Único bioma que se encontra exclusivamente no território brasileiro, a Caatinga mantém uma relação paradoxal com o regime irregular de chuvas. A escassez da água maltrata, mas não significa ausência de vida, pelo contrário, é na dificuldade que surge uma riqueza de biodiversidade adaptada à seca.
Nesse cenário, um estudo desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DOL/UFRN) avaliou, experimentalmente, a eclosão de organismos do zooplâncton a partir de formas dormentes presentes no sedimento de ecossistemas aquáticos subterrâneos da Caatinga. A pesquisa denominada Hatching triggers and diversity patterns of zooplankton dormant stages in groundwater ecosystems of the Caatinga drylands está publicada no periódico científico Hydrobiologia.
O zooplâncton é constituído por animais microscópicos que habitam a coluna de água e desempenham importante papel na base para cadeia alimentar aquática. Quando expostos a condições ambientais desfavoráveis ou até mesmo letais, como por exemplo, uma seca extrema, esses organismos produzem estágios dormentes — ovos de resistência ou forma de “hibernação”, conhecida como quiescência — que ficam guardados no sedimento dos ambientes aquáticos por longos períodos. Os estágios dormentes funcionam como uma memória biológica de longo prazo, permitindo o restabelecimento do zooplâncton no ambiente quando as condições ambientais estiveram mais favoráveis ao seu desenvolvimento.
Um mergulho na Caatinga
Para realizar o experimento, a equipe coletou amostras de sedimento e zooplâncton em dez ecossistemas de águas subterrâneas do estado do Rio Grande do Norte, incluindo lagos freáticos e epicársticos, rios freáticos e nascentes dentro de cavernas. O RN ocupa a quarta posição no país em termos de número de cavernas, com um total de 1424 cavernas catalogadas.
Em laboratório, os pesquisadores simularam condições que poderiam influenciar na ativação para eclosão dos estágios dormentes do zooplâncton. Nesse processo, foram utilizados diferentes gatilhos ambientais. O material coletado foi exposto a tratamentos que combinavam luz (afótico: 24h no escuro e fótico: 12h de luz e 12h de escuro) com condição do sedimento — coletados em locais molhados versus aqueles que já estavam secos no ambiente.

Ao longo de quase 200 dias, os pesquisadores acompanharam o experimento e registraram 7.726 eclosões de organismos zooplanctônicos, de 25 táxons diferentes. Os rotíferos foram os primeiros organismos do zooplâncton a eclodirem, em apenas 4 dias após o início do experimento. O segundo grupo do zooplâncton com maior número de eclosões foram as tecamebas.

Os resultados mostraram que a exposição à luz foi o principal gatilho para a quebra da dormência, promovendo maior abundância e riqueza de táxons de zooplâncton, em comparação com ambientes totalmente escuros. Embora se esperasse que a diversidade fosse maior no zooplâncton que eclodiu a partir do sedimento, a comunidade ativa — zooplâncton presente na água no momento da coleta — apresentou maior exclusividade e riqueza de táxons. Este estudo registrou ainda a eclosão de 11 táxons que não tinham sido registrados em análises realizadas nos últimos 5 anos com a comunidade ativa na mesma área de trabalho, demonstrando que esses táxons estavam guardados no sedimento e constituem uma memória biológica de longo prazo.
Vida em ambientes subterrâneos
De acordo com a coordenadora da equipe, professora Juliana Deo Dias, a pesquisa indica que os ambientes subterrâneos da Caatinga podem ser importantes reservatórios de biodiversidade de zooplâncton, embora muitos organismos não eclodam nas condições de completa escuridão. “O estudo revelou que o sedimento de águas subterrâneas do estado do Rio Grande do Norte guarda espécies de zooplâncton que não estavam presentes na água, funcionando como um reservatório de longo prazo da biodiversidade, contribuindo para a resiliência dos ecossistemas frente a secas severas e ao impacto de mudanças climáticas”.
O estudo intitulado Hatching triggers and diversity patterns of zooplankton dormant stages in groundwater ecosystems of the Caatinga drylands é resultado de uma colaboração entre a UFRN e pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A pesquisa integra o projeto Singularidade ecológica e biodiversidade zooplanctônica em ambientes subterrâneos do semiárido e contou com recursos de compensação espeleológica (TCCE 01/2022) vinculados ao Termo de Compromisso firmado entre a Vale S.A. e o ICMBio, com coordenação executiva do Cecav e gestão operacional do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS).
Fonte: Agecom/UFRN




































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