O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros chega em um momento especialmente delicado para o Rio Grande do Norte. As exportações potiguares ao mercado norte-americano caíram 60,8% nos cinco primeiros meses de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. Agora, uma tarifa adicional de 25%, com entrada em vigor prevista para a próxima quarta-feira (22), ameaça aprofundar as perdas de empresas que ainda dependem daquele destino.
Para tentar conter os efeitos da medida, o governo federal anunciou que retomará o programa de socorro aos setores atingidos. As ações deverão incluir linhas de crédito para capital de giro e investimentos, apoio à busca de novos compradores e um plano de R$ 130 milhões da ApexBrasil destinado à diversificação das exportações brasileiras.
O socorro poderá alcançar empresas do Rio Grande do Norte, mas ainda não significa dinheiro automaticamente liberado. Os critérios de acesso, os valores destinados a cada setor e as condições dos financiamentos ainda precisarão ser detalhados pelo governo.
RN já perdeu mais da metade das vendas aos EUA
Entre janeiro e maio de 2026, o Rio Grande do Norte exportou US$ 24,7 milhões para os Estados Unidos, valor equivalente a 5,1% de todas as vendas externas do estado no período. O resultado representa uma retração de 60,8% em relação aos mesmos cinco meses de 2025, segundo dados da plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A queda mostra que o efeito da crise comercial não é apenas uma ameaça futura para o estado. Ele já aparece nos embarques, nas receitas das empresas e na capacidade de sustentação de cadeias produtivas que empregam trabalhadores em Natal e em municípios do litoral e do interior potiguar. O setor pesqueiro está entre os mais expostos, especialmente pela dependência histórica do mercado norte-americano para a venda de pescado de maior valor comercial.
Em 2025, os Estados Unidos estavam entre os principais destinos das mercadorias produzidas no RN. A pauta potiguar incluía petróleo, pescados, frutas, sal, pedras ornamentais, produtos de confeitaria e derivados da agroindústria. Parte desses itens foi alcançada pelas tarifas anteriores, enquanto alguns produtos receberam tratamento diferenciado ou foram incluídos em listas de exceção.
O impacto, portanto, não será uniforme. Empresas que vendem produtos isentos continuam acessando o mercado norte-americano em condições menos desfavoráveis. Já aquelas cujas mercadorias foram incluídas na nova taxação podem perder competitividade imediatamente, porque o importador dos Estados Unidos terá de pagar mais pelo produto brasileiro ou pressionará o exportador potiguar a reduzir seu preço.
Pesca e municípios costeiros permanecem vulneráveis
A experiência do tarifaço iniciado em 2025 mostrou que o problema ultrapassa os limites das empresas exportadoras. Natal, Baía Formosa, Porto do Mangue e Touros estão entre os municípios com cadeias econômicas ligadas ao pescado vendido para os Estados Unidos. Quando os embarques diminuem, o efeito alcança beneficiadoras, fornecedores, pescadores, transportadoras e trabalhadores dos serviços associados.
Em Natal, o pescado representava a maior parte das exportações municipais diretamente expostas às tarifas norte-americanas. Guamaré também possui peso relevante nas vendas aos Estados Unidos, mas os combustíveis e derivados de petróleo estiveram entre os produtos poupados nas rodadas anteriores de taxação.
O novo anúncio norte-americano atinge nacionalmente setores como açúcar, móveis, madeira, máquinas e equipamentos elétricos, produtos cerâmicos e calçados. No RN, a indústria açucareira merece atenção, assim como empresas de menor porte que forneçam mercadorias enquadradas nos códigos tarifários atingidos.
A dimensão exata da nova perda dependerá da lista detalhada de produtos, do comportamento dos importadores e da capacidade das empresas potiguares de redirecionar suas mercadorias. Uma tarifa não interrompe juridicamente a exportação, mas pode torná-la economicamente inviável.
Como as empresas potiguares serão auxiliadas
O primeiro eixo do socorro será a abertura de linhas de crédito para capital de giro e investimentos. O capital de giro pode ajudar empresas afetadas a manter salários, fornecedores e operações enquanto procuram novos compradores. Já o financiamento de investimentos poderá ser utilizado para adaptar produtos, ampliar a capacidade de armazenamento ou atender às exigências sanitárias e comerciais de outros países.
O segundo eixo será o apoio ao escoamento das mercadorias para novos clientes e destinos. Essa frente é particularmente importante para o Rio Grande do Norte, onde produtos perecíveis, como pescado e frutas, não podem permanecer armazenados indefinidamente à espera de uma solução diplomática.
O governo ainda não informou quanto será disponibilizado, quais serão os juros, quando o crédito começará a ser contratado ou quais instituições financeiras operarão as linhas. Dessa forma, há uma promessa de assistência, mas ainda não existe base para afirmar quanto caberá ao RN ou quais empresas potiguares serão efetivamente atendidas.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, aproximadamente 2,4 mil empresas brasileiras serão diretamente afetadas pela nova tarifa. Juntas, elas representam cerca de 18% das exportações nacionais aos Estados Unidos, em operações estimadas em US$ 7,4 bilhões.
Apex destinará R$ 130 milhões à diversificação
A ApexBrasil anunciou um programa de R$ 130 milhões, com lançamento previsto para agosto, voltado à abertura e consolidação de novos mercados. O objetivo é reduzir a dependência dos Estados Unidos e auxiliar empresas brasileiras a encontrar compradores em outras regiões.
As prioridades apresentadas pela agência incluem a União Europeia, os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático, como Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã, e mercados da Ásia Central, entre eles Cazaquistão e Uzbequistão.
Para o Rio Grande do Norte, a estratégia pode beneficiar especialmente a fruticultura, a pesca, o setor de alimentos e a indústria de pedras ornamentais. O estado já possui experiência exportadora para a Europa, sobretudo no segmento de frutas, o que pode facilitar a ampliação de embarques. Pescados, sal, açúcar e produtos industrializados, entretanto, podem exigir certificações, adequações sanitárias e prospecção comercial mais demorada.
Os R$ 130 milhões não constituem um repasse direto aos estados ou às empresas. O dinheiro será aplicado em ações de promoção comercial, participação em feiras, missões empresariais, inteligência de mercado e aproximação com compradores internacionais. A vantagem para o RN dependerá da inclusão efetiva de suas cadeias produtivas e da capacidade das empresas locais de aderir ao programa.
Reciprocidade pode aumentar pressão sobre os EUA
Além do socorro financeiro, o governo brasileiro estuda aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica. A legislação permite suspender concessões comerciais, aumentar tributos, retirar isenções e restringir importações de bens ou serviços de países que adotem medidas prejudiciais ao Brasil.
As contramedidas devem ser proporcionais ao dano econômico causado e não são automáticas. A lei também determina que o governo tente solucionar o conflito pela via diplomática antes de recorrer à retaliação.
Para o Rio Grande do Norte, a aplicação da reciprocidade teria um efeito essencialmente indireto. A medida poderia pressionar os Estados Unidos a negociar ou retirar tarifas, beneficiando os exportadores potiguares. Por outro lado, a taxação de produtos norte-americanos importados pelo Brasil pode elevar custos de máquinas, equipamentos ou insumos utilizados por empresas instaladas no estado.
A reciprocidade, portanto, é um instrumento de negociação, não uma política de socorro. Seu eventual êxito dependerá da escolha dos produtos atingidos e da capacidade do governo brasileiro de pressionar Washington sem produzir prejuízos adicionais às empresas e aos consumidores nacionais.
Socorro precisa chegar antes do fechamento de empresas
O governo afirma que o novo programa terá valores inferiores aos mobilizados na primeira fase do tarifaço, porque uma parcela maior dos produtos brasileiros foi poupada. Essa avaliação nacional, porém, não elimina o risco enfrentado por economias regionais mais dependentes de determinados setores.
No Rio Grande do Norte, uma empresa exportadora não é apenas um número na balança comercial. Ao redor dela existem pescadores, produtores rurais, trabalhadores industriais, transportadores, fornecedores e municípios dependentes da renda gerada por essas atividades. Quando o mercado externo desaparece, a perda se espalha pela economia local muito antes de aparecer integralmente nas estatísticas.
Diversificar mercados é uma resposta necessária, mas não acontece da noite para o dia. Crédito também ajuda, desde que tenha juros viáveis, liberação rápida e alcance empresas menores. O desafio do governo será impedir que o socorro chegue depois que contratos, empregos e estruturas produtivas já tiverem sido perdidos.
Dados sobre a pauta exportadora e a retração das vendas potiguares foram consolidados a partir do Comex Stat e do Observatório da Indústria Mais RN, da Fiern. A Fiern informa que o RN exportou US$ 1,086 bilhão em 2025, enquanto o levantamento mais recente registra queda de 60,8% nas vendas potiguares aos Estados Unidos em 2026




































































