A mentira que caiu rápido demais
A prisão de Nicolás Maduro em Caracas foi apresentada ao mundo como o desfecho lógico de uma cruzada moral liderada pelos Estados Unidos contra o narcotráfico internacional. Durante meses, a Casa Branca sustentou que o então presidente venezuelano era o chefe de uma organização narcoterrorista chamada Cartel de Los Soles, supostamente responsável por inundar o continente com cocaína. Essa versão foi repetida por autoridades americanas, incorporada ao discurso militar e usada como justificativa central para a escalada de tensões e para uma operação armada sem precedentes recentes na América Latina.
Poucos dias depois da captura de Maduro, no entanto, essa narrativa começou a ruir. Segundo análise publicada pelo New York Times e repercutida pelo G1, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos reescreveu formalmente a acusação contra o ex-presidente venezuelano, abandonando a tese de que ele liderava o cartel. O texto passou a usar uma linguagem muito mais vaga, descrevendo Maduro como alguém que “participou, protegeu e perpetuou uma cultura de corrupção”, sem sustentar a existência de uma organização centralizada de narcotráfico sob seu comando.
A mudança não é semântica. Ela desmonta o eixo central da justificativa política e militar que sustentou a ação americana.
Cartel de Los Soles: quando o pretexto não resiste aos fatos
A existência do chamado Cartel de Los Soles sempre foi controversa entre especialistas em crime organizado. Jeremy McDermott, cofundador do InSight Crime — instituição de referência internacional cujas análises são frequentemente citadas por veículos como The New York Times, The Guardian e Washington Post — afirma há anos que o cartel não possui hierarquia clara, ou comando único, nem estrutura comparável aos grandes cartéis latino-americanos.
Segundo McDermott, trata-se de uma “rede difusa de redes”, baseada em corrupção, clientelismo e concessões políticas dentro do Estado venezuelano, algo grave, mas muito distante da imagem de uma organização narcoterrorista comandada pessoalmente por Maduro. Essa avaliação, sustentada por investigações independentes, sempre contrastou com a retórica maximalista adotada por Washington.
O próprio Departamento de Justiça americano, ao reformular a acusação, acabou reconhecendo implicitamente essa fragilidade. O Cartel de Los Soles, antes tratado como organização terrorista internacional, passou a ser citado apenas como um termo guarda-chuva, quase uma metáfora institucional para práticas corruptas — o que torna ainda mais evidente o uso político da acusação original.
Maduro: corrupto, mas essencial à encenação
Nada disso transforma Nicolás Maduro em vítima. Ele foi, de fato, um governante corrupto, autoritário e sustentado por um sistema de clientelismo que ajudou a arruinar a Venezuela. Fraudes eleitorais, repressão política e enriquecimento de aliados próximos marcaram sua trajetória. Isso está documentado por relatórios internacionais e por anos de cobertura jornalística consistente.
Mas focar exclusivamente em sua figura é cair na armadilha da narrativa americana. Análises recentes publicadas na The Conversation, assinadas por especialistas ligados a universidades como Harvard, Oxford e London School of Economics, mostram que o bolivarianismo nunca passou de retórica redistributiva, enquanto elites chavistas desfrutavam de privilégios e a população enfrentava escassez crônica de alimentos, medicamentos e serviços básicos.
Especialistas da Fundação Friedrich Ebert lembram que a nacionalização do setor petrolífero, promovida por Hugo Chávez e mantida por Maduro, tinha potencial de gerar soberania econômica. Esse potencial, porém, foi esmagado por uma combinação de corrupção interna e embargos externos desenhados para impedir qualquer sucesso estrutural, garantindo que a crise fosse permanente e funcional ao discurso de intervenção.
Venezuela, Iraque e Groenlândia: mesmo roteiro, cenários diferentes
Quando se observa com algum distanciamento histórico, a operação americana na Venezuela deixa de parecer um evento isolado e passa a integrar um padrão recorrente da política externa dos Estados Unidos. No Iraque, em 2003, o pretexto foram armas de destruição em massa que nunca existiram. Na Venezuela, a narrativa foi a de um presidente que chefiaria um cartel internacional de drogas — acusação que o próprio governo Trump agora reescreve, suaviza e praticamente abandona depois de consumada a intervenção. Na Groenlândia, o discurso assume outra forma, mas segue a mesma lógica: uma ameaça externa difusa, invocada em nome da segurança nacional americana.
No caso groenlandês, Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos “precisam” do território por razões estratégicas. A reação foi imediata e contundente. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, declarou que “qualquer ataque americano a um aliado seria o fim da Otan”, lembrando que Washington não tem direito algum sobre o território autônomo. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, foi ainda mais direto ao afirmar que o país não é mercadoria geopolítica e que sua população não aceitará ser tratada como objeto de barganha entre potências.
O pano de fundo, contudo, é sempre o mesmo. No Iraque, tratava-se de petróleo. Na Venezuela, das maiores reservas petrolíferas do planeta. Na Groenlândia, de minerais críticos para a economia do século XXI — terras raras, lítio, grafite — além de rotas marítimas estratégicas abertas pelo degelo do Ártico e de uma posição militar privilegiada no hemisfério norte. Em todos esses casos, o modelo clichê se repete: a narrativa moral ou de segurança vem antes; o interesse econômico aparece depois; e, quando já não há como desfazer o fato consumado, os EUA deixam claro que inventaram tudo.
Esse padrão ajuda a entender por que, depois que a mentira cumpre sua função, ela se torna descartável. As armas de destruição em massa desaparecem dos discursos oficiais. O cartel de drogas perde centralidade na acusação judicial. A ameaça à segurança no Ártico é contestada cabalmente por aliados históricos. Mas o resultado permanece: países desestabilizados, soberanias fragilizadas e recursos estratégicos sob disputa ou controle externo. O enredo muda, os protagonistas variam, mas o roteiro segue intacto.
Por Otaviano Lacet*




































































