O Rio Grande do Norte registrou nos primeiros cinco meses de 2026 mais que o dobro dos surtos de ciguatera contabilizados durante todo o ano passado, em um avanço que começa a transformar uma intoxicação alimentar rara em preocupação sanitária crescente no litoral potiguar.
Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), o estado contabilizou ao menos 27 surtos suspeitos de ciguatera até maio deste ano, número 107% superior ao registrado em todo o ano de 2025.
Até agora, 20 casos já tiveram confirmação laboratorial no RN.
O avanço da doença ganhou ainda maior repercussão após a morte de uma idosa de 84 anos que passou quase um mês internada em Natal após consumir peixe contaminado durante um almoço familiar.
Morte suspeita expôs dimensão do problema
Maria das Dores do Nascimento Batista, conhecida como Dona Dorinha, morreu na segunda-feira (25) após semanas internada em hospitais particulares de Natal.
Segundo familiares, ela começou a apresentar:
- Dores abdominais;
- Vômitos;
- Agravamento neurológico;
horas após consumir peixe do tipo bicuda durante almoço realizado em 26 de abril.
A prima da vítima também passou mal após a refeição, mas recebeu alta dias depois.
O caso ainda aguarda confirmação laboratorial definitiva.
A Sesap recolheu amostras do pescado consumido para análise toxicológica, procedimento que pode levar até 60 dias para conclusão.
Mas a morte transformou um problema antes tratado como episódio pontual em símbolo de uma ameaça sanitária que começa a se espalhar pelo litoral potiguar.
Ciguatera desafia métodos tradicionais de controle alimentar
A ciguatera é causada por toxinas produzidas por microalgas presentes em recifes de coral tropicais e subtropicais.
Peixes pequenos consomem essas algas contaminadas.
Depois, peixes maiores e carnívoros acumulam concentração crescente da toxina ao longo da cadeia alimentar.
Entre as espécies associadas aos surtos registrados no RN aparecem:
- Bicuda;
- Cioba;
- Guarajuba;
- Arabaiana;
- Dourado.
O problema central é que as ciguatoxinas:
- São incolores;
- Não possuem cheiro;
- Não alteram aparência do peixe;
- Não são eliminadas pelo cozimento;
- Resistêm a congelamento e defumação.
Isso faz a intoxicação escapar dos mecanismos tradicionais de controle alimentar usados pela população.
Litoral norte concentra maior parte dos surtos
Segundo a coordenadora de Vigilância em Saúde da Sesap, Diana Rêgo, o litoral norte potiguar concentra atualmente a maior parte dos surtos registrados no estado.
As áreas mais afetadas incluem:
- Touros;
- Tibau;
- Regiões costeiras próximas ao litoral norte.
A expansão territorial dos casos sugere que a contaminação deixou de envolver apenas episódios isolados e passou a atingir diferentes cadeias de comercialização de pescado.
O desafio aumenta porque grande parte do peixe comercializado no estado circula através de:
- Feiras livres;
- Comércio informal;
- Cadeias pouco rastreáveis;
- Distribuição sem monitoramento laboratorial permanente.
No caso de Dona Dorinha, o peixe havia sido comprado na feira livre do bairro das Quintas, em Natal.
RN enfrenta dificuldade estrutural de rastreamento
O avanço da ciguatera revela uma fragilidade estrutural do controle sanitário pesqueiro brasileiro.
Hoje, o estado não possui sistema amplo e contínuo de rastreabilidade do pescado comercializado informalmente.
Isso dificulta:
- Identificar origem do peixe contaminado;
- Mapear áreas de risco;
- Bloquear circulação de lotes suspeitos;
- Produzir resposta rápida da vigilância sanitária.
Na prática, quando os sintomas aparecem, o alimento frequentemente já foi:
- Consumido;
- Distribuído;
- Revendido;
- Descartado.
Isso transforma a investigação sanitária em processo lento e altamente fragmentado.
Mudanças climáticas podem ampliar risco de contaminação
O avanço dos casos também levanta preocupação internacional relacionada ao aquecimento das águas oceânicas.
Pesquisas globais vêm apontando que mudanças climáticas favorecem expansão de microalgas associadas à produção de ciguatoxinas em regiões tropicais.
O aumento da temperatura do mar altera:
- Ecossistemas de coral;
- Proliferação de algas;
- Cadeias alimentares marinhas;
- Distribuição de espécies contaminadas.
Embora o RN ainda não possua estudos locais conclusivos sobre essa relação, especialistas já observam crescimento da doença em diferentes áreas costeiras tropicais do planeta.
Doença expõe vulnerabilidade do consumo informal de pescado
A explosão de surtos também revela uma contradição importante do mercado pesqueiro regional.
O pescado é parte histórica da alimentação e da economia litorânea nordestina.
Mas grande parcela da comercialização ainda opera fora de estruturas sofisticadas de monitoramento sanitário.
Isso significa que consumidores frequentemente dependem:
- Da confiança no vendedor;
- Da aparência do peixe;
- Da tradição local;
- Da origem informal do produto.
O problema é que a ciguatera justamente escapa desses critérios visuais tradicionais de segurança alimentar.
Sintomas podem durar meses
Segundo a Sesap, os sintomas da ciguatera podem surgir entre 30 minutos e 24 horas após ingestão do pescado contaminado.
Entre os principais sinais estão:
- Dor abdominal;
- Náuseas;
- Vômitos;
- Diarreia;
- Coceira intensa;
- Fraqueza muscular;
- Visão turva;
- Alterações neurológicas;
- Gosto metálico na boca.
Os sintomas podem persistir por semanas ou meses.
Não existe antídoto específico para a doença.
O tratamento atual busca apenas reduzir os sintomas apresentados pelo paciente.
RN entra em nova etapa de vigilância sanitária costeira
O crescimento da ciguatera mostra que o Rio Grande do Norte começa a enfrentar desafios sanitários associados não apenas à saúde humana, mas também à transformação dos ecossistemas marinhos e à fragilidade do controle alimentar costeiro.
O problema deixa de ser apenas médico.
Ele passa a envolver simultaneamente:
- Vigilância sanitária;
- Cadeia pesqueira;
- Comércio informal;
- Mudanças ambientais;
- Rastreamento alimentar;
- Segurança do consumo marítimo.
E justamente porque toxinas invisíveis conseguem circular silenciosamente por cadeias inteiras de distribuição sem alterar aparência, cheiro ou sabor do pescado, a explosão dos surtos de ciguatera revela que o litoral potiguar pode estar entrando em uma nova fase de risco sanitário ligada diretamente à relação entre clima, pesca e capacidade institucional de controle alimentar.




































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