A nova obra de drenagem anunciada pela Prefeitura do Natal para a engorda de Ponta Negra pode reduzir parte dos alagamentos observados na faixa de areia, mas não resolverá o problema estrutural que vem afetando a principal praia urbana da capital. A avaliação é do engenheiro civil e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), João Abner, que defende a adoção de um projeto definitivo para a drenagem da área e critica a continuidade de intervenções emergenciais em uma região que já consumiu centenas de milhões de reais em obras de recuperação costeira.
A declaração ocorre após a Prefeitura anunciar uma nova intervenção orçada em R$ 21 milhões para tentar reduzir os chamados “espelhos d’água” que passaram a se formar com frequência na faixa de areia desde a conclusão da engorda. A administração municipal aposta na construção de reservatórios subterrâneos e em obras de drenagem para armazenar e infiltrar a água da chuva, minimizando os alagamentos registrados após precipitações mais intensas. Para João Abner, porém, a iniciativa ataca os efeitos mais visíveis do problema sem enfrentar sua origem.
O problema começou antes dos alagamentos
A discussão sobre os espelhos d’água ganhou força após a conclusão da engorda, mas, segundo o engenheiro, a questão central está relacionada ao funcionamento da drenagem da praia. Ele argumenta que a erosão costeira e a posterior recomposição da faixa de areia alteraram as condições em que as galerias pluviais operam, criando uma incompatibilidade entre a infraestrutura existente e a nova configuração da praia.
Na avaliação de João Abner, a drenagem sempre representou um dos pontos mais frágeis do projeto. O sistema foi concebido para uma realidade costeira diferente da atual e não teria sido adequadamente adaptado após a execução da engorda. O resultado é uma sucessão de intervenções destinadas a conter consequências que continuam reaparecendo porque a causa principal permanece sem solução definitiva.
Especialista defende redesenho da drenagem
De acordo com o professor aposentado da UFRN, a solução passa por um projeto integrado capaz de compatibilizar drenagem urbana e dinâmica marítima. Ele defende o prolongamento de parte das galerias para além da área de arrebentação, associado a estruturas que permitam distribuir o fluxo da água e reduzir a concentração em pontos específicos da praia.
Segundo o engenheiro, a perda de parte da faixa de areia acabou expondo galerias que antes permaneciam protegidas, alterando a forma como a água escoa em direção ao mar. Apenas ampliar reservatórios ou criar mecanismos temporários de infiltração, afirma ele, não elimina a necessidade de uma solução estrutural que leve em consideração o comportamento da costa ao longo do tempo. Para o especialista, o debate permanece concentrado em medidas paliativas quando deveria estar voltado à construção de um consenso técnico capaz de produzir uma resposta permanente para a área.
Prefeitura aposta em reservatórios subterrâneos
A proposta apresentada pelo Município prevê a instalação de três reservatórios subterrâneos de detenção e infiltração ao longo da orla. Juntos, esses equipamentos terão capacidade para armazenar até 50 mil metros cúbicos de água. O objetivo é reduzir os alagamentos registrados após chuvas intensas e evitar que grandes volumes de água sejam lançados diretamente sobre a faixa de areia.
Segundo a Prefeitura, o sistema foi dimensionado para suportar precipitações de até 60 milímetros. Quando esse limite for ultrapassado, parte da água continuará sendo direcionada para a praia, formando áreas temporariamente alagadas que a administração municipal classifica como parte do funcionamento previsto da drenagem. É justamente esse ponto que gera divergência entre os técnicos envolvidos no debate.
Divergência alcança os estudos ambientais
A controvérsia não envolve apenas a eficácia da nova obra. Ela alcança também o próprio diagnóstico do problema. João Abner afirma que os estudos ambientais elaborados para o licenciamento da engorda não previam a formação dos espelhos d’água observados atualmente. Na avaliação do engenheiro, a existência dessas áreas alagadas demonstra que o comportamento do sistema não corresponde ao cenário originalmente projetado.
A Prefeitura sustenta posição diferente. Integrantes da gestão municipal argumentam que os espelhos d’água fazem parte da solução adotada para desacelerar o fluxo das águas pluviais e reduzir o risco de erosão provocado pelo lançamento direto da drenagem sobre a faixa costeira. A divergência revela que, mesmo após a conclusão da engorda, ainda não existe consenso técnico sobre a forma mais adequada de administrar a interação entre drenagem urbana e dinâmica marinha em Ponta Negra.
Debate expõe um problema maior
A discussão em torno da nova obra vai além dos alagamentos observados após as chuvas. Ela evidencia uma questão recorrente em grandes intervenções urbanas: a tendência de responder a problemas emergenciais sem necessariamente revisar os pressupostos estruturais que os produziram. Quando isso acontece, cada nova obra passa a corrigir efeitos de decisões anteriores, criando um ciclo permanente de adaptações e investimentos adicionais.
Em Ponta Negra, a preocupação ganha dimensão ainda maior porque a praia desempenha papel central na economia turística de Natal. Qualquer falha persistente na infraestrutura da orla afeta não apenas moradores e frequentadores, mas também atividades econômicas diretamente ligadas ao turismo, à hotelaria e ao comércio local. Por isso, o debate deixou de ser apenas uma discussão técnica sobre drenagem e passou a envolver a sustentabilidade de longo prazo de uma das áreas mais estratégicas da capital potiguar.
O desafio é construir uma solução permanente
A nova intervenção anunciada pela Prefeitura representa mais uma tentativa de reduzir os impactos visíveis do problema. O ponto levantado pelo engenheiro, porém, é outro. Segundo ele, a cidade precisa decidir se continuará respondendo aos sintomas à medida que eles aparecem ou se buscará uma solução capaz de enfrentar as causas estruturais da incompatibilidade entre a drenagem urbana e a nova configuração da praia.
Essa decisão terá consequências que ultrapassam os limites de Ponta Negra. Ela servirá como referência para futuras intervenções costeiras em um litoral cada vez mais pressionado pela urbanização, pelas mudanças ambientais e pela necessidade de proteger áreas que concentram atividade econômica e ocupação humana. O debate sobre a engorda, portanto, não trata apenas da praia que existe hoje, mas da capacidade de Natal planejar a convivência entre infraestrutura urbana e dinâmica costeira nas próximas décadas.




































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