Durante décadas, os Estados Unidos venderam ao planeta a fantasia de destino indispensável — centro cultural, farol democrático, capital do progresso. Mas este mito, outrora polido com propaganda e arrogância imperial, simplesmente não se sustenta mais. O estrangeiro deixou de ser visitante para tornar-se suspeito. E isso não é figura de linguagem: é diagnóstico institucional.
Nos últimos anos, práticas que seriam escandalosas em qualquer democracia madura passaram a integrar a rotina da política migratória americana. Não é opinião — são fatos. Uma juíza federal dos EUA afirmou, em decisão registrada, que determinados imigrantes foram tratados pior do que nazistas capturados pelo Exército americano, após o governo Trump recorrer a uma lei de 1798 para deportações sumárias, sem defesa nem processo digno.
O Papa Francisco, sempre comedido no vocabulário político, classificou como “cruéis e degradantes” as condições nos centros de detenção e denunciou a desumanização promovida pela separação de famílias na fronteira. Quando uma figura global de autoridade moral precisa intervir para denunciar abusos praticados por um país que se autoproclama guardião da civilização ocidental, sabemos que cruzamos um limite.
Como se isso não bastasse, o Departamento de Segurança Interna (DHS) decidiu que turistas devem fornecer cinco anos de histórico de redes sociais antes de serem autorizados a entrar. Não é controle migratório; é devassa preventiva. O estrangeiro é investigado antes mesmo de embarcar.
E o horizonte tende a piorar: planos oficiais já cogitam exigir DNA, análise de íris, selfies em tempo real, além do acesso a celulares antigos. A fronteira americana, antes vendida como símbolo de liberdade, se converteu no laboratório distópico onde paranoia estatal e tecnologia de vigilância selam um casamento perfeito.
Diante desse cenário, surge a pergunta que nenhum governo americano deseja ouvir — e que cada vez mais pessoas têm coragem de formular sem rodeios: por que insistir em viajar para um país que não demonstra o menor interesse em receber quem atravessa suas fronteiras com respeito e boa-fé?
A resposta, embora desconfortável, é cristalina. A fantasia do “turismo despreocupado” nos Estados Unidos já não se sustenta. Viajar para lá envolve riscos concretos: tratamento humilhante na imigração, arbitrariedade institucional, revogação sumária de vistos, detenção sem justificativa plausível e a possibilidade real de ser arrastado para o labirinto securitário que o país construiu para estrangeiros.
E isso não é narrativa apocalíptica — é constatação internacional.
Organismos como a ONU e a OEA já alertaram que a política migratória americana descamba para a arbitrariedade, adotando métodos incompatíveis com padrões mínimos de dignidade humana. Relatórios independentes apontam um país cada vez mais desconfortável com a presença do estrangeiro, e pesquisas do Pew Research Center confirmam um declínio sistemático da percepção global dos EUA como destino acolhedor. Até o Canadá, parceiro histórico e vizinho imediato, assiste ao crescimento de movimentos de boicote turístico — algo impensável até pouco tempo.
Diante desse cenário nefasto, a boa notícia é que enquanto o Tio Sam faz careta e fecha portas, há centenas de países mais interessantes e que seguem no sentido oposto. São locais que entenderam o óbvio: turismo é encontro de vontades, não suspeição; é curiosidade mútua e bem vinda, não vigilância estatal. Se os Estados Unidos insistem em tratar o estrangeiro como problema em potencial, então devem aprender a conviver com a consequência natural e legítima dessa postura: serem deixados de lado.
Viajar é um gesto de liberdade. E esta, quando plenamente compreendida, inclui o direito de simplesmente dizer:
Não vou.
Não preciso.
Não quero.
Não me submeto.
O mapa do mundo não se curva ao egocentrismo superlativo americano. E por mais que os EUA continue ilusoriamente se enxergando “como parada inevitável”, a cada dia perdem mais espaço para destinos que tratam o turista como convidado, não como ameaça. Mas tudo bem… afinal, como bem disse Humphrey Bogart no clássico filme Casablanca, “nós sempre teremos Paris”.
Por Otaviano Lacet*








































































