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Trump transforma crianças imigrantes em alvos de uma máquina de crueldade

Com quase 200 mil menores sob ordens de remoção e milhares de crianças detidas, governo americano converte perseguição migratória em espetáculo de força, sofrimento e desumanização institucional.

Otaviano Lacet Postado por Otaviano Lacet
13 de outubro de 2026
em Editorial
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Trump transforma crianças imigrantes em alvos de uma máquina de crueldade

Foto: Reuters / Yves Herman

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Um menino de cinco anos estava no banco traseiro de um carro quando agentes federais americanos atiraram contra o homem que dirigia o veículo, apontado como seu pai. A criança assistiu à violência, chorou aterrorizada e viu o adulto ser levado por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). A cena, ocorrida em Nova York, não é uma aberração isolada num sistema que normalmente funciona bem. É o retrato de uma política migratória que, sob Donald Trump, passou a tratar o sofrimento de crianças como consequência administrativamente tolerável de sua obsessão por prisões e deportações.

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Os números deveriam envergonhar qualquer sociedade que ainda pretenda apresentar-se como referência de civilização. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, quase 200 mil crianças e adolescentes receberam ordens judiciais de remoção dos Estados Unidos, aproximadamente 70% deles com menos de 13 anos, segundo levantamento da organização Mobile Pathways. Mais de 8,5 mil menores foram detidos pelo ICE, incluindo pelo menos 560 bebês e crianças pequenas. E uma estimativa da pesquisadora Maria Cancian, da Universidade Georgetown, indica que mais de 300 mil crianças podem ter vivenciado a detenção de pelo menos um dos pais desde janeiro de 2025.

É preciso conservar a distinção entre esses números: ordem de remoção não significa deportação já executada, assim como a detenção de um pai não implica necessariamente a separação definitiva da família. Mas nenhum desses cuidados estatísticos diminui o escândalo. Estamos falando de centenas de milhares de infâncias atravessadas pelo medo produzido por uma política de Estado, num país que construiu boa parte de sua identidade nacional proclamando-se terra de liberdade, oportunidades e direitos individuais.

O contraste seria apenas hipócrita se não fosse tão devastador. A nação que ergueu a Estátua da Liberdade como símbolo de acolhimento agora permite que crianças temam ir à escola, famílias tenham receio de procurar hospitais e mães se despeçam dos filhos sem saber quando poderão abraçá-los novamente. O governo chama isso de fiscalização migratória. Eu chamo de falência moral institucionalizada.

O crime de Orlin: dois anos de idade e uma infância abandonada à violência

Em janeiro, uma criança hondurenha de apenas dois anos, Orlin Hernandez Reyes, ficou aos cuidados do ex-companheiro de sua tia depois que agentes do ICE prenderam sua mãe. A mulher pediu insistentemente que pudesse reencontrar o filho antes de ser deportada para Honduras. O pedido não foi atendido, e o menino acabou sob os cuidados de um homem que, segundo os relatos publicados, possuía histórico de comportamento agressivo.

Pouco depois, Orlin foi encontrado morto, com fraturas e indícios de violência sexual. O homem responsável por seus cuidados foi acusado de homicídio, mas declarou-se inocente. A responsabilidade criminal pela morte deverá ser determinada pela Justiça, e não existe fundamento para afirmar que agentes migratórios praticaram o assassinato. O que não desaparece com essa distinção é a responsabilidade institucional de explicar por que uma criança tão pequena foi afastada da mãe e deixada numa situação em que sua segurança não estava assegurada.

A reação de Todd Lyons, dirigente do ICE à época, foi especialmente reveladora. Em vez de reconhecer a gravidade da situação e a necessidade de investigar o procedimento que havia separado mãe e filho, ele responsabilizou publicamente a mulher pelo que aconteceu. A mesma mãe que pediu para levar o menino consigo foi apresentada como culpada por deixá-lo para trás.

Eis uma das perversões mais abjetas desse sistema: o Estado separa uma família, controla as condições dessa separação e depois transfere para a vítima a culpa pelas consequências. Nenhuma teoria sofisticada é necessária para perceber a obscenidade moral desse raciocínio. Basta imaginar o desespero de uma mãe deportada que descobre, longe do filho, que ele morreu nas mãos de quem deveria protegê-lo.

Um gorro de coelho, uma mochila do Homem-Aranha e agentes armados

Outro episódio que ganhou repercussão internacional foi a detenção de Liam Conejo Ramos, também de cinco anos, em Minneapolis. Nas imagens divulgadas, o menino aparece com um gorro azul de orelhas de coelho e uma mochila do Homem-Aranha. São objetos absolutamente comuns da infância, colocados numa situação que nenhuma criança deveria experimentar.

Liam foi levado para o centro de detenção de Dilley, no Texas, instalação destinada a famílias migrantes que havia sido fechada em 2021 e voltou a receber detidos no segundo governo Trump. A repercussão provocou manifestações de artistas, ativistas e organizações de direitos humanos. O governo reduziu posteriormente o encaminhamento de crianças à unidade, mas as detenções continuaram.

Existe algo de profundamente perturbador na naturalidade com que uma burocracia estatal consegue reunir, numa mesma cena, um menino vestido para ir à escola e agentes encarregados de executar uma operação migratória. A criança não conhece as sutilezas do direito de imigração, não participou das decisões que levaram sua família aos Estados Unidos e não possui instrumentos para compreender o aparato repressivo colocado à sua frente.

Para ela, o que existe é medo. Medo de perder os pais, de ser levada para longe, de não voltar para casa e de descobrir que os adultos armados têm poder sobre tudo aquilo que constitui seu pequeno universo. Nenhuma estatística administrativa será capaz de medir integralmente o que uma experiência dessas pode produzir em sua formação emocional.

A crueldade deixou de ser acidente e entrou nas metas de governo

O governo Trump estabeleceu uma política agressiva de deportação em massa. Stephen Miller, um dos principais formuladores da estratégia migratória da Casa Branca, chegou a anunciar publicamente a meta de 3 mil prisões diárias pelo ICE, embora os registros disponíveis não indiquem que esse patamar tenha se tornado uma rotina sustentada. A insistência em metas numéricas, entretanto, ajuda a compreender a lógica por trás da operação.

Quando o desempenho de uma estrutura policial passa a ser medido principalmente pela quantidade de pessoas que consegue prender, a pessoa corre o risco de desaparecer atrás do número. A avaliação de circunstâncias individuais, vínculos familiares, vulnerabilidades e alternativas legais torna-se um obstáculo operacional à produtividade. A humanidade do detido, numa engrenagem assim, pode ser tratada como perda de eficiência.

É importante distinguir essa crítica da defesa de uma imigração sem regras. Nenhum país está obrigado a permitir a entrada irrestrita de estrangeiros, e governos possuem competência para administrar fronteiras, examinar pedidos de asilo e aplicar decisões legais de remoção. O problema está nos meios utilizados, na proporcionalidade das medidas e na proteção dos direitos de quem é submetido a elas.

Um Estado democrático pode negar residência a alguém sem destruir sua família. Pode cumprir uma ordem judicial sem humilhar uma criança. Pode deportar uma pessoa que não possui direito de permanência sem transformar o episódio numa demonstração de força diante de seus filhos. A lei migratória não suspende a obrigação de respeitar a dignidade humana.

A fabricação do inimigo: primeiro desumaniza-se, depois persegue-se

O linguista e pensador Noam Chomsky, em Mídia: propaganda política e manipulação, examina como governos e grupos de poder podem construir consensos políticos por meio da propaganda, do medo e da fabricação de inimigos. Uma população insatisfeita encontra no suposto inimigo uma explicação simples para problemas econômicos e sociais complexos. A culpa por tudo passa a ter um rosto conveniente.

Donald Trump aperfeiçoou politicamente essa estratégia. Imigrantes são frequentemente apresentados em sua retórica como ameaça à segurança, ao emprego, à cultura e à identidade nacional americana. As diferenças entre pessoas que cometeram crimes graves, trabalhadores sem documentação regular e famílias que procuram proteção acabam diluídas num discurso generalizante.

Nesta terça-feira (13), Trump voltou a atacar imigrantes da Somália e do Haiti durante um comício em Ohio, repetindo inclusive alegações já desmentidas sobre haitianos. A retórica que associa comunidades estrangeiras inteiras à criminalidade ou à inferioridade cultural não é mero excesso verbal. Ela prepara o ambiente político em que medidas cada vez mais agressivas passam a encontrar aceitação social.

O mecanismo é antigo. Antes que uma sociedade aceite tratar determinados seres humanos como problema a ser eliminado de seu convívio, costuma ser necessário convencê-la de que eles são menos merecedores de consideração. Primeiro retira-se a singularidade do indivíduo; depois, a legitimidade de seus direitos; finalmente, sua dor deixa de provocar indignação.

Quando o imigrante deixa de ser visto como pai, mãe, trabalhador ou criança e passa a existir apenas como invasor, estrangeiro ilegal ou ameaça, a violência contra ele começa a parecer uma medida de proteção da sociedade.

As redes sociais transformaram a xenofobia em produto de consumo

Em A Máquina do Caos, o jornalista Max Fisher demonstra como redes sociais podem ampliar ressentimentos, alimentar teorias conspiratórias e favorecer processos de radicalização coletiva. Um dos fenômenos examinados no livro envolve justamente a hostilidade contra refugiados na Europa. Informações falsas e discursos alarmistas passaram a moldar a percepção de comunidades inteiras sobre pessoas que muitos de seus integrantes sequer conheciam.

O ambiente digital permite que uma minoria barulhenta pareça representar o consenso de toda a sociedade. Mensagens que despertam medo ou indignação podem conquistar circulação muito superior à de explicações equilibradas e verificadas. Aos poucos, a imagem construída nas telas passa a substituir a experiência concreta com os grupos atacados.

Esse mecanismo ajuda a compreender a eficácia da propaganda anti-imigração. Uma criança que cruza uma fronteira com a família deixa de ser apresentada como alguém em situação de vulnerabilidade e passa a integrar uma narrativa sobre invasão, decadência nacional ou conspiração demográfica. O caso individual desaparece dentro de uma categoria emocionalmente carregada.

A propaganda não precisa convencer todos os cidadãos de que crianças merecem sofrer. Basta convencê-los de que o sofrimento dessas crianças é um preço aceitável pela segurança ou pela grandeza nacional. O objetivo político nem sempre é produzir entusiasmo explícito pela crueldade, mas reduzir a resistência moral a ela.

A burocracia do sofrimento e a banalidade do mal

A filósofa Hannah Arendt permanece indispensável para compreender o que acontece quando estruturas administrativas deixam de submeter sua eficiência a qualquer julgamento moral sério. Em Eichmann em Jerusalém, ela desenvolveu a reflexão sobre a banalidade do mal a partir do julgamento de um dos responsáveis pela organização das deportações de judeus durante o Holocausto. Sua observação não diminuía a monstruosidade dos crimes, mas examinava como atos terríveis podiam ser praticados por pessoas que se refugiavam na linguagem burocrática e na obediência.

A interpretação desenvolvida por Nádia Souki, em Hannah Arendt e a banalidade do mal, ajuda a recuperar o ponto essencial dessa reflexão: o perigo de abandonar a capacidade de julgar moralmente aquilo que se faz. O executor de uma ordem não deixa de ser responsável apenas porque outro a formulou. Uma estrutura administrativa tampouco se torna moralmente legítima por funcionar segundo procedimentos formalmente estabelecidos.

Guardadas as diferenças históricas e de gravidade, a questão filosófica é pertinente ao funcionamento da política migratória americana. Um agente pode dizer que apenas cumpriu a ordem. Um superior pode afirmar que aplicou o regulamento. Um diretor pode explicar que a meta precisava ser alcançada. Ao final dessa cadeia de justificativas, a criança continua separada dos pais, e todos parecem convencidos de que a responsabilidade pertence a outra pessoa.

A obra A Banalidade do Sofrimento, também encaminhada para esta análise, explora um desdobramento contemporâneo desse problema: a normalização institucional da dor. O sofrimento deixa de produzir interrogação ética e passa a integrar os procedimentos cotidianos. Aquilo que deveria interromper a rotina acaba absorvido por ela.

É precisamente esse processo que torna a atual política de deportações tão alarmante. Não é necessário imaginar que todos os funcionários do ICE sejam pessoas sádicas ou movidas pelo ódio. Basta que uma estrutura recompense a obediência, desestimule a dúvida e trate a proteção das crianças como dificuldade administrativa.

Foucault, o controle dos corpos e o poder de decidir quem pertence

O centenário de nascimento do filósofo francês Michel Foucault, celebrado nesta semana, oferece outra chave para compreender a questão. Sua obra demonstrou que o poder não atua apenas por meio de grandes decisões políticas, mas também através de instituições, classificações, registros, vigilância e mecanismos cotidianos de disciplina. Em Vigiar e Punir, Foucault investigou como o controle dos corpos se transforma em instrumento de organização social.

As políticas migratórias modernas oferecem um campo evidente para essa reflexão. O Estado identifica, registra, classifica, vigia, detém, transfere e expulsa indivíduos. Cada procedimento possui uma justificativa administrativa, mas o conjunto define quem pode permanecer num território, quais direitos conseguirá exercer e sob quais condições sua liberdade poderá ser restringida.

O filósofo camaronês Achille Mbembe, ao desenvolver o conceito de necropolítica a partir de debates que incluem a reflexão foucaultiana sobre o biopoder, avançou na investigação das formas pelas quais estruturas de poder expõem determinadas populações à morte e a condições extremas de vulnerabilidade.

Não é necessário afirmar que a política de Trump seja idêntica aos contextos históricos investigados por esses pensadores para reconhecer a utilidade de suas ferramentas analíticas. Quando decisões estatais submetem populações específicas a riscos desproporcionais e reduzem os mecanismos disponíveis para protegê-las, a discussão ultrapassa o simples cumprimento da legislação migratória. Passa a envolver a distribuição política da segurança, da vulnerabilidade e da possibilidade de sobreviver.

Cortar a defesa jurídica de crianças é atacar quem menos pode se defender

Uma das decisões mais preocupantes do governo Trump atingiu a assistência jurídica destinada a menores migrantes desacompanhados. Em julho, a administração encerrou o contrato com o Acacia Center for Justice, responsável pela articulação de uma rede de aproximadamente cem organizações que atendiam milhares de crianças. A mudança comprometeu a continuidade da representação jurídica de jovens que enfrentam processos capazes de determinar seu futuro.

A gravidade dessa decisão é evidente. Uma criança desacompanhada pode desconhecer a língua inglesa, não compreender o procedimento judicial, não saber explicar os riscos que enfrenta no país de origem e sequer identificar a possibilidade de solicitar uma forma de proteção legal. Esperar que ela enfrente sozinha a estrutura jurídica do governo americano não é igualdade perante a lei. É transformar uma desigualdade extrema em vantagem processual para o Estado.

A administração informou posteriormente que financiaria serviços alternativos e anunciou, em outubro, a criação de uma equipe de advogados vinculada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos. O governo sustenta que a nova estrutura permitirá prestar orientação e representação aos menores. Organizações de defesa dos migrantes, entretanto, questionam a independência desses profissionais, já que trabalharão dentro da própria administração responsável pela custódia das crianças.

Não é necessário presumir que todo advogado público agirá contra os interesses de seus representados. A preocupação está no desenho institucional, na garantia de independência profissional e na continuidade efetiva do atendimento. Uma defesa que não pode confrontar plenamente o poder encarregado de deter seu cliente corre o risco de se tornar apenas mais uma etapa do procedimento de expulsão.

Algoritmos, estatísticas e a perigosa ilusão de neutralidade

A matemática também pode ajudar a esconder aquilo que deveria tornar visível. Em Algoritmos de Destruição em Massa, Cathy O’Neil demonstra como modelos quantitativos podem reproduzir desigualdades e produzir decisões injustas quando são opacos, mal avaliados ou incapazes de corrigir seus próprios erros. O problema não está nos números em si, mas no uso de sistemas que transformam classificações imperfeitas em decisões sobre vidas humanas.

Não existe, nos materiais examinados, evidência suficiente para afirmar que um algoritmo específico esteja determinando as prisões ou deportações de crianças pelo ICE. Seria intelectualmente irresponsável inventar essa conexão. A contribuição de O’Neil aqui é analítica: qualquer estrutura que transforme pessoas em unidades de desempenho precisa ser examinada também pelos danos que suas métricas deixam de registrar.

Uma operação pode parecer eficiente porque produziu milhares de detenções. Um governo pode apresentar números crescentes como prova de sucesso. Mas, se a avaliação não considerar crianças desamparadas, famílias desfeitas, violações de direitos e sofrimento psicológico, estará medindo produtividade sem medir responsabilidade.

O procedimento se torna especialmente perverso quando a própria quantidade de prisões serve para justificar a ampliação de novas operações. Quanto mais pessoas são detidas, mais eficiente a política parece. Quanto mais eficiente parece, mais recursos e poderes pode receber. É possível construir uma máquina administrativamente bem-sucedida e moralmente desastrosa.

Uma criança americana também pode perder a mãe

Outro elemento desmonta a tentativa de apresentar a questão como um conflito simples entre cidadãos americanos e estrangeiros em situação irregular. Milhares de crianças atingidas pelas operações possuem cidadania dos Estados Unidos, embora seus pais tenham nascido em outros países. A eventual irregularidade migratória de um adulto não elimina a cidadania de seu filho.

Uma investigação da ProPublica identificou crescimento expressivo nas deportações de mães de crianças americanas durante o governo Trump, em ritmo diário aproximadamente quatro vezes superior ao observado durante a administração de Joe Biden. A maioria das mulheres examinadas tinha antecedentes leves ou nenhum histórico criminal. O resultado são famílias obrigadas a escolher entre separar-se e levar crianças americanas para países onde talvez nunca tenham vivido.

É uma contradição que deveria constranger até os defensores mais apaixonados da retórica nacionalista. O governo proclama defender os americanos enquanto submete crianças americanas a perdas familiares profundas em nome de uma política que frequentemente se apresenta como proteção da própria nação.

A nacionalidade da criança, porém, não deveria ser o critério fundamental dessa indignação. O sofrimento de um menino hondurenho, brasileiro, mexicano, haitiano ou americano não possui valores morais diferentes. A cidadania determina direitos específicos perante um Estado, mas não estabelece uma hierarquia de humanidade.

O argumento da segurança não autoriza transformar famílias em inimigas

A defesa mais recorrente dessas operações é a necessidade de combater a criminalidade e garantir o cumprimento das leis migratórias. Evidentemente, pessoas acusadas de crimes devem responder perante a Justiça, respeitados os direitos processuais. Mas tratar imigração irregular como equivalente automático de violência criminosa é uma distorção conveniente.

O próprio caso de Oscar Belgal, baleado diante de uma criança em Nova York, exige essa distinção. Autoridades federais afirmam que ele possuía antecedentes criminais e que teria colocado agentes em perigo ao movimentar seu veículo durante a abordagem. Testemunhas e representantes da defesa contestam aspectos dessa versão, e as circunstâncias do disparo ainda exigem apuração.

Mesmo que uma pessoa tenha cometido um crime, isso não elimina os limites legais do uso da força e muito menos transforma seu filho em participante da conduta. A presença de uma criança no veículo exige cuidados adicionais, não indiferença. O Estado não pode utilizar a culpabilidade real ou presumida de um adulto como autorização genérica para expor menores a riscos evitáveis.

O Departamento de Segurança Interna tem defendido a atuação de seus agentes e responsabilizado políticas locais de proteção a imigrantes por dificultar a fiscalização. Essa argumentação precisa ser examinada, mas não pode servir como resposta universal a qualquer denúncia de excesso. Segurança pública não é um salvo-conduto para que agentes armados dispensem proporcionalidade, transparência e prestação de contas.

Trump, Hitler, Mussolini e Stalin: quando a tirania transforma crianças em inimigas do Estado

Comparar Donald Trump a Adolf Hitler, Benito Mussolini e Josef Stalin não é necessariamente um exercício de exagero retórico, tampouco significa equiparar automaticamente os crimes e as dimensões históricas de seus governos. O paralelo está nos mecanismos de construção do poder autoritário: a fabricação de inimigos, a manipulação sistemática da verdade, o nacionalismo excludente, o culto à personalidade e a transformação da violência institucional em instrumento de controle social. São práticas que atravessaram regimes ideologicamente distintos e que hoje encontram ecos perturbadores na retórica e nas políticas de Trump. Mas existe um elemento que torna essa comparação particularmente repugnante: a facilidade com que o sofrimento infantil passa a ser admitido como consequência aceitável de um projeto político, como se uma criança pudesse herdar a suposta culpa de seus pais, de sua origem étnica ou simplesmente do lugar onde nasceu.

Em Donald Trump in the Footsteps of Adolf Hitler, o escritor europeu Geir Sivertsen examina dezesseis paralelos entre Trump e o ditador nazista, incluindo o emprego reiterado de falsidades, a exploração de ressentimentos populares, a desumanização de minorias e o desprezo pelas limitações democráticas. Há uma coincidência retórica particularmente sinistra: Trump afirmou que imigrantes estariam “envenenando o sangue” dos Estados Unidos, expressão que remete diretamente à obsessão nazista pela pureza racial. Também utilizou a palavra “vermes” para atacar adversários políticos, recorrendo à animalização que historicamente serviu para degradar a condição humana de grupos considerados indesejáveis. Não estamos diante de simples grosserias de palanque, mas de uma linguagem que prepara o terreno para uma perversão moral ainda maior: quando adultos são classificados como contaminadores da nação, seus filhos também podem passar a ser tratados como parte do problema que precisa ser eliminado do convívio social.

Foi precisamente essa lógica de desumanização coletiva que permitiu a regimes totalitários estender sua perseguição às crianças. Na Alemanha nazista, meninos e meninas judeus foram progressivamente excluídos das escolas, privados de direitos, separados de suas famílias e, posteriormente, submetidos ao mesmo projeto genocida dirigido contra seu povo. Na Itália de Mussolini, as leis raciais de 1938 também atingiram diretamente crianças judias, expulsando-as das escolas públicas e institucionalizando sua segregação. Sob Stalin, deportações coletivas e políticas repressivas alcançaram famílias inteiras, submetendo inúmeras crianças a deslocamentos forçados, privações e mortes. Os regimes eram diferentes, assim como seus objetivos e a escala dos crimes, mas compartilhavam uma característica estarrecedora: a infância deixou de funcionar como limite moral para o exercício da violência estatal.

É essa fronteira que as políticas de Donald Trump ameaçam corroer. Quando quase 200 mil menores recebem ordens de remoção, mais de 8,5 mil crianças são detidas por agentes migratórios e pelo menos 560 bebês e crianças pequenas acabam submetidos ao aparato de detenção, não estamos diante de uma simples discussão burocrática sobre documentos de residência. Estamos diante de uma política que transforma a vulnerabilidade infantil em variável secundária de uma operação de repressão migratória. As diferenças jurídicas entre ordem de remoção, detenção e deportação efetivamente realizada precisam ser preservadas, mas nenhuma delas altera a questão moral fundamental: que espécie de governo considera aceitável submeter crianças tão pequenas à engrenagem policial destinada a expulsar pessoas de seu território?

O menino Liam Conejo Ramos, de cinco anos, detido em Minneapolis usando um gorro azul com orelhas de coelho e carregando uma mochila do Homem-Aranha, oferece uma imagem que deveria perseguir a consciência de qualquer defensor dessa política. Naquele instante, não havia diante dos agentes uma ameaça à segurança nacional, mas uma criança que deveria estar preocupada com brinquedos, desenhos animados e o próximo dia de aula. Sua detenção e transferência para uma instalação no Texas demonstram como a linguagem grandiloquente da segurança pode acabar legitimando intervenções profundamente intimidatórias sobre indivíduos incapazes de compreender ou enfrentar o poder do Estado. O menino não era responsável pela política migratória americana, não elaborou as circunstâncias jurídicas de sua família e jamais deveria ter sido tratado como instrumento de uma demonstração de força governamental.

Em Trumpert Hoover, Gary R. Boyd desenvolve uma crítica feroz ao autoritarismo de Trump, reunindo reportagens, documentos e comentários que aproximam suas práticas repressivas de métodos historicamente associados ao fascismo. Embora a obra utilize analogias extremas e contenha acusações que exigem verificação independente, sua preocupação central merece ser levada a sério: uma sociedade pode habituar-se progressivamente a níveis de violência institucional que antes consideraria intoleráveis. E a normalização torna-se ainda mais aterradora quando as vítimas são crianças, porque revela que até mesmo a vulnerabilidade infantil deixou de representar uma barreira suficientemente forte contra a brutalidade administrativa. Quando a prisão de um menino de cinco anos passa a ser defendida como procedimento normal de fiscalização migratória, não é apenas a política de imigração que está sendo transformada; é a própria sensibilidade moral da sociedade.

Nesse ponto, a reflexão de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal adquire uma dimensão especialmente devastadora. Não é necessário que todos os funcionários de uma estrutura repressiva odeiem crianças para que participem de uma política que lhes cause sofrimento. Basta que a obediência substitua o julgamento moral, que o cumprimento de metas se sobreponha à proteção dos vulneráveis e que a responsabilidade por cada consequência seja transferida indefinidamente de um setor administrativo para outro. O agente executa a ordem, o superior invoca o regulamento, o governo celebra os números e, em algum lugar dessa cadeia de obediências, uma criança chora porque não sabe onde estão seus pais. Eis a perversidade da violência institucional quando ela se torna rotina: ninguém precisa assumir integralmente o sofrimento que todos ajudaram a produzir.

A semelhança mais inquietante com os mecanismos das antigas tiranias está justamente na tentativa de tornar moralmente aceitável aquilo que deveria provocar repulsa imediata. Hitler construiu uma política de exclusão racial que culminou no genocídio; Mussolini consolidou uma ditadura fascista que também institucionalizou a perseguição racial; Stalin comandou um sistema de terror e repressão em massa. Seria historicamente irresponsável afirmar que as atuais operações migratórias americanas equivalem ao Holocausto ou aos expurgos stalinistas, mas igualmente irresponsável seria ignorar os métodos de desumanização que podem ser identificados em diferentes contextos autoritários. A História não precisa repetir os mesmos crimes, com idêntica escala e finalidade, para que seus mecanismos mais perigosos sejam reconhecidos.

Existe, contudo, uma diferença especialmente importante entre perseguir adultos e submeter seus filhos às consequências de uma política repressiva. Um adulto pode, dentro de determinados limites, compreender a acusação que enfrenta, procurar assistência jurídica, contestar decisões e organizar alguma estratégia de defesa. Uma criança de dois, cinco ou oito anos depende inteiramente da proteção que os adultos e as instituições deveriam garantir. Quando o próprio Estado compromete essa proteção, não está apenas restringindo direitos individuais: está utilizando seu poder contra pessoas cuja vulnerabilidade deveria constituir razão adicional para protegê-las. A infância deixa de ser reconhecida como condição merecedora de cuidado especial e passa a ser absorvida pela mesma lógica punitiva aplicada aos adultos.

É por isso que considero particularmente abjeta a tentativa de apresentar o sofrimento dessas crianças como efeito inevitável da defesa da soberania americana. Nenhuma criança deveria precisar assistir à prisão violenta dos pais, passar noites numa instalação de detenção ou temer a escola porque o governo decidiu fazer das deportações uma vitrine de eficiência política. A capacidade de um Estado cumprir sua legislação migratória não depende de transformar a infância em território de punição. E um governante que aceita esse sofrimento como preço de sua estratégia política precisa responder moralmente por essa escolha, ainda que a responsabilidade jurídica por cada violação deva ser individualmente apurada.

O perigo de Trump, portanto, não precisa ser inventado por meio de conspirações extravagantes, diagnósticos psiquiátricos improvisados ou acusações que ultrapassem as evidências disponíveis. Sua retórica xenófoba, sua tentativa de desacreditar a eleição de 2020, seu desprezo recorrente por adversários e as consequências documentadas de sua política migratória já fornecem material suficiente para uma crítica contundente. O problema não é apenas o que ele diz sobre estrangeiros, mas aquilo que seu governo está disposto a permitir que aconteça com famílias e crianças em nome desse discurso. Mais grave do que a presença de traços autoritários em um presidente é a possibilidade de milhões de cidadãos começarem a considerar perfeitamente aceitável que crianças sejam submetidas a sofrimento para demonstrar a força de sua nação.

A maior utilidade de conhecer Hitler, Mussolini e Stalin não está em procurar seus sucessores perfeitos, mas em impedir que os mecanismos que lhes permitiram exercer a tirania sejam novamente aceitos como política legítima. A História não nos deixou essas tragédias para que aguardássemos sua repetição integral antes de reagir. Deixou-nos advertências sobre o que acontece quando uma sociedade aceita que determinados seres humanos merecem menos proteção, menos direitos e menos compaixão que outros. E talvez a advertência mais importante seja justamente aquela que Donald Trump parece disposto a desprezar: quando um Estado já não reconhece na fragilidade de uma criança um limite para seu próprio poder, é a humanidade de toda a sociedade que começa a ser colocada em julgamento.

O racismo de Estado não precisa estar escrito na lei

Uma política não precisa mencionar expressamente determinada etnia para produzir efeitos discriminatórios. Basta que a ação do Estado seja construída num ambiente em que grupos raciais ou nacionais específicos sejam persistentemente associados ao perigo, à criminalidade e à inferioridade. Essa associação pode influenciar decisões administrativas e a própria tolerância da sociedade à violência.

Na retórica de Trump, populações latino-americanas, haitianas e de outros países frequentemente aparecem como problema coletivo. A repetição de generalizações negativas ajuda a transformar grupos extremamente diversos numa massa indiferenciada. O trabalhador, a mãe, o refugiado, o estudante e a criança passam a carregar uma suspeita que não decorre de suas próprias ações.

É por isso que considero profundamente racista e xenófoba a lógica política que se alimenta dessa generalização e utiliza o medo do estrangeiro como instrumento de mobilização. Não se trata de acusar todos os americanos de racismo, tampouco de afirmar que toda aplicação da legislação migratória seja discriminatória. Trata-se de reconhecer a dimensão política de uma retórica que reiteradamente degrada comunidades inteiras e de políticas cuja execução expõe pessoas vulneráveis a graves violações.

A ironia histórica é brutal. Os Estados Unidos foram construídos, em grande parte, pelo trabalho de sucessivas gerações de imigrantes, além da violência colonial e da exploração da população escravizada. Agora, setores do poder político tratam como ameaça existencial a chegada de estrangeiros que procuram exatamente as oportunidades prometidas pela narrativa tradicional americana.

O sofrimento latino-americano também é resultado de uma história de poder

Para nós, latino-americanos, há outra dimensão nessa discussão que não pode ser ignorada. Durante décadas, os Estados Unidos exerceram influência decisiva sobre a política, a economia e os conflitos de países da América Latina. Apoiaram governos autoritários, intervieram em disputas regionais e defenderam interesses estratégicos que nem sempre coincidiram com os das populações locais.

A migração contemporânea não pode ser explicada por uma única causa, e seria simplista atribuir todos os deslocamentos humanos à política externa americana. Guerras, violência organizada, perseguições, desigualdade, pobreza e crises ambientais possuem dinâmicas próprias. Mas também seria historicamente desonesto apagar o papel que intervenções internacionais e estruturas econômicas desiguais desempenharam na formação de algumas dessas crises.

O que torna a arrogância política de Trump especialmente ofensiva é a facilidade com que transforma o sofrimento dos outros povos em defeito moral dos próprios povos. O estrangeiro não aparece como alguém cuja história precisa ser compreendida, mas como intruso que ameaça uma ordem supostamente superior. A potência deseja influência sobre o continente, seus mercados e suas riquezas, mas parte de seu discurso político trata os habitantes desse mesmo continente como pessoas indesejáveis.

Não é necessário odiar os Estados Unidos para denunciar essa contradição. Aliás, algumas das resistências mais importantes à política de Trump vêm dos próprios americanos: jornalistas, juízes, médicos, professores, organizações humanitárias, defensores públicos, lideranças religiosas e cidadãos que se recusam a aceitar a desumanização de seus vizinhos.

Essas pessoas demonstram que os Estados Unidos são maiores do que seu presidente e que combater as políticas da Casa Branca não significa hostilizar indiscriminadamente a população americana.

A ciência já conhece as consequências da separação familiar

O impacto sobre crianças não é apenas uma preocupação sentimental. A Academia Americana de Pediatria reafirmou em 2026 que políticas de detenção e separação familiar podem prejudicar a saúde física e mental de crianças migrantes, agravando vulnerabilidades já produzidas pelo próprio processo migratório. A entidade recomenda que o acolhimento infantil seja orientado prioritariamente pela proteção da criança, e não pela lógica policial.

Separações abruptas e experiências ameaçadoras podem produzir estresse tóxico, ansiedade, distúrbios do sono, dificuldades escolares e problemas de desenvolvimento. A intensidade e a duração dos efeitos variam conforme as circunstâncias, mas os riscos são suficientemente conhecidos para que políticas públicas sejam obrigadas a considerá-los.

Isso significa que o sofrimento não termina necessariamente quando a criança sai do centro de detenção ou consegue reencontrar a família. Experiências traumáticas podem continuar interferindo na maneira como ela percebe segurança, confiança, autoridade e pertencimento.

A infância não dispõe de um mecanismo de reinicialização capaz de apagar aquilo que o Estado fez ontem. Por isso, a pergunta sobre a eficiência das deportações é moralmente insuficiente. O governo também deveria responder quantas crianças ficaram desassistidas, quantas perderam acesso à escola, quantas necessitaram de acompanhamento psicológico e quais mecanismos existem para reparar danos provocados por procedimentos inadequados.

A política migratória precisa de leis; a civilização precisa de limites

Defender direitos de imigrantes não significa ignorar os desafios concretos enfrentados pelos Estados Unidos. O país tem de administrar fronteiras extensas, combater redes de tráfico humano, processar pedidos de asilo e lidar com pressões sobre serviços públicos. Essas questões merecem respostas sérias, recursos adequados e instituições capazes de agir.

O que não pode ser aceito é a transformação de problemas administrativos e políticos em autorização para brutalidade. Uma criança não se torna menos criança porque atravessou uma fronteira irregularmente. Uma mãe não deixa de ser mãe porque não possui autorização de residência. E um Estado não demonstra grandeza quando consegue aterrorizar pessoas que praticamente não possuem meios de resistir.

Se o objetivo fosse verdadeiramente construir uma política migratória eficiente e compatível com os valores democráticos que os americanos proclamam defender, seria necessário preservar a unidade familiar sempre que possível, garantir representação jurídica independente aos menores, utilizar alternativas à detenção e fiscalizar rigorosamente o uso da força. Também seria indispensável investigar mortes, abusos e desaparecimentos administrativos, corrigindo procedimentos que comprovadamente colocam crianças em perigo.

Nada disso equivale à abertura indiscriminada das fronteiras. Equivale à compreensão elementar de que a soberania de um país não concede a seus governantes propriedade moral sobre a dignidade das pessoas submetidas à sua autoridade.

Uma nação não se torna grande aterrorizando crianças

Donald Trump construiu uma carreira política transformando conflitos sociais complexos em combates entre um suposto povo legítimo e inimigos apresentados como ameaças à sua sobrevivência. Na imigração, essa fórmula encontrou um campo especialmente fértil: os estrangeiros possuem menor capacidade eleitoral de reação, os indocumentados frequentemente temem denunciar abusos e as crianças praticamente não possuem voz política própria. É uma assimetria de poder gigantesca.

Aí reside a covardia fundamental de uma política que procura demonstrar força diante dos mais vulneráveis. Não há heroísmo em enviar agentes armados contra famílias assustadas, nem grandeza administrativa em multiplicar detenções sem assegurar proteção adequada aos menores envolvidos. A eficácia de um Estado não pode ser avaliada apenas pela facilidade com que consegue prender pessoas, mas também pela capacidade de limitar o próprio poder.

Voltemos ao menino de cinco anos que presenciou agentes federais balearem um homem dentro do carro em que estava. Ele não conhece as teses de Foucault, não leu Hannah Arendt, não compreende o funcionamento das redes analisado por Max Fisher e não tem como avaliar os mecanismos de propaganda descritos por Chomsky. Também não faz ideia de quais metas Stephen Miller gostaria de alcançar nem de como Donald Trump pretende apresentar seus resultados à opinião pública.

Ele conhece o medo. Conhece o barulho de disparos de arma de fogo, a sensação de estar cercado por adultos armados e de ver uma pessoa próxima ser retirada de seu alcance. Sua experiência concreta reúne, em poucos minutos, as consequências humanas de decisões formuladas muito longe dali, em gabinetes onde a expressão deportação em massa provavelmente soa muito mais limpa do que aquilo que representa.

É por isso que a indignação precisa ultrapassar o terreno das preferências partidárias. Não se trata de escolher entre republicanos e democratas, esquerda e direita, conservadores e progressistas. Trata-se de recusar a ideia de que o sofrimento de crianças possa ser convertido em instrumento legítimo de propaganda, intimidação ou demonstração de autoridade.

As sociedades que se consideram civilizadas costumam olhar retrospectivamente para grandes injustiças históricas e perguntar como tantas pessoas puderam aceitá-las. A pergunta é confortável porque coloca o problema no passado e permite imaginar que, vivendo naquele tempo, certamente teríamos agido de maneira diferente.

Mas a prova moral nunca acontece no passado. Acontece diante daquilo que escolhemos tolerar agora.

Hoje, existem crianças separadas de seus pais, menores enfrentando processos de deportação, bebês levados a instalações de detenção e famílias vivendo sob o medo permanente de perder alguém. Existem documentos, estatísticas, fotografias, relatos e advertências de organizações que trabalham diariamente com essas vítimas. A ignorância já não serve de desculpa.

Trump pode continuar proclamando que pretende tornar os Estados Unidos grandes novamente. Seus seguidores podem aplaudir discursos agressivos e celebrar números de deportações como vitórias nacionais. Mas nenhuma potência se engrandece moralmente pela capacidade de infligir sofrimento a pessoas indefesas.

A grandeza de uma nação também se mede pelo tratamento que reserva àqueles que não possuem poder para exigir respeito. E quando um governo precisa transformar crianças em alvos de sua demonstração de força, o que está sendo revelado não é a superioridade daquela nação. É a pequenez moral de quem a governa.

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É Jornalista, Escritor e Editor, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior. É também pós-graduando em Arqueologia, História e Interpretação da Bíblia.

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