*Matéria produzida pelo Laboratório de Comunicação Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabCam/UFRN).
Garantir saúde e bem estar, promover a agricultura sustentável e proteger os ecossistemas terrestres estão entre os compromissos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. É nesse contexto que, um diagnóstico realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em diálogo com comunidades rurais do Seridó Potiguar, reúne relatos sobre mudanças na qualidade do ar, problemas respiratórios e redução da produção agrícola após o início da operação de uma mina de ouro na região, há cerca de cinco anos.
O diagnóstico foi realizado com 48 famílias das comunidades Maxixe, São Luiz e São Rafael, localizadas nos municípios de Currais Novos e Campo Redondo. Houve relatos de poeira, problemas respiratórios, alterações na produção agrícola, rachaduras em casas e cisternas e insegurança quanto às condições de vida no território.
Entre os aspectos observados nos últimos cinco anos, 30% dos moradores relataram redução da produtividade agrícola desde o início das atividades de mineração, enquanto 33% mencionaram redução na criação de animais. A agricultura familiar é uma das principais formas de produção das comunidades pesquisadas, que cultivam milho e feijão e também criam bovinos e galináceos.
Os resultados também apresentam preocupações relacionadas à qualidade do ar. Moradores relataram sintomas como: tosse frequente, cansaço ao respirar e rinite, especialmente na comunidade São Luiz, uma das localidades mais próximas da mina e apontada na pesquisa como mais exposta à poeira produzida pela mineração.
Os temas identificados no diagnóstico dialogam com diferentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O ODS 2, por exemplo, estabelece entre as metas a promoção de sistemas sustentáveis de produção de alimentos e o fortalecimento da agricultura, incluindo a realidade dos agricultores familiares. Já o ODS 3 trata da promoção da saúde e do bem-estar, enquanto o ODS 15 está relacionado à proteção e ao uso sustentável dos ecossistemas terrestres.
A partir desse cenário, pesquisadores da UFRN, em diálogo com moradores e movimentos sociais, participaram da elaboração de um documento sobre a percepção dos impactos sociais e ambientais da mineração nas comunidades Maxixe, São Luiz e São Rafael.
O levantamento ouviu 48 famílias entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Foram aplicados questionários com 78 perguntas, organizadas em oito blocos que abordaram caracterização familiar, acesso à água, condições estruturais das residências e cisternas, saúde, problemas respiratórios, percepção dos impactos, saúde mental, renda e produção.
O trabalho integra o projeto de pesquisa Antropoceno, Neoextrativismo e Conflitos Ambientais no Seridó Potiguar, coordenado pelo professor Leandro Vieira Cavalcante e desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Territórios do Semiárido (Semiar), vinculado ao Departamento de Geografia do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres/UFRN), e conta com a participação da mestranda em Geografia, Letícia do Nascimento Moura, que analisa os impactos da mineração de ouro e a injustiça ambiental no Semiárido Potiguar.
Uma pesquisa que nasceu das comunidades
Antes de chegar aos questionários, o estudo começou com uma demanda apresentada pelos próprios moradores. De acordo com Leandro Cavalcante, a sucessão de relatos relacionados à saúde e ao ambiente levou as comunidades a buscar apoio da Universidade para compreender melhor o que estava acontecendo no território. “A pesquisa partiu de uma demanda das próprias comunidades, diante da sucessão de impactos negativos à saúde e ao ambiente”, explica o pesquisador.
A construção do diagnóstico também envolveu o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Coletivo Seridó Vivo. O questionário foi discutido previamente entre moradores, representantes dos movimentos e pesquisadores.
A metodologia adotada foi participativa e colaborativa. Os próprios moradores visitaram as casas das comunidades e dialogaram com outros moradores para a realização do relatório. A escolha das três localidades ocorreu, inicialmente, pela proximidade delas com a mina e diante dos impactos relatos.
O envolvimento direto da população é parte importante do trabalho. Mais de 80% dos moradores participantes vivem há mais de 20 anos nas comunidades, o que demonstra a relação histórica das famílias com o território. Para o professor Leandro, a participação da universidade pública nesse processo está diretamente relacionada à sua função social. “O papel da universidade pública é justamente escutar as demandas e os anseios das comunidades, para que, com rigor científico, disponham dos instrumentos que possam contribuir com suas demandas”, destaca.
O referido relatório foi primeiramente apresentado às comunidades, a partir da realização da Assembleia Popular na Mineração, ocorrida em julho de 2026. Tratou-se de iniciativa dos movimentos sociais, dos moradores locais e da Universidade. Para além da apresentação dos resultados do diagnóstico, para o professor Leandro, a Assembleia Popular mostrou-se relevante por tencionar o debate e a opinião pública acerca dos impactos sociais e ambientais da mineração de ouro.

Casas e cisternas entre os principais pontos de atenção
Entre os resultados que mais chamam atenção estão os relatos relacionados à estrutura das moradias. Dos 48 entrevistados, 64,6% afirmaram que suas casas apresentam rachaduras. Na comunidade Maxixe, 15 dos 16 moradores participantes relataram o problema. Em São Luiz e São Rafael, metade dos entrevistados apontou a presença de rachaduras nas residências.
O levantamento também identificou rachaduras em cisternas. Cerca de 90% dos domicílios pesquisados possuem esse tipo de estrutura, fundamental para o abastecimento das famílias, já que, aproximadamente, 86% dos moradores afirmaram depender de cisternas e não contar com sistemas comunitários de abastecimento por adutoras.
Entre os moradores que relataram rachaduras, 45,8% disseram que elas surgiram há menos de um ano. O relatório registra ainda relatos de moradores que associam o surgimento dos danos às detonações realizadas na mina de ouro instalada no município de Currais Novos, no limite com Campo Redondo. Em dois anos, foram relatadas cisternas que teriam desabado após explosões.
O Maxixe aparece como a comunidade com os indicadores mais preocupantes em diferentes aspectos do diagnóstico. É também onde há maior número de relatos de rachaduras e de insegurança quanto à estrutura das casas.

O que a pesquisa consegue e não consegue afirmar
Embora os resultados apresentem uma forte associação percebida pelos moradores entre a atividade minerária e os problemas estruturais relatados, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o diagnóstico não é uma perícia técnica.
O relatório foi construído a partir da percepção dos moradores e, portanto, não estabelece um nexo causal definitivo entre a mineração e os impactos identificados. Os dados apontam indícios e correlações, mas comprovação de uma relação de causa e efeito depende de estudos complementares, como perícias geotécnicas, estruturais e ambientais.
Essa distinção é fundamental para compreender o resultado do trabalho. A pesquisa registra aquilo que as comunidades estão vivenciando e percebendo em seu cotidiano e identifica situações que, segundo os pesquisadores, precisam ser investigadas de maneira técnica e independente.
Poeira, saúde e a falta de informação
A mineração também aparece nos relatos dos moradores relacionada a preocupações com a qualidade do ar. O relatório registra a ocorrência de sintomas como: tosse frequente, cansaço ao respirar e rinite, dentre outros problemas respiratórios, especialmente na comunidade de São Luiz, apontada como uma das localidades mais próximas e expostas à poeira produzida pela atividade. Há relatos de pessoas que passaram a viver de máscara nessa comunidade, diante da poeira constantemente dispersada da área da mina.
Ao mesmo tempo, o diagnóstico encontrou um cenário marcado pela falta de informações sobre possíveis riscos à saúde. 81% dos entrevistados disseram não ter recebido informações da empresa responsável pela operação sobre os riscos à saúde, enquanto 94% afirmaram não ter recebido orientações do poder público.
Para os pesquisadores, a ausência de informações também contribui para um cenário de insegurança. Sem saber quais riscos estão efetivamente associados com a exposição à poeira ou a outros efeitos da atividade, os moradores permanecem diante de dúvidas sobre a própria saúde.
Quando a preocupação chegar à saúde mental
Os efeitos percebidos pelas comunidades não se restringem ao espaço físico das casas ou às condições ambientais. O diagnóstico identificou também sinais de preocupação e insegurança relacionados à saúde mental.
Entre os entrevistados, 54% disseram estar mais inseguros, 42% mais ansiosos e 56% relataram preocupação excessiva. Além disso, 52% acreditam que os problemas de saúde mental relatados estão relacionados à atividade da mina.

Para Leandro, um dos aspectos que mais marcaram o contato com a comunidade foi justamente o medo em relação ao futuro. “Os moradores relatam particularmente o medo quanto ao futuro, diante da estrutura de suas casas e do agravamento dos problemas respiratórios e de saúde mental”, afirma.
O próprio relato relaciona a insegurança habitacional à percepção de risco vivenciada pelos habitantes do local, destacando que a preocupação com a integridade das residências pode contribuir para ansiedade, estresse prolongado, sensação de vulnerabilidade e piora da qualidade de vida.
A mineração e o cotidiano de quem vive no campo
As comunidades pesquisadas têm na agricultura familiar uma de suas principais fontes de renda. Milho, feijão, criação bovina e galináceos fazem parte da produção das famílias, que também contam com aposentadorias e programas de transferência de renda.
O diagnóstico aponta que 30% dos moradores relataram redução produtiva agrícola desde o início das atividades da mineração, enquanto 33% mencionaram redução na criação de animais. Entre os impactos percebidos estão a poeira sobre as plantações e os barulhos e temores associados à atividade, que, segundo os moradores, podem afetar a criação.
A relação entre a mineração e a produção agrícola aparece, assim, como uma das dimensões ambientais e econômicas observadas. A agricultura familiar não representa apenas uma fonte de renda para as famílias, mas também uma forma de permanência e de relação histórica com o território.
Outro aspecto levantado pelo estudo é a participação das famílias locais na própria atividade minerária. Apenas duas pessoas entrevistadas afirmaram trabalhar na mineração e quatro disseram ter familiares empregados no setor. Para os pesquisadores, os dados indicam uma participação ainda reduzida das famílias do entorno nos empregos gerados pelo empreendimento.
Um território marcado por mudanças
A chegada da mineração ocorre em uma região que possui uma relação histórica com a atividade mineral. O que mudou, segundo o relatório, foi a escala da nova exploração e a forma como ela passou a se inserir no território. A partir dos relatos reunidos, os pesquisadores identificam uma série de mudanças percebidas pelas comunidades, que vão desde as condições das moradias e do acesso à água até as questões relacionadas à saúde, à produção e ao bem-estar.
Para os moradores, as mudanças não são apenas uma questão ambiental distante. Elas também aparecem dentro das próprias casas, nas cisternas utilizadas para armazenar água, no trabalho agrícola e na sensação de segurança em relação ao lugar onde vivem. É justamente por isso que, para o grupo Semiar, compreender os impactos da mineração exige olhar para além dos indicadores econômicos e considerar também as relações construídas entre as comunidades e o território.
Próximos passos: transformar percepção em investigação técnica
O diagnóstico não termina com a apresentação dos resultados. Entre as principais recomendações está a realização de perícias independentes e estudos geotécnicos, estruturais, ambientais e epidemiológicos capazes de investigar tecnicamente os impactos relatados, comprovando, ou não, um nexo causal com a atividade da mineração de ouro. O relatório também recomenda o monitoramento das vibrações provocadas pelas detonações, da qualidade do ar e da água, além de avaliações das condições das residências e cisternas.
Para as comunidades, os pesquisadores recomendam ainda a criação de mecanismos permanentes de acompanhamento e participação. Entre as medidas sugeridas estão: cadastro das famílias atingidas, canais permanentes para registro de denúncias, audiências públicas, acompanhamento dos impactos sobre a saúde e participação das comunidades nas discussões relacionadas à atividade minerária.
O documento também aponta a possibilidade de participação de diferentes instituições nesse processo, incluindo prefeituras, câmaras municipais, secretárias de saúde e assistência social, além do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema), da Agência Nacional de Mineração (ANM), do Ministério Público, da Defensoria Pública e das universidades públicas.
O papel da universidade diante do território
Ao reunir pesquisadores, moradores e movimentos sociais, o diagnóstico evidencia uma das possibilidades de atuação da universidade pública: produzir conhecimento a partir das demandas que chegam dos territórios e disponibilizar à sociedade instrumentos para compreender problemas que fazem parte de seu cotidiano.
No caso das comunidades de Currais Novos e Campo Redondo, o trabalho representa um primeiro levantamento sistematizado das percepções dos moradores sobre as transformações vivenciadas após o início da exploração de ouro. Os dados não encerram a discussão; ao contrário: apontam questões que ainda precisam ser investigadas e colocam em evidência a necessidade de ampliar o diálogo entre comunidades, empresas, poder público e instituições de pesquisa.
Enquanto novas investigações não são realizadas, os números do diagnóstico ajudam a registrar uma realidade percebida por quem vive diariamente no entorno da mina: famílias que, há décadas, constroem suas vidas naquele território, e que, agora, relatam medo, dúvidas e mudanças provocadas por uma nova fase da atividade minerária.
Mais do que apresentar respostas definitivas, a pesquisa da UFRN ajuda a formular perguntas que precisam continuar sendo feitas: o que está acontecendo com essas comunidades, quais são as causas dos impactos relatados, e quais medidas podem garantir a segurança, a saúde e os direitos de quem vive naquele território?
É nesse espaço entre a percepção dos moradores e a necessidade de comprovação científica que o trabalho do Semiar se coloca: ouvir, registrar, investigar e contribuir para que as comunidades tenham instrumentos para participar das decisões que afetam diretamente suas vidas.
Nesse sentido, sob a coordenação do Semiar e com a participação dos movimentos sociais MAM e Seridó Vivo, bem como das comunidades diretamente afetadas, foi criado um inédito Observatório dos Impactos da Mineração do Rio Grande do Norte, que possui como objetivo principal comunicar os impactos, apresentar as denúncias das comunidades, compartilhar as publicações acadêmicas, dentre outras atividades, de modo a centralizar e facilitar a localização das informações referentes ao problema mineral no Rio Grande do Norte, particularmente sobre Currais Novos e região.
Para conferir esse conteúdo, você pode acessar a página do Observatório no Instagram.
Imagem de capa: Anastácia Vaz
Fonte: LabCam/UFRN







































































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