Os Estados Unidos construíram sua hegemonia global não apenas pelo poder econômico e militar, mas por uma combinação persistente de discurso moralizante e práticas sistemáticas de fraude política. Desde muito cedo, sempre me pareceu que o país ocupa, no teatro geopolítico internacional, o mesmo papel desempenhado por Dick Vigarista, personagem clássico da Hanna-Barbera: o vilão que se apresenta como competidor legítimo, mas que, nos bastidores, trapaceia, sabota adversários, manipula regras e distorce o percurso sempre que percebe que pode perder a corrida.
A analogia não é meramente caricatural. Dick Vigarista jamais vencia pela habilidade ou pelo mérito. Seu método era a trapaça; seu discurso, porém, nunca assumia a vilania. Ele se via como injustiçado, como alguém apenas “fazendo o necessário”. O fracasso recorrente do personagem não vinha de uma punição moral consciente, mas da própria lógica autodestrutiva de quem confunde poder com direito. Esse padrão se repete, com notável fidelidade, na atuação internacional dos Estados Unidos ao longo do último século.
A moral como figurino, não como princípio
Há uma coerência inquietante entre a retórica pública norte-americana e suas práticas ocultas. Os EUA se apresentam como país protestante, temente a Deus, defensor da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, frequentemente revestindo sua política externa de um verniz quase messiânico. O chamado “excepcionalismo americano” sustenta a ideia de que Washington teria uma missão histórica singular, capaz de justificar ações que, se praticadas por outros Estados, seriam prontamente condenadas.
O problema é que essa moral funciona mais como figurino do que como princípio. Quando interesses estratégicos, econômicos ou geopolíticos entram em conflito com valores declarados, estes se tornam flexíveis, negociáveis e, em muitos casos, descartáveis. Não se trata de juízo ideológico, mas de constatação histórica reiteradamente documentada.
Espionagem em massa e a demolição do mito democrático
As revelações feitas por Edward Snowden expuseram uma das mais profundas contradições da democracia norte-americana contemporânea: a distância abissal entre o discurso de defesa das liberdades civis e a prática sistemática da vigilância em massa. Documentos divulgados por The Guardian, The Washington Post, Der Spiegel e, no Brasil, pelo The Intercept Brasil, mostraram que a NSA, com cooperação direta da CIA, montou um sistema global de espionagem que monitorava cidadãos norte-americanos e estrangeiros sem mandado judicial, sem controle parlamentar efetivo e sem transparência pública.
Chefes de Estado aliados, empresas estratégicas, universidades, jornalistas e organizações civis foram alvos desse aparato. A vigilância não se restringia ao combate ao terrorismo. Incluía espionagem econômica, industrial e diplomática, desmontando a narrativa de que se tratava de um mecanismo defensivo. A democracia mostrou-se perfeitamente compatível com práticas típicas de regimes autoritários — desde que praticadas pelo “lado certo”.
O caso brasileiro é exemplar e particularmente revelador. Documentos vazados por Snowden demonstraram que os Estados Unidos espionaram diretamente a então presidente Dilma Rousseff, ministros de Estado, a Petrobras e comunicações estratégicas do governo brasileiro. Mais grave ainda: investigações jornalísticas revelaram que essa espionagem tinha também objetivos comerciais concretos, entre eles obter vantagem na concorrência internacional para a venda de caças ao Brasil, no âmbito do programa FX-2 da Força Aérea Brasileira.
Na época, os EUA disputavam o contrato bilionário por meio da Boeing, concorrendo com o consórcio europeu liderado pela Saab. As informações obtidas ilegalmente permitiriam mapear posições internas do governo brasileiro, estratégias de negociação, critérios técnicos e limites orçamentários — um tipo de espionagem que nada tem a ver com terrorismo e tudo tem a ver com competição econômica desleal entre Estados supostamente aliados. Não por acaso, após a revelação do escândalo, o Brasil suspendeu negociações estratégicas com Washington e, posteriormente, optou pela compra dos caças suecos Gripen, decisão amplamente interpretada como resposta política à violação de soberania.
Esse episódio desmonta de forma definitiva a retórica moral que tenta justificar a vigilância em massa como instrumento de segurança global. Quando o alvo não é um inimigo, mas um parceiro comercial; quando se espionam empresas estatais estratégicas; e quando o objetivo não é salvar vidas, mas ganhar contratos, a vigilância deixa de ser defesa e passa a ser predação econômica institucionalizada.
O mesmo padrão aparece nas revelações do WikiLeaks, conduzidas por Julian Assange, que tornaram públicos crimes de guerra, assassinatos extrajudiciais e manipulações diplomáticas cometidas ou acobertadas por Washington. Não se tratava de excessos pontuais, mas de procedimentos normalizados dentro da arquitetura do poder norte-americano.
Operações clandestinas (black ops), assassinatos e soberania como inconveniente
Ao longo de décadas, os Estados Unidos incorporaram as operações clandestinas (black ops) à sua política externa não como “medidas extraordinárias”, mas como instrumentos regulares de gestão do poder internacional, acionados sempre que o direito, a diplomacia ou a legalidade se mostram lentos demais para atender aos seus interesses estratégicos. Assassinatos seletivos, sequestros internacionais, sabotagens políticas e violações de soberania passaram a ser tratados como ferramentas aceitáveis, quase sempre embaladas por justificativas vagas e ameaças difusas.
Essa engrenagem foi documentada oficialmente ainda nos anos 1970, quando o Senado dos EUA instaurou o Church Committee. O relatório revelou que a CIA esteve envolvida em tentativas de assassinato de líderes estrangeiros, manipulação de processos políticos internos e desestabilizações deliberadas em países soberanos. Entre os alvos estavam Fidel Castro, Patrice Lumumba e Rafael Trujillo, em ações conduzidas sem respaldo do direito internacional e, por vezes, sem autorização do próprio Congresso.
Após 11 de setembro de 2001, esse padrão se expandiu. Os EUA ampliaram o uso de extraordinary renditions (sequestros internacionais), mantiveram black sites (prisões secretas da CIA) e institucionalizaram técnicas de tortura. Relatórios da Human Rights Watch, da Amnesty International e do Senado norte-americano confirmaram o uso de waterboarding (afogamento simulado), privação extrema de sono, confinamento prolongado e simulações de execução — tudo sem acusação formal ou julgamento.
Paralelamente, o uso de drones armados consolidou execuções extrajudiciais baseadas em signature strikes (ataques fundamentados em padrões de comportamento, não em identidade comprovada). A soberania nacional tornou-se variável descartável sempre que contrariava os objetivos estratégicos de Washington.
CIA, tráfico de drogas e financiamento ilegal
É no financiamento dessas operações que a retórica moral entra em colapso definitivo. Investigações do Congresso dos EUA, documentos oficiais e reportagens jornalísticas demonstram que, entre as décadas de 1970 e 1990, a CIA manteve relações diretas ou indiretas com redes de narcotráfico, especialmente na América Central, como forma de financiar operações clandestinas proibidas pelo próprio Congresso.
O Relatório Kerry (1989) concluiu que indivíduos ligados ao apoio aos Contras, na Nicarágua, estavam profundamente envolvidos no tráfico de cocaína e que autoridades norte-americanas tinham conhecimento dessas conexões e optaram por não agir. Nos anos 1990, o jornalista Gary Webb, na série Dark Alliance, demonstrou como essas redes abasteceram o mercado de crack em cidades como Los Angeles, devastando comunidades negras e pobres. Investigações internas posteriores da própria CIA reconheceram omissões graves.
Relatos culturais, inclusive, ajudam a iluminar e comprovar esse ambiente histórico moralmente às avessas. Narrativas como a de Ozzy Osbourne, em seu livro autobiográfico intitulado “Eu Sou Ozzy”, relatam que agentes da CIA vendiam e entregavam a cocaína que ele e seu grupo (a banda Black Sabath) consumiam durante as suas turnês americanas. Depoimentos como esse, somados à luz de documentos oficiais comprobatórios, ajudam a compreender um período onde o narcotráfico não apenas foi tolerado e instrumentalizado pelo poder estatal americano, mas também atuou como financiador dos interesses dele.
Ditadores úteis, democracias descartáveis
A política externa dos Estados Unidos sempre operou com um critério tão simples quanto brutal: regimes importam menos do que resultados. Ao longo do século XX e início do XXI, Washington demonstrou reiteradamente que sua retórica democrática é condicional, acionada ou silenciada conforme a utilidade estratégica do governo em questão. Quando eleições, liberdades civis e direitos humanos coincidem com interesses geopolíticos, são exaltados; quando atrapalham, tornam-se obstáculos a serem contornados.
Durante a Guerra Fria, o anticomunismo funcionou como justificativa-mestra para o apoio explícito ou tácito a regimes autoritários. Documentos hoje desclassificados pelo National Security Archive revelam que autoridades norte-americanas tinham plena consciência das violações de direitos humanos cometidas por seus aliados — e, ainda assim, optaram por sustentá-los política, financeira e militarmente.
Na América Latina, esse cálculo produziu uma sucessão de tragédias institucionais. O golpe de 1964 no Brasil, a ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai, o regime de Augusto Pinochet no Chile, a derrubada do governo democraticamente eleito de Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 e o apoio prolongado a Fulgencio Batista em Cuba ilustram uma lógica recorrente: democracias frágeis eram descartáveis; ditadores confiáveis, preferíveis.
O mesmo raciocínio se repetiu fora do continente. No Oriente Médio, os EUA apoiaram o Xá Reza Pahlavi no Irã; no Sudeste Asiático, sustentaram Ngo Dinh Diem no Vietnã do Sul; na África, foram coniventes com a derrubada e posterior assassinato de Patrice Lumumba no Congo. Mesmo após o fim da Guerra Fria, o método permaneceu: Saddam Hussein, Osama Bin Laden e outros atores autoritários foram apoiados enquanto úteis.
Memorandos assinados por Henry Kissinger nos anos 1970 reconhecem a brutalidade de regimes aliados e defendem sua manutenção em nome da “estabilidade regional” (entenda-se estabilidade dos interesses americanos e não do bem estar da população local). Arquivos do Departamento de Estado e da CIA, desclassificados entre os anos 1990 e 2000, descrevem execuções, torturas e desaparecimentos forçados como “custos colaterais aceitáveis”. O apoio a ditaduras não foi desvio episódico, mas método racionalizado de política externa.
Quando se observa esse percurso em conjunto — da espionagem de aliados à sustentação de ditaduras, das operações clandestinas ao financiamento ilegal de guerras — torna-se impossível sustentar a ideia de “falhas ocasionais”. O que emerge é uma lógica coerente e institucionalizada, na qual a fraude deixa de ser exceção e passa a ser estrutura.
Dick Vigarista nunca vence de verdade
Há algo de estruturalmente autodestrutivo em projetos de poder sustentados na fraude permanente. Eles avançam rápido, atropelam regras e intimidam adversários, mas acumulam um passivo moral e político que cobra seu preço. Como Dick Vigarista, os Estados Unidos preferem a trapaça sofisticada ao mérito.
No mundo real, porém, as consequências não são carros quebrados, mas países inteiros deixados pelo caminho. A corrida ainda não terminou, mas os destroços acumulados ao longo do percurso já são visíveis demais para serem ignorados.
Por Otaviano Lacet*
*Jornalista, Escritor, Editor e Músico sofrível, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior.




































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