Para milhões de brasileiras, a violência deixou de ser apenas um risco a evitar e passou a funcionar como uma força que reorganiza a própria vida. Pesquisa nacional dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que 98% das mulheres adotam alguma estratégia para reduzir a possibilidade de sofrer violência, enquanto 94% dizem se sentir inseguras no cotidiano. O efeito ultrapassa cuidados como evitar ruas ou sair à noite: chega ao lazer, à mobilidade, à vida profissional, aos estudos e até à escolha de onde morar.
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Quase oito em cada dez mulheres relatam ter sofrido violência
O levantamento, denominado Segurança das mulheres: percepção da sociedade brasileira sobre violência, ouviu 1.500 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, entre 22 e 30 de abril de 2026. As entrevistas foram digitais, por autopreenchimento, e a margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais. A pesquisa foi realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber.
O dado mais grave ajuda a explicar por que o medo se incorporou à rotina: 78% das mulheres entrevistadas afirmaram já ter sofrido ao menos um tipo de violência. A insegurança cotidiana também apresenta diferença entre os sexos. Entre elas, 94% dizem se sentir inseguras diante da violência, contra 84% dos homens.
Nos deslocamentos pela cidade, 94% das mulheres relatam medo da violência, ante 90% dos homens. A diferença percentual parece menor nesse recorte, mas a pesquisa mostra que, entre as mulheres, o receio se converte com maior frequência em mudanças concretas de comportamento.
A cidade passa a ser percorrida por uma espécie de mapa do risco
A estratégia mais comum é evitar determinados lugares, comportamento relatado por 90% das entrevistadas. Outros 88% evitam divulgar informações pessoais ou localização nas redes sociais; 84% deixam de usar o celular na rua; 83% comunicam a alguém seus trajetos e horários; e outros 83% evitam sair à noite.
A lista revela algo maior do que precauções isoladas. A insegurança cria uma rotina permanente de cálculo: por onde passar, quando sair, quem avisar, o que carregar, qual informação publicar e qual transporte escolher.
O fenômeno aparece também nas escolhas financeiras e de mobilidade. Oito em cada dez mulheres evitam acessar aplicativos bancários quando estão na rua; 77% compartilham a localização com pessoas de confiança; 69% alteram trajetos habituais; e 66% recorrem a carro ou moto por aplicativo para não precisar caminhar pelas ruas. O mesmo percentual afirma pedir companhia ao sair de casa.
Medo começa a cobrar seu preço em lazer, trabalho e estudo
Essa adaptação contínua produz um custo que dificilmente aparece nas estatísticas tradicionais da criminalidade. Sessenta e dois por cento das mulheres já mudaram hábitos de lazer para evitar situações de violência, enquanto 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam. Mais da metade, 56%, já utilizou algum meio de transporte em vez de caminhar, mesmo quando o destino ficava perto.
O impacto se torna ainda mais profundo quando a preocupação com segurança interfere nas possibilidades de ascensão social. Quarenta e cinco por cento afirmam já ter deixado passar uma oportunidade de emprego ou estudo por medo da violência. Outros 44% chegaram a pensar em mudar de bairro ou de cidade para se sentirem mais seguras.
Nesse ponto, a violência produz uma consequência que não depende necessariamente de a agressão ocorrer. A possibilidade percebida de violência já é capaz de limitar oportunidades. Uma vaga de trabalho distante, um curso noturno, uma atividade de lazer ou um percurso feito a pé podem adquirir um custo adicional para quem precisa avaliar também o risco da viagem, do horário ou do lugar.
É uma espécie de tributação invisível sobre a liberdade de circulação: não aparece no preço formal da passagem, do curso ou do emprego, mas influencia quem pode aceitá-los e em quais condições.
Proteção pessoal vira equipamento da vida cotidiana
Parte das entrevistadas adota medidas ainda mais diretas. Segundo a pesquisa, 27% praticam ou já praticaram técnicas de defesa pessoal, enquanto 26% carregam objetos destinados à própria proteção, entre eles spray de pimenta e alarmes pessoais.
Outras estratégias também revelam como uma responsabilidade que deveria ser compartilhada por instituições públicas é parcialmente transferida para a rotina individual. A mulher muda o trajeto, paga por um transporte diferente, evita determinado horário, comunica sua localização e escolhe onde pode ou não estar.
Isso não significa que todas essas decisões decorram de uma situação objetiva e idêntica de risco. A pesquisa mede experiências declaradas e percepção de insegurança. Mas exatamente por isso revela uma dimensão importante do problema: mesmo quando não ocorre um crime, a expectativa de que ele possa acontecer já modifica comportamentos.
Mulheres cobram várias esferas do poder público
As entrevistadas não atribuem a responsabilidade pela segurança a uma única instituição. Polícias Militar e Civil são citadas por 73%, seguidas pelos governos federal e estadual, ambos com 69%, e pelos governos municipais, com 66%.
A avaliação do desempenho institucional, porém, é predominantemente negativa. Segundo os resultados divulgados, 74% avaliam negativamente o Legislativo no enfrentamento à violência cotidiana; 72%, os governos estaduais; e 71%, tanto o Poder Judiciário quanto o governo federal.
Essa percepção ajuda a explicar outro dado do levantamento: entre as medidas consideradas importantes pelas entrevistadas aparecem a ampliação dos canais de denúncia e apoio, citada por 95%, a melhoria da infraestrutura urbana, incluindo transporte, iluminação e espaços públicos, com 93%, e a criação ou ampliação de políticas de proteção às mulheres, também com 93%.
O resultado desloca o problema de uma interpretação exclusivamente policial. Iluminação, transporte, desenho dos espaços urbanos, canais de denúncia, proteção às vítimas e atuação do sistema de Justiça formam uma rede de segurança, e falhas em diferentes pontos dessa rede podem aumentar a sensação de vulnerabilidade.
Segurança das mulheres também entrou no cálculo eleitoral
A questão chegou ainda à política. Para 78% das mulheres entrevistadas, propostas destinadas a enfrentar a violência e o assédio contra mulheres nas ruas e no transporte público influenciarão sua decisão de voto nas próximas eleições.
O número não revela em quem essas mulheres pretendem votar, nem permite concluir que segurança será o fator determinante do voto. Ele mostra apenas que, para uma parcela expressiva das entrevistadas, políticas relacionadas à proteção das mulheres serão consideradas no processo de escolha eleitoral.
Isso conecta uma experiência aparentemente privada a decisões públicas. Quando medo, deslocamento, emprego, estudo e lazer começam a depender das condições de segurança, a política de proteção às mulheres deixa de ser percebida apenas como pauta de grupos diretamente vitimados e passa a interferir na avaliação dos governos e das instituições.
O problema não é apenas sofrer violência, mas organizar a vida para evitá-la
A pesquisa ajuda a revelar uma dimensão difícil de captar apenas pela quantidade de crimes registrados. Estatísticas policiais contabilizam ocorrências conhecidas pelo Estado. O levantamento mede outra camada: quanto da vida cotidiana é reorganizado pela tentativa de evitar que uma ocorrência aconteça.
É nesse ponto que os 98% ganham significado. Não se trata de afirmar que quase todas as mulheres sofrerão violência, mas de constatar que quase todas as entrevistadas disseram adotar algum comportamento preventivo por causa desse risco.
O custo, portanto, não está restrito às vítimas após uma agressão. Ele pode aparecer antes, quando uma mulher evita determinada rua; quando paga por transporte para não caminhar; quando abandona uma atividade de lazer; quando recusa um emprego ou curso; ou quando considera mudar de endereço para se sentir segura.
A pesquisa é nacional e não apresenta, nos dados divulgados, um recorte específico para o Rio Grande do Norte. Ainda assim, o mecanismo que identifica é relevante para qualquer política pública de segurança: combater a violência contra a mulher significa não apenas reduzir ocorrências, mas diminuir a quantidade de escolhas que precisam ser feitas sob a pressão permanente do medo.











































































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