Entre os dias 14 e 20 de junho, o Pará foi palco do Trilhas Potiguares Amazônia 2026, edição que celebrou as três décadas de trajetória do Programa Trilhas Potiguares da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PTP/UFRN). A iniciativa reafirmou o compromisso do programa com diretrizes como a internacionalização, o intercâmbio entre instituições e a extensão universitária, que, ao lado do ensino e da pesquisa, compõe o tripé que fundamenta o ensino superior no país. Ao todo, foram promovidas mais de 60 ações distribuídas por cinco municípios, alcançando um público superior a 1.300 pessoas. As oficinas contemplaram eixos fundamentais, como direitos humanos, saúde, educação, meio ambiente, acessibilidade, comunicação social, trabalho e renda.
Ao todo, 25 estudantes e 11 docentes da UFRN viajaram para Belém no domingo, 14 de junho. Na segunda-feira, 15, iniciaram as atividades em conjunto com as equipes do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). As instituições atuaram de forma colaborativa com o objetivo comum de promover desenvolvimento, inclusão social, formação cidadã e intercâmbio de saberes.
Para otimizar a realização das atividades e ampliar o alcance das ações, a equipe da UFRN foi dividida em dois grupos: Ilhas, responsável pelas atividades nas localidades de Outeiro e Combu, em Belém, e em São Sebastião da Boa Vista, na Ilha de Marajó; e Terras, que realizou ações nos municípios de Aurora do Pará e Tomé-Açu, ambos situados na região nordeste do estado. Na quinta-feira, 18, todos os participantes voltaram a se reunir para uma atuação conjunta no município de Curuçá, localizado no nordeste do Pará. As atividades foram encerradas na sexta-feira, 19, em Belém, com a realização do Seminário Internacional de Pesquisa e Extensão Trilhas Potiguares Amazônia 2026.

Um dos destaques da edição foram as oficinas sobre acessibilidade, ministradas pelos estudantes Elvis Gley, Rafael Guilherme Pereira e Ana Alice Oliveira, além da professora Gisele Oliveira, do curso de Letras – Libras/Língua Portuguesa da UFRN. As atividades foram voltadas para estudantes, professores e servidores públicos da área da educação.
Com o objetivo de conscientizar os participantes sobre a importância da inclusão plena das Pessoas com Deficiência (PcDs) nos processos de ensino e de socialização no ambiente escolar, as oficinas foram muito bem recebidas pelas comunidades locais. Além de conhecerem os aspectos teóricos relacionados à acessibilidade, os participantes também tiveram uma introdução à Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Elvis Gley, que é surdo, comenta que as atividades proporcionaram ‘ótimas interações’. Segundo ele, mesmo após o encerramento das oficinas, os participantes permaneceram conversando com a equipe e demonstrando o que haviam aprendido.
Apesar da boa receptividade, Elvis ressalta que a acessibilidade ainda é um tema negligenciado na sociedade brasileira. “Na Ilha de Marajó, os professores e os servidores públicos não conheciam o capacitismo. Fiquei feliz em compartilhar informações sobre como essa realidade nos machuca, mas também sobre a nossa força. Agora eles estão mais informados”, afirma.
Relevância e impacto da extensão

Promovido pela Pró-Reitoria de Extensão (Proex/UFRN) desde 1996, o Trilhas Potiguares consolidou-se como o maior programa de extensão da Universidade, servindo de modelo para iniciativas semelhantes em outras universidades e institutos. De acordo com o pró-reitor adjunto de Extensão e coordenador do Trilhas Potiguares, Luiz Alves, vinculado à Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (Facisa/UFRN), a edição comemorativa também fortaleceu o espírito extensionista entre as instituições parceiras.
Ao destacar a intenção da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) de lançar, já em 2027, o projeto Trilhas Amazônicas, o professor afirma que “essa ação também foi uma semente plantada, que ainda produzirá muitos resultados nas instituições, nos docentes, nos discentes e na sociedade”.
Luiz Alves avaliou a iniciativa de forma positiva e reforçou o impacto da rede de cooperação em ensino, pesquisa e extensão na transformação da visão de mundo tanto das comunidades participantes quanto dos estudantes. Segundo ele, por meio da troca de experiências e do intercâmbio cultural, os discentes têm a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos adquiridos em sala de aula.
O coordenador-adjunto do Programa, Itamar Nobre (CCHLA/UFRN), destacou a importância formativa das ações extensionistas. “A extensão ajuda as pessoas a perceberem que existe um horizonte de bem-estar e de uma vida melhor a ser alcançado. Isso vale para estudantes, membros da comunidade e professores. O docente que participa de uma ação desse tipo tende a se desenvolver e a compreender que não é apenas a sala de aula que torna o ensino eficaz”, concluiu.
Colaboração entre instituições e internacionalização

A edição comemorativa dos 30 anos também contribuiu para fortalecer as relações entre instituições de diferentes regiões do país e do exterior. A docente da UFRA, no campus de Tomé-Açu, e coordenadora local do Trilhas Amazônia 2026, Ticiane Santos, descreveu a essência do programa como a da “verdadeira extensão, ‘quebrando’ todos os muros da UFRN”.
Ao destacar a importância do diálogo interinstitucional, Ticiane relembrou sua trajetória acadêmica. “Nós, que somos do interior do estado, sabemos a importância de estar próximos do conhecimento e da universidade. Para que eu pudesse estudar, precisei sair do interior para a capital, Belém. No mestrado, fui para a UFRN, e foi essa aproximação que possibilitou a vinda do projeto para a cidade de Tomé-Açu”, ressaltou.
O estudante de Administração da UFRA, campus Tomé-Açu, Pedro Henrique, destacou o Trilhas Potiguares como uma das melhores experiências que vivenciou na universidade. Sem nunca ter participado de um programa de extensão desse porte, Pedro afirmou que “o melhor de tudo foi a familiaridade e a união entre todos os participantes. O programa conseguiu criar amizades entre pessoas de diferentes lugares e culturas”.

A construção de parcerias com universidades estrangeiras também foi um dos focos da iniciativa, que reuniu docentes da Universidade de Múrcia (UM), na Espanha, e da Universidade Save (Unisave), em Moçambique. Para a professora Crisalita Djeco Funes, da Unisave, a experiência terá um impacto significativo para a comunidade moçambicana. Segundo a docente, “os nossos alunos ficam a pensar que é impossível alcançar a universidade, mas, com a união do ensino, da pesquisa e da extensão, podemos alimentar essa esperança. Então, que bem haja Trilhas Potiguares, bem haja Trilhas Amazônia e bem haja Trilhas Moçambique!”, concluiu.
Programa Trilhas Potiguares: uma breve história
O Programa Trilhas Potiguares teve sua primeira edição em 1996, inspirado em um projeto de extensão do Centro Acadêmico de Geografia, o Pé-na-Trilha. A iniciativa tinha como proposta promover o conhecimento sobre o estado do Rio Grande do Norte por meio de caminhadas que proporcionavam aos estudantes uma imersão nas realidades geográficas e humanas da região. Em 1997, foi implementada uma diretriz que norteia as ações do programa até hoje: ampliar o envolvimento da Universidade na busca por soluções para os problemas das localidades onde os projetos são desenvolvidos.

A primeira ação de internacionalização do programa ocorreu em 2017, com uma missão a Moçambique, no sul do continente africano. Em 2025, o país voltou a receber o Trilhas Potiguares. Desde 2024, o programa também conta com a participação de estudantes estrangeiros, coordenados por Fransualdo Azevedo (CCHLA/UFRN).
Os esforços de nacionalização do Programa tiveram início em 2023, com a participação do Trilhas Potiguares no projeto UFPE no Meu Quintal (UFPENMQ), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A primeira edição da parceria foi realizada naquele ano, em Sertânia, no interior de Pernambuco. Em 2024, o programa retornou ao estado para uma nova edição, desta vez no município de Belém do São Francisco.
Desde então, as edições do Trilhas Potiguares realizadas no Rio Grande do Norte também passaram a contar com a participação do UFPENMQ. A experiência em Belém do São Francisco ainda fortaleceu os vínculos com a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), de Ilhéus (BA), que passou a enviar estudantes para as edições seguintes do programa.

Saudades e reencontros
As conexões construídas pelo programa ao longo de três décadas também se refletem nas trajetórias individuais de seus participantes. Nascida em 1970 na Maternidade Escola Januário Cicco, a professora do Instituto Federal do Pará (IFPA), Liz Pereira, costuma lembrar que, literalmente, nasceu na UFRN, já que a maternidade integra a Universidade.
“A primeira pessoa que encontrei na minha vida foi uma professora, que me tirou do bucho da minha mãe”, conta a docente. Vinte e seis anos depois, em 1996, Liz participou da primeira edição do Trilhas Potiguares, ainda como estudante, desenvolvendo atividades com plantas medicinais e etnobotânica. Em 1998 e 1999, integrou a equipe do programa como coordenadora e professora substituta da UFRN, antes de se mudar para a Amazônia, em 2001.
“O Trilhas Potiguares foi algo revelador na minha vida profissional. Foi o que me deu a base para fazer tudo o que realizo hoje, tanto no ensino quanto na pesquisa e na extensão. Aprendi que precisamos ir até a comunidade para conhecer suas necessidades e entender como o ensino pode transformar essa realidade, levando essas experiências para a pesquisa e, depois, devolvendo respostas à sociedade”, reflete a professora sobre o impacto do programa em sua trajetória.
No Pará, Liz viveu e atuou nos três pilares da universidade – ensino, pesquisa e extensão – no município de Itaituba, localizado a cerca de 1.300 quilômetros de Belém, às margens do rio Tapajós. Após ser aprovada em concurso para o IFPA, em 2010, permaneceu na cidade por mais 12 anos como professora de Biologia. Em 2022, foi transferida para o campus de Paragominas e, em 2025, para o de Belém. Foi nesse período que, por meio das redes sociais da Proex/UFRN, soube que o Trilhas Potiguares realizaria uma edição em sua segunda casa: a Amazônia.

A professora do Instituto Federal do Pará (IFPA), Liz Pereira, ao lado do coordenador geral do Trilhas, Luiz Alves. Foto: Cícero OliveiraApós uma longa trajetória profissional e acadêmica no estado, Liz apresentou seus projetos de tecnologia social voltados ao combate ao Aedes aegypti e conseguiu, finalmente, reintegrar-se ao Trilhas Potiguares. “Vocês não fazem ideia do que é um nordestino, depois de 25 anos fora do Nordeste, de repente se ver rodeado pelos seus conterrâneos, da mesma Universidade, fazendo aquilo que a gente já fazia antes. Foi uma injeção de ânimo, como se eu tivesse renascido nos braços dos meus colegas da UFRN”, relata, emocionada.
A professora também relembra como a semana de atividades a comoveu e despertou lembranças felizes: “Quando vesti a camisa, quis chorar de novo. Eu tô só chorando, mas é de felicidade. Ver aquela bandeira azul enorme na minha frente, tirar fotos, acompanhar os projetos dos meninos, ver todo o desenvolvimento, conhecer lugares que eu ainda não conhecia, acompanhada pela UFRN… Eu estava em casa duas vezes.”
“Vocês vieram para onde eu estava e, no fim das contas, eu me senti visitada. É magnífico tudo isso. Eu só tenho a agradecer a tudo e a todos, especialmente à UFRN, por ser essa potência”, concluiu Liz Pereira.
Trilhas Potiguares 2026
Além da edição realizada na Amazônia Paraense, o Trilhas Potiguares promoverá, em julho, a edição estadual no Rio Grande do Norte, com o tema Sociedade e academia: 30 anos de extensão com diálogo, parceria e impacto social. Os municípios selecionados foram Alexandria, Arez, Cruzeta, Frutuoso Gomes, Galinhos, Itajá, Lagoa de Velhos, Lajes, Martins, Maxaranguape, Pedro Avelino, Pureza, Ruy Barbosa, Serra Negra do Norte e Viçosa.
Imagens: Cícero Oliveira
Fonte: Agecom/UFRN






































































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