Comprar um medicamento em Natal pode se transformar em um exercício de pesquisa tão importante quanto a própria consulta médica. Um levantamento realizado pelo Procon Natal identificou diferenças de preços que chegam a 182,32% entre farmácias da capital, revelando que o mesmo tratamento pode custar quase três vezes mais dependendo do estabelecimento escolhido.
A pesquisa analisou 31 medicamentos em 49 farmácias distribuídas pelas quatro regiões da cidade e encontrou variações que chamam atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo impacto direto que exercem sobre o orçamento das famílias.
O estudo foi realizado após a entrada em vigor do reajuste anual autorizado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), que definiu aumento máximo de 2,47% para o setor. O contraste entre os números ajuda a dimensionar o problema. Enquanto o reajuste oficial ficou abaixo de 3%, a diferença encontrada entre farmácias ultrapassou 180% em alguns produtos. Isso significa que, para muitos consumidores, a escolha do local da compra pesa mais no bolso do que o próprio aumento autorizado pelo governo.
O campeão da diferença foi um remédio simples
O caso mais extremo encontrado pela pesquisa envolve o Albendazol 400 mg, medicamento amplamente utilizado no tratamento de parasitoses.
Segundo o levantamento, uma versão do produto foi encontrada por R$ 3,79, enquanto outra chegou a R$ 10,70. A diferença absoluta foi de R$ 6,91, resultando em uma variação percentual de 182,32%. O preço médio registrado para o medicamento ficou em R$ 4,68.
O exemplo chama atenção porque envolve um medicamento relativamente comum. Não se trata de um produto raro, importado ou de difícil acesso. É justamente essa característica que torna os números ainda mais relevantes. Se diferenças tão amplas aparecem em medicamentos básicos, elas tendem a produzir impactos ainda maiores em tratamentos prolongados e de uso contínuo.
Quem depende de remédios contínuos sente mais
A pesquisa avaliou oito medicamentos genéricos e 23 produtos de marcas tradicionais, abrangendo categorias como analgésicos, antibióticos, anti-inflamatórios, antialérgicos e medicamentos utilizados no controle da pressão arterial.
Entre os exemplos destacados pelo Procon está o antialérgico Alegra 60 mg. O medicamento apresentou preço médio de R$ 26,12, mas foi encontrado por valores que variavam entre R$ 21,45 e R$ 50,18. A diferença de R$ 28,73 mostra como a pesquisa prévia pode representar economia significativa para consumidores que utilizam medicamentos regularmente.
Para famílias que convivem com doenças crônicas, a questão se torna ainda mais sensível. Pequenas diferenças de preço podem parecer irrelevantes em compras isoladas, mas assumem outra dimensão quando o tratamento precisa ser mantido durante meses ou anos.
Nem todos os preços subiram
O levantamento também identificou casos de redução nos valores praticados pelo mercado.
O Diclofenaco de Sódio 100 mg apresentou queda de 18,65% no preço médio em comparação com a pesquisa anterior realizada pelo órgão. Em 2025, o medicamento possuía preço médio de R$ 12,18. Neste ano, o Procon encontrou opções comercializadas a partir de R$ 3,55.
A informação demonstra que o mercado farmacêutico não se movimenta apenas na direção dos aumentos. Estratégias comerciais, concorrência entre fabricantes, crescimento dos genéricos e disputas entre redes de farmácia também influenciam os preços finais pagos pelos consumidores.
A concorrência existe. O consumidor nem sempre aproveita
A pesquisa reforça uma realidade conhecida por especialistas em defesa do consumidor: o setor farmacêutico apresenta forte variação de preços mesmo entre estabelecimentos localizados em regiões próximas da cidade.
O levantamento aponta que a região Leste concentrou os menores preços médios observados durante o período analisado. A constatação sugere que fatores geográficos, estratégias comerciais e políticas de concorrência influenciam diretamente os valores praticados pelas farmácias.
Em um mercado cada vez mais concentrado em grandes redes, muitos consumidores acabam assumindo que os preços são semelhantes em qualquer estabelecimento. Os números mostram exatamente o contrário. A diferença entre pesquisar e comprar por impulso pode representar economia relevante, especialmente para quem precisa adquirir mais de um medicamento.
O custo invisível da saúde
O levantamento do Procon revela algo que vai além dos preços dos remédios.
Ele mostra como parte dos gastos com saúde depende de fatores que escapam ao controle dos pacientes. Quem precisa de medicamentos não escolhe quando ficará doente. Não escolhe a duração do tratamento. Muitas vezes também não possui condições físicas ou financeiras para percorrer diferentes farmácias em busca do menor preço.
Essa assimetria cria um mercado peculiar. O consumidor precisa comprar, independentemente do valor encontrado. É justamente por isso que transparência de preços e concorrência se tornam elementos tão importantes na proteção do orçamento das famílias.
A pesquisa deixa uma lição simples
A principal conclusão do levantamento não é que os medicamentos ficaram mais caros.
É que eles podem custar valores completamente diferentes dependendo de onde são comprados.
Em um cenário de reajustes periódicos autorizados pelo governo e pressão crescente sobre o orçamento doméstico, comparar preços deixou de ser apenas uma atitude recomendável. Tornou-se uma necessidade econômica. Quando a diferença entre duas farmácias pode ultrapassar 180%, a pesquisa prévia deixa de ser um hábito de consumo e passa a ser uma ferramenta de defesa financeira para quem depende de medicamentos.
































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