A política internacional raramente opera por impulsos morais. Ela se move por interesses persistentes, reciclados ao longo do tempo sob diferentes roupagens discursivas. O que hoje se apresenta como cruzada contra o narcotráfico, ontem foi combate ao comunismo e, antes disso, defesa abstrata da “ordem” e da “civilização ocidental”. O vocabulário muda. A engrenagem permanece.
A recente escalada dos Estados Unidos contra a Venezuela — marcada por sanções ampliadas, apreensões de navios e uma retórica securitária cada vez mais agressiva — não pode ser compreendida como resposta pontual a um problema criminal. Trata-se sim de um movimento inserido em um reordenamento geopolítico mais amplo, no qual a América Latina volta a ser tratada como zona natural de influência de Washington, em um momento de redistribuição global de poder.
O que torna esse processo particularmente revelador é o silêncio prático de outras grandes potências que, em tese, estariam em confronto direto com os EUA. É justamente na distância entre discurso público e ação concreta que o mecanismo real se revela.
O jogo de aparências entre as potências
A narrativa dominante descreve Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping como líderes em rota de colisão inevitável, representantes de projetos geopolíticos incompatíveis. Essa leitura, embora funcional para o consumo midiático, não se sustenta quando confrontada com dados empíricos, decisões estratégicas concretas e comportamento militar efetivo.
Desde o início da guerra na Ucrânia, relatórios do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) e análises do International Institute for Strategic Studies (IISS) indicam que o conflito se mantém dentro de limites cuidadosamente administrados. Os Estados Unidos ampliaram o fornecimento de armamentos, mas evitaram de forma sistemática qualquer envolvimento direto que pudesse desencadear um confronto com a OTAN. Não se trata de cautela ética, mas de cálculo estratégico.
A revista Foreign Affairs e o Council on Foreign Relations têm sido claros: Washington parece menos interessado em encerrar rapidamente a guerra do que em gerenciá-la. Um conflito prolongado desgasta a Rússia, reconfigura o mercado energético europeu e aprofunda a dependência estratégica da União Europeia em relação aos EUA — tudo isso sem exigir o sacrifício direto de tropas norte-americanas.
Do lado russo, apesar da retórica agressiva, não houve mobilização plena da capacidade militar nem ruptura deliberada de linhas vermelhas capazes de provocar escalada irreversível. Pesquisadores do Carnegie Endowment for International Peace apontam que Moscou preserva recursos para teatros considerados verdadeiramente vitais à sua sobrevivência estratégica.
A China, por sua vez, atua com pragmatismo ainda mais explícito. Dados da World Trade Organization mostram que o comércio sino-russo cresceu de forma significativa após 2022, compensando parte dos efeitos das sanções ocidentais. Pequim ampliou exportações, absorveu energia russa com descontos estratégicos e, ao mesmo tempo, evitou qualquer envolvimento militar direto, preservando suas relações comerciais com Europa e Estados Unidos.
Esse triângulo não revela caos, mas coordenação tácita por delimitação de esferas de interesse, exatamente como descreve John Mearsheimer, um dos principais teóricos do realismo ofensivo: grandes potências competem, mas evitam choques diretos quando os custos superam os ganhos.
Nesse contexto, a Venezuela surge como peça periférica para Moscou e Pequim — e, portanto, negociável. O fato de nenhum navio russo ou chinês ter sido deslocado ao Caribe, nenhuma operação aérea de dissuasão ter sido montada e nenhuma ação concreta ter ocorrido diante das iniciativas norte-americanas fala mais alto do que qualquer nota diplomática.
Venezuela: recursos, geografia e oportunidade
A Venezuela não ocupa o centro desse tabuleiro por acaso. Segundo dados consolidados da OPEP e da BP Statistical Review of World Energy, amplamente repercutidos pela BBC, o país detém a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, superando Arábia Saudita, Irã e Canadá.
Mas o petróleo é apenas parte do quadro. A Venezuela concentra também as maiores reservas de ouro da América Latina, além de coltan, bauxita, ferro e outros minerais estratégicos essenciais à indústria tecnológica contemporânea. Em um mundo marcado pela disputa por cadeias de suprimento, transição energética e controle de insumos críticos, esses recursos adquirem valor geopolítico exponencial.
A geografia completa a equação. Com acesso privilegiado ao Caribe, proximidade de rotas marítimas estratégicas e posição de entrada natural para o norte da América do Sul, a Venezuela funciona como pivô logístico e político regional. Controlar sua orientação estratégica significa reposicionar o eixo de poder continental.
Não é coincidência que, sempre que a hegemonia global dos Estados Unidos entra em fase de tensão, a Venezuela reapareça como “ameaça”, “problema humanitário” ou “foco do narcotráfico”. O enquadramento moral vem depois. O interesse material precede.
A guerra às drogas como biombo moral
É nesse ponto que entra o discurso mais eficiente da política externa norte-americana desde o fim da Guerra Fria: a chamada guerra às drogas.
Reportagens da BBC, análises do El País e estudos da ONU demonstram que essa “guerra” jamais foi concebida como política de saúde pública. Ela foi estruturada como doutrina de segurança hemisférica, deslocando o foco do consumo — concentrado majoritariamente nos Estados Unidos — para a produção e o trânsito, localizados no Sul Global.
O Plano Colômbia é exemplar. Bilhões de dólares foram investidos em militarização, treinamento de forças de segurança e repressão armada. O resultado concreto foi o aumento da violência, o fortalecimento de grupos criminosos e nenhuma redução estrutural da oferta global de drogas, como reconhecem relatórios da UNODC.
A guerra às drogas funciona, assim, como biombo moral: um discurso que legitima sanções, intervenções indiretas, presença militar e pressão diplomática, enquanto oculta objetivos econômicos e geopolíticos muito mais tangíveis.
Opioides: quando o inimigo está em casa
O colapso moral dessa narrativa torna-se incontornável quando se observa o que ocorre dentro dos próprios Estados Unidos.
Dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e estudos publicados na New England Journal of Medicine apontam que mais de 500 mil norte-americanos morreram em decorrência da epidemia de opioides nas últimas duas décadas — uma das maiores crises de saúde pública da história do país.
Essa epidemia não nasceu em cartéis latino-americanos. Ela nasceu no interior do sistema médico norte-americano, impulsionada por farmacêuticas como a Purdue Pharma, que falsearam dados científicos, minimizaram riscos de dependência e incentivaram prescrições massivas de analgésicos altamente viciantes.
Investigações do New York Times, da BBC e de comissões do Congresso demonstraram que essas empresas tinham plena consciência do potencial destrutivo de seus produtos. Ainda assim, a resposta estatal se limitou a acordos judiciais negociados, multas diluídas e blindagem institucional.
Nenhuma sanção internacional.
Nenhuma retórica beligerante.
Nenhuma “guerra” declarada.
Crime organizado interno e seletividade
Relatórios oficiais do FBI reconhecem, há décadas, a atuação estruturada de organizações criminosas italianas, russas, irlandesas, chinesas e mexicanas operando dentro dos Estados Unidos, controlando redes de distribuição e lavagem de dinheiro.
Ainda assim, o tratamento dado a essas organizações é radicalmente distinto daquele aplicado à América Latina. A repressão ocorre por vias judiciais e administrativas, de forma silenciosa, sem retórica militarizada nem espetacularização bélica.
Essa seletividade não é acidental. Ela revela o critério real: a guerra às drogas é travada onde o custo humano e político é mais facilmente descartável.
Paraguai: a engrenagem discreta
O acordo recente entre os Estados Unidos e o Paraguai insere-se nesse mesmo desenho estratégico. Relatórios do U.S. Southern Command e análises do Wilson Center indicam que o país ocupa posição sensível: corredor logístico, proximidade com o Aquífero Guarani e inserção estratégica no Cone Sul.
O caráter silencioso do acordo — firmado sem debate público proporcional à sua importância — reforça a leitura de que o Paraguai funciona como laboratório de expansão de influência, replicando padrões históricos de dependência assimétrica já conhecidos na região.
Ditaduras não foram um desvio, mas um método
Esse padrão não surge no vazio. Ele é herdeiro direto de uma prática documentada.
Arquivos desclassificados do Departamento de Estado, analisados pela Comissão Nacional da Verdade, pela BBC, pela Agência Pública e por pesquisadores como Peter Kornbluh, demonstram que o apoio dos Estados Unidos às ditaduras latino-americanas foi estrutural e consciente.
A Operação Condor funcionou como uma rede transnacional de repressão, com intercâmbio de informações, logística e coordenação direta. Washington tinha conhecimento detalhado das práticas de tortura, assassinato e desaparecimento forçado — e ainda assim sustentou esses regimes.
Enquanto os Estados Unidos celebravam sua contracultura, a América Latina pagava o preço da chamada “estabilidade”.
Conclusão
A ofensiva atual sobre a Venezuela não inaugura uma nova política. Ela reencena uma tradição. Recursos, influência e controle regional continuam sendo os motores reais da política externa norte-americana na América Latina. A guerra às drogas segue como justificativa moral conveniente. O silêncio de outras potências não é omissão, mas cálculo.
A história, como os arquivos insistem em mostrar, não se repete por distração, mas porque, para quem manda, ainda funciona.
Por Otaviano Lacet*
*Jornalista, Escritor, Editor e Músico sofrível, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior.




































































