Os maus estão vencendo. Não porque tenham apresentado argumentos moralmente superiores, mas porque conseguiram convencer milhões de pessoas de que a eficiência absolve a crueldade, o medo suspende a lei e determinados seres humanos podem ser descartados em nome da ordem. De Washington a San Salvador, de Gaza às urnas europeias, repete-se o mesmo método: escolhe-se um inimigo, retira-se dele a proteção jurídica e transforma-se sua desumanização em política pública. A novidade não é o mal. É a perda da vergonha de praticá-lo.
📳Clique aqui para seguir o canal do JOL RN no WhatsApp
Chamar esses governantes de maus não é recorrer a um maniqueísmo infantil nem confundir divergência política com perversidade. O mal político pode ser reconhecido objetivamente pelos atos que produz: execução sem julgamento, prisão sem acusação, tortura, desaparecimento forçado, perseguição a opositores, extermínio de populações civis, invasão de países soberanos e apropriação de suas riquezas. Quando tudo isso deixa de ser um desvio e passa a constituir um método de governo, não estamos mais discutindo preferência ideológica, mas sim o abandono deliberado dos limites que separam o Estado da barbárie.
A nova brutalidade não pede desculpas
Em janeiro de 2026, os Estados Unidos atacaram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro dentro do território venezuelano. Maduro comandava uma ditadura, reprimia opositores e não merece qualquer defesa política. Nada disso, porém, concede a outro país o direito de bombardear uma nação soberana, sequestrar seu governante e anunciar que passará a administrar seus recursos. A ilegalidade de uma ditadura não transforma uma invasão estrangeira em ato democrático.
Especialistas das Nações Unidas classificaram a ação norte-americana como agressão e violação da soberania venezuelana. Meses depois, surgiu um acordo pelo qual o Pentágono passou a deter 35% de participação em uma empresa beneficiada com contratos para explorar campos de petróleo venezuelanos, além de acesso preferencial à produção. O arranjo envolve reservas estimadas em aproximadamente 65 bilhões de barris e enfrenta questionamentos sobre sua legalidade até dentro da Venezuela (Reuters).
Pode-se adornar isso com expressões como “transição”, “estabilidade” ou “segurança energética”. O fato permanece: uma potência militar atacou um país e, em seguida, obteve acesso privilegiado à riqueza encontrada debaixo do território atacado. Isso não é libertação: é imperialismo com departamento de relações públicas.
O mesmo desprezo pelos limites legais apareceu nos ataques ordenados pelos Estados Unidos contra embarcações no Caribe e no Pacífico sob a alegação de combate ao narcotráfico. A ONU advertiu que os bombardeios violavam o direito internacional e poderiam constituir execuções extrajudiciais. Suspeita não é prova; acusação não é sentença; um barco destruído não pode apresentar defesa. O Estado que mata o acusado e depois utiliza o cadáver como comprovação da culpa aboliu o julgamento por meio de um míssil (Alto Comissariado da ONU).
Quando a polícia esconde o rosto, a democracia também se esconde
Comparações com o nazismo exigem responsabilidade. Os Estados Unidos de hoje não são a Alemanha de Hitler, e o ICE não é literalmente a Gestapo. Mas esse cuidado histórico não pode se transformar em cegueira voluntária diante de agentes mascarados, operações em veículos descaracterizados, prisões sem mandado judicial, denúncias de abordagens por perfil racial e detenções de cidadãos norte-americanos.
A Gestapo não deve ser lembrada apenas como nome próprio de uma instituição extinta. Ela representa uma lógica de poder: a polícia anônima, a culpa presumida, o desaparecimento do detido, a defesa inacessível e a coerção protegida pelo medo. Não é preciso esperar a reprodução integral de um regime totalitário para reconhecer métodos que democracias deveriam ter aprendido a rejeitar.
A própria Suprema Corte dos Estados Unidos reafirmou que estrangeiros submetidos à deportação têm direito a notificação e revisão judicial. Ainda assim, 252 venezuelanos foram enviados pelo governo Trump à megaprisão Cecot, em El Salvador. Uma investigação da Human Rights Watch e da organização Cristosal concluiu que aproximadamente metade deles não possuía histórico criminal e apenas 3% haviam sido condenados nos Estados Unidos por crimes violentos ou potencialmente violentos.
Os pesquisadores documentaram espancamentos, tortura, desaparecimento forçado, condições desumanas e violência sexual. Segundo o relatório, as agressões não foram atos isolados de alguns carcereiros, mas violações sistemáticas. O governo norte-americano pagou milhões de dólares para que El Salvador mantivesse esses homens presos (Human Rights Watch) e bem longe da imprensa.
É difícil imaginar demonstração mais clara da falência moral de um governo: deportar pessoas sem assegurar defesa efetiva, terceirizar seu encarceramento para outro país e entregá-las a um sistema no qual seriam torturadas. A distância entre Washington e a cela salvadorenha não rompe a responsabilidade de quem colocou o prisioneiro naquele avião.
Bukele transformou a exceção em sistema de governo
As gangues de El Salvador aterrorizaram comunidades, extorquiram trabalhadores, recrutaram crianças e fizeram do país um dos mais violentos do planeta. Bukele reduziu drasticamente os homicídios e devolveu a muitos salvadorenhos uma liberdade elementar: sair de casa sem temer a execução por uma organização criminosa. Negar esse resultado seria intelectualmente desonesto.
Mas reconhecer o resultado não obriga ninguém a aceitar o método. Desde 2022, o chamado estado de exceção permite prisões sem ordem judicial e mantém suspensas garantias fundamentais. Em quase quatro anos, aproximadamente 90 mil pessoas foram detidas, enquanto cerca de 8 mil acabaram libertadas por falta de provas. Oito mil inocentados não são um detalhe estatístico. São a demonstração de que a máquina também recolheu quem não deveria estar nela.
Um grupo internacional de juristas apresentou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos um relatório com 403 mortes sob custódia estatal, incluindo quatro crianças, e 540 casos de desaparecimento forçado. Os especialistas apontaram bases razoáveis para investigar crimes contra a humanidade, como tortura, assassinato, perseguição e violência sexual. O governo salvadorenho rejeita as acusações e nega a ocorrência de desaparecimentos forçados (G1/France Presse).
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos reconheceu a redução extraordinária da violência, mas concluiu que os próprios avanços na segurança retiraram a justificativa para a manutenção permanente da emergência. A comissão recordou algo que deveria ser óbvio: garantias judiciais indispensáveis não podem ser suspensas em circunstância alguma.
O devido processo legal não é um presente oferecido aos culpados. É o mecanismo criado para descobrir quem é culpado e quem não é. Aboli-lo porque existem criminosos perigosos equivale a quebrar a balança porque alguns réus certamente merecem condenação. Sem investigação individual, defesa, juiz independente e prova verificável, o Estado deixa de combater o crime de acordo com a lei e passa a escolher, sozinho, quem será tratado como criminoso.
A “bukelização” seduz porque apresenta resultados rápidos e esconde suas vítimas. A prisão-modelo é iluminada, limpa, geometricamente organizada e oferecida às câmeras como parque temático do punitivismo. Fora da vitrine permanecem os presídios inacessíveis, as famílias sem informações, os julgamentos coletivos e os corpos devolvidos — quando devolvidos. A propaganda mostra a cela. O que ela precisa esconder é a ausência de Justiça.
A Europa voltou a votar no que jurou impedir
No último domingo, a Alternativa para a Alemanha conquistou 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt, mais que dobrando seu resultado de 2021 e obtendo a primeira vitória estadual da extrema direita alemã desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O partido ficou próximo da maioria absoluta no Parlamento regional, embora as demais legendas ainda rejeitem uma coalizão que o leve ao governo (Resultado oficial, Reuters).
A gravidade não está apenas no tamanho da votação. Está no país em que ocorreu. A Alemanha ergueu sua ordem constitucional do pós-guerra sobre a consciência de que a democracia pode utilizar as próprias eleições para destruir-se. Mesmo assim, uma legenda cujos integrantes já empregaram slogans nazistas, relativizaram o Holocausto e defenderam a transformação de cidadãos de origem estrangeira em alemães de segunda classe conquistou quase metade dos votos de um estado.
A extrema direita europeia não reapareceu de repente. Ela sobreviveu ao pós-guerra, reorganizou redes, substituiu referências explícitas ao fascismo por palavras como “identidade”, “civilização”, “família” e “ordem” e aprendeu a disputar o poder por dentro das instituições. Uma reconstituição histórica publicada pela Swissinfo mostra que essas conexões transnacionais começaram a ser reconstruídas logo depois de 1945 e ganharam coordenação política a partir das décadas seguintes.
Agora, partidos nacionalistas que dizem defender a soberania de seus países trabalham juntos em conferências, parlamentos, redes digitais e fóruns internacionais. Compartilham estratégias eleitorais, inimigos, métodos de comunicação e guerras culturais. A contradição é apenas aparente: cada um afirma que sua nação é superior, mas todos precisam da mesma internacional autoritária para conquistar o poder.
A maior vitória desses movimentos, entretanto, não ocorre quando elegem um presidente ou primeiro-ministro. Acontece quando obrigam partidos tradicionais a copiar sua linguagem, adotar sua política migratória, aceitar sua definição de inimigo e disputar quem promete punir com maior ferocidade. A extrema direita vence duas vezes: quando recebe o voto e quando determina aquilo que seus adversários precisam defender para não perder o voto.
A falsa moralidade que transforma crueldade em virtude
Esses governos gostam de apresentar-se como guardiões da moral, da família, da fé e da civilização ocidental. Mas que moralidade é essa que exalta a vida enquanto bombardeia civis, invoca a lei enquanto elimina julgamentos, defende a soberania enquanto invade países e celebra a propriedade enquanto se apropria do petróleo alheio?
Um conservadorismo que não conserva a vida, a dignidade humana, o Estado de Direito, a prudência institucional e os limites impostos ao poder não é conservador. Conserva apenas hierarquias. Protege quem está no alto e exige obediência de quem permanece embaixo.
O governo de Benjamin Netanyahu levou essa contradição ao limite. O massacre cometido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 foi uma atrocidade e seus responsáveis devem responder por ela. Mas nenhum crime, por mais monstruoso que seja, concede licença para exterminar um povo. A vítima de ontem não recebe autorização moral para produzir as vítimas de amanhã.
Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza. O governo israelense rejeitou a conclusão. O processo movido pela África do Sul ainda aguarda julgamento definitivo na Corte Internacional de Justiça, mas o Tribunal Penal Internacional já expediu mandado de prisão contra Netanyahu por suspeitas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Essas não são acusações inventadas por militantes em uma rede social. São procedimentos de instituições criadas exatamente para impedir que governantes transformem poder militar em licença para matar. Quando a reação automática de um governo é atacar o tribunal, desacreditar os investigadores e ameaçar quem exige apuração, o objetivo deixa de ser demonstrar inocência e passa a ser destruir a autoridade capaz de julgá-lo.
O aplauso popular não absolve ninguém
Bukele tem apoio popular. Trump venceu eleições. A AfD recebeu milhões de votos. Netanyahu mantém uma base política. Esse apoio ajuda a explicar o poder, mas não purifica seus atos. Uma injustiça aprovada por maioria continua sendo injustiça. Uma tortura televisionada não se torna legítima porque recebeu aplausos.
É compreensível que cidadãos abandonados por governos ineficientes desejem segurança, emprego, fronteiras administradas e respostas contra o crime. O eleitor que teme uma gangue, uma guerra ou a perda de renda não é automaticamente fascista. Mas o medo legítimo passa a produzir cumplicidade quando alguém aceita conscientemente que inocentes sejam presos, estrangeiros desapareçam, crianças sejam mortas ou povos sejam subjugados, desde que o preço seja pago por pessoas consideradas inferiores ou distantes.
A democracia não promete uma sociedade sem crimes. Ela promete que o Estado não se tornará criminoso para combatê-los. Direitos humanos não existem para premiar pessoas bondosas; existem porque governos erram, mentem, perseguem e abusam. São necessários principalmente quando o acusado é odiado, porque ninguém precisa de proteção contra o poder quando já conta com a simpatia da maioria.
Quem responde a denúncias de tortura perguntando “e os direitos das vítimas dos criminosos?” oferece uma escolha falsa. O Estado tem o dever de proteger as vítimas, investigar os crimes, prender os responsáveis e julgá-los. O que não pode fazer é fabricar novas vítimas e chamá-las de custo operacional. Segurança e Justiça não são adversárias. Sem Justiça, resta apenas a administração política do medo.
Os primeiros expulsos da lei nunca são os últimos
Os maus estão vencendo porque descobriram que não precisam convencer a sociedade a amar a violência. Basta ensiná-la a considerar algumas vítimas indignas de compaixão. Primeiro vêm os supostos terroristas, depois os imigrantes, os opositores, os jornalistas, os manifestantes, os estrangeiros, as minorias e todos aqueles que o governante tiver interesse em acrescentar à lista.
Também vencem porque pessoas decentes passaram a tratar a indignação moral como ingenuidade. Palavras como perversidade, crueldade e maldade foram expulsas do vocabulário político em nome de uma falsa sofisticação. No lugar delas surgiram “danos colaterais”, “medidas excepcionais”, “remoções”, “pacificação” e “soluções de segurança”. A linguagem foi higienizada para que a barbárie pudesse entrar limpa na sala.
O mal político não exige necessariamente homens que se considerem maus. Precisa de governantes convencidos de que seus objetivos justificam qualquer meio, burocratas dispostos a obedecer, propagandistas preparados para transformar abuso em espetáculo e cidadãos que aceitem a desumanização desde que ela comece longe de suas casas.
É por isso que os maus estão vencendo. Não porque sejam invencíveis, mas porque ainda estamos negociando quais seres humanos merecem a proteção da lei. Essa negociação já representa uma derrota: direitos que dependem da nacionalidade, da religião, da cor, da ficha policial ou da utilidade política deixam de ser direitos e se tornam favores concedidos pelo poder.
E todo favor concedido pelo poder pode ser retirado. Os primeiros seres humanos lançados para fora da lei nunca são os últimos.










































































