Cada relação inaugura um idioma.
Uma vez, meu pai suspirou depois de um dia longo e disse: “é, Vic, não é bolinho”. E eu, que não conhecia a expressão, estourei de rir, perguntando se era dele. Ele disse que sim. Depois descobri que não, outras pessoas usavam. Foi tão animador que eu tivesse me divertido tanto com as palavras que ele assumiu a autoria, assim como já vi amantes enviando poemas sem revelar o escritor.
Desde que meu pai faleceu, nunca mais alguém me chamou de “baixinha”. Compreensível para uma mulher de 1,75m, estranho para quem se acostumou com este dialeto. “Baixinha” é um vocativo extinto no repertório dos meus ouvidos, assim como tantas frases suas que eu poderia repetir de cor e antecipar diante de situações.
Se houvesse um bolo na mesa, meu pai certamente diria: “Isso aqui mais tarde com um leitinho gelado, hein, Vic?”. Eram essas exatas palavras e eu, muitas vezes, me juntei ao coro de sua voz por saber a frase e até a cadência do surgimento. Nunca mais.
Geni Nunéz afirma que “um dos fatores que tornam uma relação única é sua gramática” e que “cada laço tem uma linguagem única”. Sou fluente em alguns idiomas, derrapo em outros e, para alguns vínculos, faço o esforço consciente de tradução. A linguagem é o acesso para o que existe de mais íntimo em nós e, por isso, não acho banal fazer o trabalho de buscar o mapa para entregar ao outro.
Pode ser algo bobo como uma palavra criada, uma referência comum, uma piada interna ou algo mais elaborado como uma conversa longa sobre medos e sonhos. Todo momento de partilha é de revelação, intencional ou não, séria ou trivial.
Se andar na rua comportasse o encontro indesejado de um cocô de cachorro, meu pai naturalmente falaria: “ó o caganito”, apontando para eu desviar. Hoje, o idioma do meu pai é uma língua morta: seu falante nativo não se encontra transformando e dando voz a esse vocabulário, mas ele segue na memória e na influência. Como o latim é para o português, meu pai é para mim.
“Memento mori, memento vivere”, na parte de trás do meu braço direito. “Coragem” e “amor” em cada uma das minhas panturrilhas. “De todo amor que eu tenho, metade foi tu que me deu”, tocando baixinho no meu coração.
Imagem: Reprodução
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.





































































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