Há um fenômeno curioso — e preocupante — na cultura contemporânea: a tendência crescente de transformar problemas psicológicos reais em rótulos identitários ‘descolados’, supostamente libertadores. E assim, ao invés de buscarem ajuda, muitos preferem batizar a própria dor com um nome estiloso, encontrar pares igualmente subdiagnosticados e, juntos, formarem comunidades que funcionam menos como apoio terapêutico e mais em prol da validação mútua, dissimulando o que os unem de fato: o medo e a fuga do autoconfronto.
Nesse contexto, multiplicam-se grupos baseados em categorias identitárias fluidas, quase sempre desobrigados de oferecer alento ou respostas concretas. Nessas ‘bolhas’, apresentadas como ‘expressões culturais’, o sofrimento encontra apenas um abrigo estéril: que, em vez de acolher, reforça um mecanismo autoimune sustentado por contradições internas. Afinal, apesar do discurso supostamente libertário, a prática revela outra lógica: a supervalorização da narrativa interna em detrimento da realidade externa, onde qualquer discordância, debate ou nuance é prontamente estigmatizada. São esses os ‘tijolos’ que estruturam tais grupos: a exclusão sistemática de confrontos, inclusive aqueles necessários aos cuidados com a saúde mental.
O fato é que, quando a dor se transforma em ‘identidade’, qualquer tentativa de intervenção passa a soar como um ‘ataque existencial’. Afinal, se o sofrimento passa a ser entendido como algo que me define — em parte ou por inteiro — tratá-lo pode ser erroneamente percebido como tentativa de ‘apagar quem eu sou’. E essa visão, além de compreensível, é também conveniente: abandonar o ‘sentimento de posse’ projetado sobre a própria dor exige esforço real, enquanto convertê-la em ‘bandeira identitária’ é sempre o caminho mais fácil.
Cria-se então um círculo vicioso: pessoas vulneráveis se unem não para buscar saída, mas para reforçar coletivamente que não há saída, apenas pertencimento — e, na história, isto sempre foi um poderoso anestésico social. Grupos se formam, jargões se criam, símbolos são adotados e, aos poucos, o que começou como sofrimento individual vira fenômeno cultural coletivo. Só que o mero compartilhamento de um sofrimento nunca foi sinônimo de cura, muito menos de posicionamento em direção a esta.
Há uma consequência silenciosa nesse processo: a normalização da doença. Quando tudo é identidade, nada é patologia. Quando tudo é celebração, nada é tratamento. Sob o pretexto de “autenticidade”, “liberdade” ou “expressão pessoal”, muitos desses grupos passam a oferecer, sem perceber, um caminho de estagnação. E, como sempre, a internet — esse grande palco onde novas identidades nascem a cada semana — funciona como amplificador.
Não se trata, porém, de negar a legitimidade de experiências subjetivas, mas sim de reconhecer que, muitas vezes, o que se vende como ‘identidade alternativa’ não passa de diagnóstico não enfrentado. Transformar sofrimento em elemento definidor de uma ‘tribo’ pode conceder alívio temporário, mas não substitui terapias, acompanhamento profissional, autocuidado ou amadurecimento emocional. Neste sentido, permitir-se enxergar o problema é o primeiro passo, assim como abrir-se ao debate é o segundo desta complexa caminhada. Que possamos cumpri-la com a coragem exigida e não com eufemismos de derrota assumida.
Por Otaviano Lacet*
*Jornalista, Escritor e Editor, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior.









































































