Minhas primeiras memórias de Carnaval são nas ruas de Pirangi brincando de spray com meus sobrinhos, jogando confete que grudava naquela espuma como amantes inseparáveis.
No Carnaval, o ar tem cheiro de cerveja, é quente e barulhento. As partículas suspensas carregam tudo, não tem atmosfera desimpedida. A rua ganha outra dimensão e fica adensada como se a cidade passasse para outro estado da matéria.
Carnaval é gente, muita gente, euforia compulsória: agora você dança, agora você é feliz. Não é positividade tóxica, é lei, efeito manada, obrigação moral. No momento da comunhão sacra, levanta-se até o padre e se recebe a hóstia. No momento da comunhão profana, celebra-se.
Se tiver que chorar, chore embriagado, chore em público, chore gritando uma música que fale da sua dor. Cale a sua dor na boca de outra pessoa e sinta o amargo da língua dela na sua, o suor tirando toda a magia que poderia conter um beijo.
Passe mal, vomite no canto da avenida, na grama de uma casa alugada por cinco dias a seis mil reais. Peça desculpas ao cara no portão e àquela sua amiga com quem você não fala desde o fim da faculdade. Ria por ela estar bêbada e a ligação, horrível, mas vocês ainda saberem que aquilo é o recomeço de algo.
Abra alas para o Carnaval, deixe uma marchinha tocar dentro de você, seja um boneco de Olinda, desengonçado e glorioso. Idolatre o que só é possível em multidão.
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De todos os Carnavais que vivi, o mais emblemático foi nas ruas de Salvador. Farol da Barra, quatro da tarde, a concentração do Cortejo Afro e eu com aquelas vestes coloridas, padronizadas, simbólicas pra caramba, vendo várias outras pessoas vestidas igual. A emoção de participar de um bloco tradicional é inexplicável. Você olha para quem está na pipoca e nos camarotes e se sente em um desfile majestoso, histórico e vivo pela repetição.
Também tive meus momentos em camarote, que pouco tinham a ver com as experiências mais sofisticadas e que me renderam um copo personalizado, amarelo e laranja, escrito: sou da Bahia. Nunca mais deixei de ser. Se eu já era apaixonada por Salvador, ali foi o casamento.
Nada se compara ao Carnaval de Salvador, porque cada fragmento é explosivo aos sentidos. Os artistas estão muito próximos e visivelmente inebriados pela massa de gente que os segue em uma marcha que em qualquer outro contexto seria insuportável.
Tive meu Carnaval no circuito Barra-Ondina, meu Carnaval no Campo Grande e o que eu posso dizer é que, apesar de todas as tragédias, anualmente, tem muita, muita, muita gente teimando em ser feliz.
Imagem: Beatriz Cancion
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.








































































