O Brasil entra em 2026 com uma combinação que costuma terminar do mesmo jeito: tarifa mais alta na tomada. O quadro reúne reservatórios que podem perder fôlego quando o período seco apertar, maior probabilidade de acionamento de termelétricas (energia mais cara) e uma carga crescente de subsídios embutidos na conta. No Rio Grande do Norte, onde a vitrine é a energia limpa, o risco é ver a conta subir por fatores que não nascem no quintal potiguar, mas chegam, religiosamente, na fatura.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) manteve a bandeira tarifária verde em fevereiro, sinal de condições favoráveis naquele momento, sem cobrança extra por bandeiras. Só que a bandeira é fotografia, não filme: o custo do sistema muda com o clima, com a demanda e com a necessidade de térmicas para segurar o abastecimento.
O que está por trás da alta e por que isso respinga no RN
O setor elétrico precifica, no fim da linha, uma mistura de riscos e encargos. Em linguagem de rua:
-
Se falta chuva onde importa, o sistema recorre mais a térmicas, que encarecem a geração.
-
Se o consumo sobe, a operação fica mais estressada e a chance de bandeiras mais caras aumenta.
-
E mesmo quando a geração renovável “sobra”, o consumidor pode continuar pagando mais por encargos e subsídios.
Um dos motores menos visíveis dessa alta é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o “superfundo” bancado principalmente pelas tarifas. Em consulta pública sobre o orçamento de 2026, a ANEEL indicou R$ 52,7 bilhões para a CDE, sendo R$ 47,8 bilhões na parcela CDE-Uso, rateada pelos consumidores via tarifa, valor acima do de 2025.
Em outras palavras: ainda que o RN produza vento em escala industrial, o potiguar paga uma conta nacional.
Reservatórios: alívio agora, incerteza depois
Dados operacionais do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) no fim de fevereiro indicavam armazenamento considerado “satisfatório” no Sistema Interligado, com o subsistema Nordeste em patamar superior a 60% naquele recorte. O problema é o calendário: a passagem para meses mais secos pode inverter rapidamente o cenário e empurrar o sistema de volta para térmicas e bandeiras.
O paradoxo potiguar: energia limpa que às vezes não chega a virar dinheiro
Se, de um lado, o RN é um dos símbolos da transição energética, de outro convive com um fenômeno que virou palavrão no setor: curtailment, os cortes de geração determinados pelo ONS quando há limitações de transmissão ou necessidade de manter o equilíbrio do sistema.
Um retrato oficial dessa engrenagem aparece em relatório técnico do ONS sobre cortes de geração, que descreve os fatores sistêmicos que levam a restrições no Norte e Nordeste, incluindo limites de exportação e razões “energéticas” ligadas ao balanço carga x geração.
No plano estadual, o “Balanço do Setor Elétrico do RN – Ano base 2024” (SEDEC/Coder, com base em dados da ANEEL) aponta uma matriz quase inteiramente renovável, com 98,9% da potência outorgada vindo de fontes renováveis e forte peso de eólica e solar. E é justamente essa abundância, somada a gargalos de escoamento, que torna o curtailment (produzir energia e não poder usar nem vender tudo) um risco econômico relevante para quem investe no RN.
O resultado é um roteiro cruel: o estado produz energia barata, mas parte dela pode ser “cortada” por limitações do sistema, enquanto o consumidor continua exposto a encargos, subsídios e ao custo de térmicas acionadas em outras regiões quando o balanço nacional aperta.
Quando isso pode bater na fatura do potiguar
Além das bandeiras e dos encargos, há o relógio regulatório: o reajuste anual das distribuidoras costuma acontecer em datas específicas. No RN, a Neoenergia Cosern atende cerca de 1,61 milhão de unidades consumidoras em 167 municípios, segundo a própria ANEEL. Ou seja: qualquer oscilação relevante se espalha rápido, do comércio de bairro à indústria, do ar-condicionado da orla ao freezer do mercadinho.
O que observar em 2026 (para não ser surpreendido)
Sem dramatização gratuita, mas com a seriedade de quem paga boleto, vale acompanhar três marcadores:
-
Bandeiras tarifárias mês a mês (ANEEL): quando muda de cor, muda o custo imediato.
-
CDE e outros encargos: a tendência de alta do “bolo” de subsídios pressiona a tarifa estruturalmente.
-
Transmissão e cortes de geração no Nordeste (ONS): o gargalo do “fio” pode continuar gerando perdas e distorções mesmo com sobra de renovável.
No fim, o RN está no centro de uma contradição brasileira: lidera a revolução do vento, mas ainda vive amarrado ao custo do sistema como um todo. Se 2026 vier com seca mais dura, bandeiras mais pesadas e subsídios maiores, o estado “mais verde” pode descobrir, na prática, que a cor da matriz não é, necessariamente, a cor da fatura.



































































![[VÍDEO] Operação da Polícia Civil cumpre 70 mandados contra facções criminosas no RN](https://www.jolrn.com.br/wp-content/uploads/2026/04/IMG_6096-120x86.png)





