessoas que recebem até três salários mínimos, 83,6% estavam endividadas em abril. Quase 40% tinham contas em atraso, e 18% declaravam não possuir condições de quitá-las.
Nesse mesmo grupo, a proporção dos que se consideravam muito ou mais ou menos endividados passou de 42,8%, em maio de 2021, para 54,1% em abril de 2026. Entre quem ganha mais de dez salários mínimos, o endividamento também é elevado, mas o atraso e a incapacidade de pagamento aparecem com frequência bem menor.
A diferença revela o mecanismo por trás da confiança deprimida. Uma família de renda alta pode reorganizar gastos para absorver uma parcela maior. Na base da pirâmide, a mesma proporção pode significar escolher entre pagar a dívida, abastecer a despensa ou manter uma conta essencial em dia.
Renegociar resolve o atraso, não a origem do problema
O Índice de Desconforto de Crédito, desenvolvido pela FGV EAESP, reúne três fatores: inadimplência, comprometimento da renda e participação de empréstimos caros. Depois de cair de 0,90 para 0,67 com o primeiro Desenrola, o indicador voltou a subir e chegou a 0,94 em janeiro de 2026, o maior nível da série iniciada em 2014. (FGV)
A renegociação pode reduzir parcelas, conceder descontos e retirar o nome do consumidor dos cadastros de inadimplência. O alívio, porém, tende a ser passageiro quando permanecem os juros elevados, a baixa capacidade de poupança e a necessidade de recorrer novamente ao crédito para pagar despesas correntes.
A melhora do emprego continua sendo real, mas seu efeito social fica limitado quando parte considerável do salário já chega comprometida. Enquanto o crescimento da renda for absorvido pelo serviço das dívidas e pelas despesas básicas, o mercado de trabalho poderá exibir números fortes sem produzir a mesma sensação dentro de casa.




























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