— Ela está passando mal, está passando mal! — uma mulher de calça bem cortada, terninho cropped, brincos de argola e salto quinze repete, chacoalhando as mãos.
A operadora de caixa arfa e sua, a barriga tocando a mesa a uma distância de cem metros do rosto: o bebê pode nascer a qualquer momento.
— Chamem o socorro, ela está passando mal! — insiste a cliente diante da indiferença das vendedoras.
— O supervisor não está aqui, então…
A mão da freguesa, anéis em todos os dedos, alcança a orelha da grávida, pinça o lóbulo como se aferisse algo e sentencia:
— Eu sou doutora. É URGENTE. Peçam uma ambulância!
A agitação se instala. Rostos apáticos ganham tons de sobressalto, olhos se arregalam, membros tremem, celulares são sacados em desespero.
A paciente é acomodada em um dos bancos acolchoados da loja, abanada com um catálogo, descalçada pelas colegas e servida em copo descartável. Diante do burburinho, transeuntes param e tomam pé da situação.
A ambulância demora.
— Doutora, a pressão dela está baixa?
— Está.
— E alta?
— Também.
Anotam.
Alguém surge com uma criança chorando.
— Já que a senhora está aqui, olha essa tosse.
— Alergia — afirma.
— Não pode ser gripe?
— Também.
A mãe sai agradecida direto para a farmácia.
Depois uma senhora mostra um joelho.
A doutora encosta o ouvido na perna da enferma.
— Artrite — conclui.
— O raio-x dizia condromalácia.
— Também.
E a paciente parte com recomendações de banho de mar.
Fichas são distribuídas. Etiquetas de produtos são pintadas de azul a vermelho classificando o risco. Um senhor reclama da demora. Uma interessada pergunta onde fica a recepção e se aceitam o plano de saúde dela. Os atendimentos seguem.
Quando os paramédicos finalmente chegam, todos suspiram aliviados.
— Ela está ali, está ali! — aponta o grupo.
A parturiente se ilumina.
— Não sei o que seria de mim sem a doutora.
Um dos socorristas se aproxima.
— Então a senhora é médica?
— Não.
As expressões ao redor congelam.
— Doutora é quem fez doutorado.
— Ah.
Uma pausa.
— E a senhora fez doutorado?
— Não também.
Imagem: Reprodução
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.






































































