A Filarmônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) se prepara para um dos momentos mais memoráveis de sua história. No dia 25 de agosto, a orquestra embarca para realizar a turnê pela China, levando um repertório majoritariamente brasileiro. Antes de trilhar esse caminho, a trajetória da Filarmônica começa lá no fim dos anos 90. Naquele período, a Escola de Música da UFRN (EMUFRN) estava em ascensão, com novos professores chegando, e, junto deles, aumentava também o número de alunos. Entretanto, faltava algo importante para as coisas acontecerem: um espaço onde esses músicos pudessem desenvolver suas experiências em uma orquestra.
Nesse momento, entra em cena o professor André Luiz Muniz Oliveira. Em 1998, ao lado do professor Alexandre Casado, hoje docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA), começa a ser articulada uma iniciativa ligada ao coral da Escola de Música. Aos pouquinhos, a proposta foi mudando. “A gente começou a pensar no embrião de uma orquestra autônoma”, contou André. A experiência seguiu até 2003.
No ano seguinte, o professor se afasta para realizar doutorado em Regência de Orquestra. Quando retorna, em 2008, enxerga uma nova tentativa sendo construída, uma pequena formação de instrumentos de corda. Então, decide resgatar a ideia de uma grande orquestra. Oficialmente, a UFRN registra a criação em 2009, inicialmente chamada de Orquestra Sinfônica da UFRN. A mudança ocorre, segundo André Muniz, para evitar confusão de nomes com a Orquestra Sinfônica do RN.

A palavra ‘Filarmônica’, porém, acaba ganhando um significado que casa com o projeto. Philos, do grego, está relacionado a um amigo — amigo da música —, mas, também, como o próprio maestro explica, amigo que está disposto a apoiar a música.
Uma grande escola
A Filarmônica é formada por alunos da UFRN de diferentes níveis da graduação. A seleção é feita por meio de audições às cegas, como se fosse um laboratório. A preparação para a harmonia do conjunto de instrumentos é bem extensa: ensaios, concertos, construção de repertório, troca com os solistas e regentes, organização de partituras, montagem de palco, produção, comunicação e todas as outras coisas que fazem uma apresentação acontecer bem.
Além de ser um lugar para se aprender a tocar instrumentos, a criação da Filarmônica sempre esteve relacionada a um questionamento comum de qualquer universitário: o que fazer quando sair da universidade?
“O músico tem que ter uma formação elástica”, destaca André Muniz. A expressão sintetiza bem as ideias que atravessam a trajetória da orquestra. Para o maestro, é necessário que o instrumentista seja capaz de transitar em diferentes linguagens, formações e ambientes. Tocar Mozart — um dos maiores gênios da música — exige uma relação específica com a escrita musical, já acompanhar um cantor popular ou trabalhar em estúdio exige outros códigos. É o que o professor chama de ‘sotaques’ musicais.
Durante muito tempo, o músico que tocava instrumentos em uma orquestra tinha uma trajetória relativamente previsível: estudar, entrar em uma orquestra e interpretar um repertório que ia, a grosso modo, de Bach até compositores do século XX. O grande problema relacionado a isso, segundo André, é que o mercado musical é muito maior. A Filarmônica UFRN passou a incorporar essas várias situações.
Pelo mundo
A Filarmônica esteve em diversos palcos Brasil afora. Entre 2013 e 2015, a orquestra realizou cerca de 90 concertos, passando por Ceará, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, além de apresentações em São Paulo pela 52ª edição do Festival Internacional de Campos do Jordão, em 2022.

Até que a Filarmônica chegou em outra dimensão e fez viagens internacionais. A primeira foi na Alemanha, em 2015. A experiência da viagem para outro continente é complexa de ser medida em palavras por um ex-estudante. Edyelwys da Silva, natural de Cruzeta, município do Seridó Potiguar, teve a base musical em sua cidade natal e na Escola de Música.
A viagem para a Alemanha foi, para ele, o ponto de partida. “Representou uma verdadeira virada de chave na minha trajetória”, aponta. Estar em outro continente, com uma musicalidade diferente, conhecer outras maneiras de estudar e interpretar música fez Edyelwys perceber que a música poderia levá-lo a voos mais distantes, como o mestrado e o doutorado na Universidade de Montreal, no Canadá.
Em 2018, a orquestra volta à Europa. Desta vez, para apresentações no Vaticano, com a presença do Papa Francisco, e na Itália. Para o professor André, as viagens internacionais têm um impacto imenso na formação dos estudantes. “Toda vez que a gente sai do Brasil com essa orquestra é impressionante como isso significa um virar de chave, um novo posicionamento perante a música e a vida dos nossos alunos”, afirma. Segundo o regente, o contato com outros contextos culturais faz com que os músicos pensem melhor suas formas de estudo e ampliem as percepções sobre a realidade.

Música que inclui
Outro grande desafio da orquestra é aproximar as pessoas historicamente excluídas desse tipo de música. Muitos dos alunos chegam à Filarmônica por meio de projetos sociais. O repertório vem se ampliando para atender essa demanda. Um exemplo foi o Concerto Negro, que colocou em seu programa obras de compositores pretos e leituras relacionadas à cultura preta, incluindo uma homenagem à Nação Zumbi.
O ponto não é, necessariamente, sobre quem toca, mas sobre quem escuta. A aproximação com o público ganhou uma dimensão inesperada durante a apresentação Viagem ao Centro da Terra, que trouxe o rock para os palcos. A equipe sabia que existe um público consolidado para o gênero no estado, mas a adesão foi uma surpresa para a organização.
A produtora cultural da Filarmônica, Fernanda Ferreira, lembra que, às 14h, pessoas já chegavam ao show para garantir um lugar na sessão que começaria às 18h. A fila continuou crescendo. Por volta das 17h30, aproximadamente mil pessoas já estavam no local. O auditório tinha capacidade para cerca de 220 espectadores. A fila chegou ao estacionamento superior da Escola de Música.
A história continua

Depois de mais de duas décadas entre ensaios, concertos, viagens e várias experiências adquiridas, o grupo segue fazendo história, que continuará sendo escrita a cada novo palco. Agora, é a vez da Ásia. A Turnê China 2026 vai contar com seis apresentações em diferentes espaços, um deles é a Ópera Nacional de Pequim. A Filarmônica UFRN é a primeira orquestra brasileira a se apresentar nesse local.
Atualmente, a Filarmônica é formada por 43 estudantes da UFRN. Trinta e sete seguem para a China, segundo a produtora cultural da Filarmônica, Fernanda Ferreira. Serão feitas apresentações em Hangzhou, Changsha e Pequim, com diferentes formações ao longo da turnê.
Fonte: Agecom/UFRN






































































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