Mulheres negras do Norte e Nordeste lideram índices de insegurança alimentar no país
Mulheres negras que vivem nas regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de insegurança alimentar grave do Brasil, segundo dados apresentados pelo estudo As faces da desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil (2017-2023). A pesquisa foi produzida por Veruska Prado e Rute Costa e divulgada pela organização Fian Brasil.
O levantamento aponta que quase metade dos lares chefiados por mulheres negras nessas regiões conviveu com algum grau de insegurança alimentar. No Norte, o percentual chegou a 46,3%. No Nordeste, atingiu 45,7%.
Os números revelam que a fome no Brasil continua funcionando de maneira profundamente desigual. Ela não se distribui aleatoriamente pela população. Existe um perfil social mais exposto à ausência de alimentação adequada — e esse perfil permanece atravessado simultaneamente por raça, gênero, renda e território.
A fome acompanha desigualdades históricas do mercado de trabalho
Segundo as autoras da pesquisa, a inserção no mercado de trabalho formal influencia diretamente a capacidade alimentar das famílias brasileiras. O problema é que mulheres negras seguem ocupando posições mais precárias dentro da estrutura econômica nacional, especialmente nas regiões historicamente mais pobres do país.
O estudo afirma inclusive que a frequência da fome entre lares chefiados por mulheres negras com emprego formal é equivalente à observada em domicílios chefiados por homens brancos inseridos no trabalho informal.
O dado expõe uma engrenagem estrutural persistente: o acesso ao emprego, sozinho, não elimina automaticamente desigualdades alimentares quando o próprio mercado distribui renda, estabilidade e oportunidades de maneira racialmente desigual.
O território amplia ainda mais a desigualdade alimentar
Além do fator racial, a pesquisa mostra que localização geográfica continua determinando acesso desigual à alimentação no Brasil. Enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam índices mais elevados de segurança alimentar, Norte e Nordeste concentram os piores indicadores nacionais, especialmente entre famílias negras.
A situação é ainda mais severa nas áreas rurais. O estudo aponta que a insegurança alimentar grave permanece mais frequente no campo do que nas áreas urbanas, reforçando a vulnerabilidade histórica de populações rurais pobres.
Isso significa que a fome brasileira não pode ser explicada apenas por ausência geral de alimentos. Ela está ligada diretamente à distribuição desigual de renda, infraestrutura, acesso a serviços públicos e oportunidades econômicas entre regiões diferentes do país.
A chefia feminina dos lares altera dinâmica da vulnerabilidade
A pesquisa também reforça como a feminização da responsabilidade doméstica impacta diretamente a alimentação familiar. Em milhões de casas brasileiras, mulheres negras sustentam financeiramente os domicílios enquanto acumulam tarefas de cuidado, trabalho informal e manutenção da rotina familiar.
Essa sobrecarga produz uma vulnerabilidade específica. Quando renda diminui ou o custo de vida aumenta, são justamente esses lares que primeiro sofrem redução da qualidade alimentar e maior exposição à fome.
O estudo mostra que raça e gênero não funcionam como fatores separados. Eles se acumulam dentro da estrutura econômica brasileira, criando grupos socialmente mais vulneráveis à insegurança alimentar permanente.
A queda recente da fome não eliminou desigualdades estruturais
As pesquisadoras reconhecem que houve melhora nos indicadores nacionais recentes após a retomada de políticas públicas de combate à pobreza e fortalecimento da assistência social. Segundo o estudo, a insegurança alimentar grave caiu de 15,5% em 2022 para 4,1% em 2023.
A publicação relaciona essa redução à retomada do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e ao fortalecimento do Bolsa Família.
Mesmo assim, os dados indicam que a melhora geral não eliminou o funcionamento desigual do sistema alimentar brasileiro. A fome diminuiu em termos nacionais, mas continua atingindo de forma desproporcional exatamente os grupos historicamente mais vulneráveis.
A fome brasileira continua tendo cor, gênero e endereço
O estudo desmonta a ideia de que insegurança alimentar é apenas resultado abstrato da pobreza generalizada. Os números mostram que existe uma distribuição social muito específica da vulnerabilidade alimentar no Brasil contemporâneo.
Mulheres negras das regiões Norte e Nordeste aparecem justamente no cruzamento de múltiplas desigualdades históricas: menor renda média, inserção precária no trabalho, concentração em áreas pobres, sobrecarga doméstica e baixa proteção econômica estrutural.
A pesquisa revela que a fome brasileira continua operando como reflexo direto da organização desigual da sociedade. E enquanto raça, gênero e território seguirem determinando acesso à renda, emprego e proteção social, a redução estatística da fome dificilmente significará igualdade real no acesso à alimentação.

































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