Imagens de uma escuta ambiental feita pela Polícia Federal dentro da sede da Dismed Distribuidora de Medicamentos, em Mossoró, foram divulgadas neste sábado (19) pelo Blog do Dina. O registro audiovisual de 2 minutos e 44 segundos, captado em 13 de maio de 2025 durante as investigações da Operação Mederi, mostra o empresário e sócio da distribuidora, Oseas Monthalggan Fernandes Costa, e um interlocutor identificado nos autos apenas como “Nenen” debatendo estratégias para aumentar o volume de compras da Secretaria Municipal de Saúde e comentando a postura do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil).
No arquivo catalogado pela perícia policial sob o código Rec1_20250513_081116, Oseas comenta sobre a postura que adotaria caso exercesse um mandato executivo, contrastando sua afirmação com o comportamento do gestor municipal: “Se eu fosse prefeito, meus funcionários por exemplo… ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não! Aí os cara é um cuidado, não porque ninguém pode saber não…”, ao que o interlocutor responde: “Honesto, psiu, honesto os cara!”.
Na Representação Criminal anexada aos autos no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), a Polícia Federal esclarece que a declaração não constitui prova direta contra Allyson Bezerra, registrando que os interlocutores percebiam no prefeito um comportamento cauteloso voltado a manter sua atuação oculta nos esquemas discutidos.
Em outro trecho processual, os investigadores apontam que o diálogo indica o cuidado demonstrado para evitar exposição pública.
Articulação para ampliação de compras na Saúde
Na sequência da gravação, o interlocutor identificado como Nenen passa a instruir Oseas sobre como convencer a então diretora financeira da Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró, Poliana Rezende Dantas, a elevar as ordens de compra emitidas pelo município. O interlocutor sugere utilizar o volume de compras de outras prefeituras como argumento de pressão comercial: “Você tem que dizer a ela o seguinte: olhe, Poliana, eu vou dar o exemplo de uma cidade como José da Penha… José da Penha consome cem mil por mês. Como é que Mossoró em um mês só consome trezentos mil? Não tem lógica não”.
Antes dessa manifestação, o interlocutor queixou-se de que a prefeitura teria emitido ordens fracionadas de R$ 300 mil, sustentando que o faturamento de compras da pasta com a empresa deveria ser de pelo menos R$ 500 mil mensais. No laudo pericial IPJ 076/2025, a PF avalia que os trechos revelam familiaridade dos investigados com a diretora e expectativa de que ela seria receptiva aos pedidos comerciais. Poliana exerceu a função na pasta até julho de 2025.
Repercussão em debate eleitoral
A publicação do registro audiovisual ocorre após o debate eleitoral promovido pela TV Ponta Negra na noite de sexta-feira (18), no qual o candidato ao governo Robério Paulino (PSOL) mencionou as apurações da Operação Mederi para questionar Allyson Bezerra sobre gravações em poder da Justiça. Na ocasião, o candidato do União Brasil solicitou direito de resposta durante a transmissão para contestar as insinuações.
A apuração jornalística detalha que o material obtido pela PF na diligência compõe um acervo de 38 registros em vídeo captados pela câmera da escuta ambiental autorizada pela Justiça dentro da sala da distribuidora de medicamentos.
Operação Mederi: PF investiga desvios na compra de medicamentos em Mossoró e cidades do RN
A Polícia Federal investiga um suposto esquema de fraudes e desvios de recursos públicos na área da saúde no Rio Grande do Norte por meio da Operação Mederi, deflagrada em 27 de janeiro de 2026. As apurações apontam irregularidades na compra e entrega de medicamentos fornecidos pela distribuidora Dismed, envolvendo contratos da Prefeitura de Mossoró e de pelo menos outros cinco municípios potiguares. O inquérito policial aponta o ex-prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) como suposto líder da estrutura — acusação que o político nega.
Segundo a linha de investigação da PF, o mecanismo operava a partir da aquisição de remédios entregues apenas parcialmente ou com prazo de validade próximo ao vencimento. A diferença financeira entre o valor empenhado e o volume de produtos efetivamente entregues retornava aos envolvidos em forma de propina. Apenas nos contratos vinculados a Mossoró, a corporação estima que o esquema tenha movimentado cerca de R$ 833 mil em dinheiro vivo. Até o momento, ninguém foi condenado e todos os citados negam a prática de ilícitos, conforme informações publicadas pelo Blog do Dina.
A “Matemática de Mossoró” e a divisão de percentuais
Escutas telefônicas e interceptações autorizadas pela Justiça flagraram gestores da distribuidora discutindo uma partilha de valores apelidada pelos agentes de “Matemática de Mossoró”. Conforme os relatórios policiais, os diálogos indicam que 15% do valor dos contratos eram supostamente direcionados ao ex-prefeito Allyson e 10% a uma mulher citada inicialmente apenas como “Fátima”.
Com o avanço das diligências, a PF identificou a intermediária como Maria de Fátima Dantas dos Santos, assessora de comunicação nomeada na administração municipal por meio da Portaria nº 157/2024, de acordo com o jornal De Fato. Os investigadores apontam que ela seria beneficiária direta de repasses da cota combinada.
Ocultação de valores e apreensões da PF
Para ocultar a movimentação financeira e escapar de alertas dos órgãos de fiscalização bancária, os alvos utilizavam mecanismos que variavam do armazenamento de dinheiro em espécie em caixas de isopor à criação de empresas de fachada e depósitos em contas bancárias de menores de idade.
Durante o cumprimento dos mandados judiciais, agentes federais apreenderam R$ 57,5 mil guardados em mochilas na residência de um ex-secretário municipal de Saúde. No apartamento de Allyson Bezerra, em Natal, a polícia apreendeu uma planilha com o controle de R$ 19,6 milhões. Em municípios vizinhos, como Serra do Mel, fiscais identificaram o fornecimento de mil comprimidos para controle de pressão arterial com apenas um dia de validade restante, gerando um prejuízo estimado em R$ 4 milhões na localidade.
Bloqueio de bens e repercussão política
A Justiça Federal determinou o bloqueio cautelar de R$ 13,3 milhões em bens e contas dos alvos da operação. No cenário político local, as investigações geraram desdobramentos imediatos, culminando na renúncia de Allyson Bezerra ao cargo de prefeito de Mossoró. O vice-prefeito Marcos Medeiros também figura entre os investigados no inquérito e nega qualquer envolvimento com as irregularidades.
Em pronunciamentos públicos, Allyson Bezerra afirmou não ter “compromisso com o erro”, declarando que os contratos municipais seguiram os trâmites legais e ressaltando que colabora com as autoridades para demonstrar a regularidade de sua gestão.
Imagens: Reprodução
Fonte: Novo Notícias








































































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