O Rio Grande do Norte aparece entre os estados com pior desempenho no Ranking de Eficiência dos Estados da Folha (REE-F). Na segunda edição do levantamento, produzido pela Folha de S.Paulo em parceria com o Datafolha, o RN alcançou índice de apenas 0,303, ficou na 20ª posição entre os 26 estados brasileiros e foi enquadrado na faixa classificada pelo estudo como “ineficiente”. No Nordeste, o resultado potiguar supera somente o da Bahia.
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O contraste regional é expressivo. Ceará, Piauí e Paraíba estão entre os seis estados mais eficientes do Brasil, enquanto o Rio Grande do Norte ocupa a antepenúltima posição entre os nordestinos? Não: o quadro completo mostra o RN em oitavo entre os nove estados da região, à frente exclusivamente da Bahia. O Ceará é vice-líder nacional, atrás apenas do Paraná.
Mais preocupante para o RN é descobrir onde o resultado se deteriora. Embora o estado apresente um dos melhores indicadores financeiros do país, educação, infraestrutura e segurança puxam o desempenho para baixo.
Educação coloca RN na penúltima posição do Brasil
O ponto mais fraco do Rio Grande do Norte é justamente uma das áreas que recebem maior peso no cálculo do ranking.
Na educação, o estado marcou 0,272 e ficou em 25º lugar, superando apenas a Bahia, que obteve 0,165. A diferença para os líderes é enorme: o Paraná alcançou 0,874, São Paulo 0,802 e o Ceará 0,740.
O resultado ganha importância adicional porque educação e saúde têm peso dobrado na metodologia. Portanto, desempenhos muito baixos nessas áreas possuem capacidade maior de derrubar a nota final do estado. O levantamento utiliza indicadores públicos principalmente dos anos de 2022 a 2025.
É justamente aí que o contraste com o Ceará fica mais evidente. O estado vizinho do Nordeste alcançou a terceira melhor pontuação educacional do país, enquanto o RN ficou em penúltimo.
Saúde evita resultado ainda pior
Na saúde, o cenário potiguar é significativamente melhor.
O Rio Grande do Norte obteve 0,538, chegando à 12ª posição nacional. É o componente de serviços públicos em que o estado aparece mais próximo do meio da tabela. Ainda assim, fica atrás dos três nordestinos classificados como eficientes: Paraíba, com 0,669; Ceará, com 0,642; e Piauí, com 0,614.
O dado ajuda a compreender uma característica importante do ranking: um estado pode apresentar resultados muito diferentes dependendo da área observada. A classificação geral não significa que todos os serviços tenham desempenho igualmente baixo.
O próprio estudo alerta para isso e recomenda interpretar o REE-F como um diagnóstico comparativo, e não como uma avaliação isolada de determinada administração. Os indicadores possuem anos de referência distintos e refletem políticas públicas, estruturas e problemas acumulados ao longo do tempo. eficiência
Infraestrutura e segurança também deixam RN na parte inferior
O desempenho potiguar volta a cair quando o levantamento chega à infraestrutura.
O estado marcou 0,388 e ficou em 20º lugar no país. Na segurança pública, praticamente repetiu a posição: índice de 0,384 e novamente 20º lugar.
Isso significa que três dos cinco componentes diretamente relacionados à prestação de serviços ou condições oferecidas à população colocaram o Rio Grande do Norte muito próximo do último quarto da classificação nacional.
A fotografia fica particularmente dura quando comparada ao restante do Nordeste. Estados submetidos a dificuldades socioeconômicas históricas semelhantes conseguiram resultados consideravelmente superiores em algumas das mesmas áreas.
Finanças são a grande exceção potiguar
Existe, entretanto, um dado que quebra completamente o padrão.
Em finanças, o Rio Grande do Norte marcou 0,842 e alcançou a quarta melhor posição do Brasil. Somente Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Pará aparecem acima do estado nesse componente.
Mas é necessário entender exatamente o que esse indicador significa.
O componente financeiro do REE-F utiliza variáveis relacionadas principalmente à despesa com pessoal e ao endividamento público. Portanto, a quarta colocação não significa que o estado tenha a quarta melhor economia, a quarta maior arrecadação ou que toda a situação fiscal potiguar esteja resolvida. Trata-se especificamente do desempenho nas variáveis fiscais escolhidas pela metodologia.
O contraste chama atenção: o RN aparece muito bem no componente financeiro, mas não consegue converter essa posição em desempenho equivalente em educação, infraestrutura ou segurança.
E é justamente esse tipo de diferença que o ranking pretende revelar.
Ranking não mede quem tem mais dinheiro, mas quem entrega mais com ele
O REE-F não foi criado simplesmente para saber quais estados oferecem os melhores serviços públicos.
A pergunta é mais específica: quanto cada estado consegue entregar levando em consideração os recursos que possui por habitante?
Para chegar ao resultado, o levantamento combina indicadores de educação, saúde, infraestrutura, segurança pública e finanças e depois relaciona esse desempenho à Receita Corrente Líquida per capita. O Distrito Federal é excluído por possuir características fiscais e orçamentárias particulares.
O índice final varia de zero a um. Estados com resultado a partir de 0,550 entram na categoria “eficiente”; de 0,400 a 0,549 ficam em “alguma eficiência”; de 0,350 a 0,399 em “pouca eficiência”; e abaixo de 0,350 são classificados como “ineficientes”.
Com 0,303, o Rio Grande do Norte permanece abaixo dessa última linha de corte.
Ceará desmonta argumento de que resultado depende apenas de dinheiro
O caso mais interessante do levantamento talvez esteja a poucas centenas de quilômetros do RN.
O Ceará possui a menor Receita Corrente Líquida por habitante entre todos os estados analisados, cerca de R$ 4.275. Mesmo assim, alcançou índice geral de 0,665 e a segunda posição nacional, ficando atrás apenas do Paraná.
Seu desempenho é puxado principalmente por educação e saúde. Na primeira área, alcançou 0,740; na segunda, 0,642. O estado possui dificuldades importantes em infraestrutura e, sobretudo, segurança, mas o resultado nas demais dimensões foi suficiente para colocá-lo entre os líderes nacionais.
O exemplo é importante porque impede uma leitura simplista segundo a qual estados mais pobres necessariamente precisam ocupar as últimas posições.
O próprio desenho do REE-F procura justamente descobrir quem consegue entregar proporcionalmente mais apesar de possuir menos recursos.
Piauí e Paraíba também aparecem entre os seis primeiros
O Ceará não é uma exceção solitária no Nordeste.
O Piauí ocupa a quinta posição nacional, com índice 0,596. A Paraíba aparece em sexto, com 0,561. Os três estados estão classificados como eficientes pelo levantamento.
Depois deles surge uma queda considerável. Pernambuco ocupa o 11º lugar nacional, com 0,504, seguido pelo Maranhão em 13º, com 0,458. Ambos ficam na categoria de “alguma eficiência”.
Sergipe aparece em 14º, com índice 0,399, e Alagoas em 17º, com 0,368, ambos dentro da faixa de “pouca eficiência”. Por fim chegam Rio Grande do Norte, com 0,303, e Bahia, com 0,301, classificados como ineficientes.
Nordeste está no meio da tabela, mas média esconde abismo interno
Quando os índices são agrupados regionalmente, o Nordeste alcança média de 0,462.
O resultado fica abaixo do Sul, com 0,630, e do Sudeste, com 0,520, mas ligeiramente acima do Centro-Oeste, com 0,456. O Norte possui a menor média regional, 0,252. eficiência
A média nordestina, entretanto, esconde uma distância enorme entre os próprios estados.
De um lado está o Ceará, com 0,665 e a vice-liderança nacional. Do outro, Bahia e Rio Grande do Norte circulam praticamente juntos em torno de 0,30.
Portanto, falar simplesmente em “desempenho do Nordeste” pouco explica. Há Nordestes completamente diferentes dentro do mesmo ranking.
Resultado ocorre no fim do segundo mandato de Fátima Bezerra
A divulgação acontece no último ano do segundo mandato da governadora Fátima Bezerra, que segue à frente do Executivo estadual em 2026.
É legítimo relacionar parte dos indicadores às políticas executadas pelo governo estadual durante os anos analisados, mas não seria tecnicamente correto apresentar o índice como uma espécie de “nota da governadora”. O REE-F utiliza dados de diferentes áreas, anos e estruturas administrativas e mede a eficiência relativa dos serviços estaduais, não aprovação política ou desempenho eleitoral.
Ainda assim, os números oferecem matéria-prima concreta para avaliar prioridades públicas. Em especial, colocam uma pergunta incômoda diante do contraste potiguar: como um estado que alcança a quarta melhor pontuação financeira do país termina com a segunda pior nota brasileira em educação?
O problema não parece ser apenas quanto dinheiro existe
Essa talvez seja a principal contribuição do ranking para o debate público.
A comparação entre Rio Grande do Norte e Ceará demonstra que disponibilidade financeira, isoladamente, não determina o resultado. O Ceará possui a menor receita por habitante do país e, ainda assim, está entre os líderes. O RN possui desempenho financeiro elevado dentro dos critérios do estudo, mas permanece nas últimas posições em áreas fundamentais.
Isso não significa que dinheiro seja irrelevante. Educação, saúde, segurança e infraestrutura dependem profundamente de financiamento. Significa apenas que a maneira como os recursos são convertidos em políticas públicas também importa.
E é exatamente isso que o REE-F procura medir.
Para o Rio Grande do Norte, o retrato de 2026 produz uma conclusão desconfortável, porém objetiva: o estado não está entre os que possuem os piores resultados em todas as áreas, nem entre os que apresentam pior situação financeira. Mas, quando desempenho e recursos são colocados na mesma equação, o resultado agregado o deixa na parte inferior do Brasil e em penúltimo lugar no Nordeste.
O desafio, portanto, não é apenas gastar mais. É descobrir por que, em áreas essenciais, o dinheiro disponível ainda não está se transformando em resultados suficientes para tirar o Rio Grande do Norte do fim da tabela.





























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