O Programa Trilhas Potiguares da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PTP/UFRN) é um dos melhores exemplos de como a universidade pode ir além de seus muros e transformar realidades, direcionando de maneira sensível a teoria aprendida em sala de aula para práticas cidadãs e de relevância social. Há 30 anos, a ação se apresenta como uma das mais importantes iniciativas de extensão universitária do estado, com impacto significativo na formação dos participantes e nos municípios atendidos a cada nova edição.
Sua criação remonta ao ano de 1996, tendo como inspiração o Projeto Pé-na-Trilha, desenvolvido por estudantes do curso de Geografia da UFRN. As ações do grupo consistiam em realizar atividades de campo enquanto percorriam a pé diferentes regiões do RN, observando a diversidade social, cultural e ambiental do estado. Posteriormente, o Pé-na-Trilha mostrou-se fundamental para a concepção do que viria a ser o Trilhas Potiguares.



A institucionalização do programa ocorreu durante a primeira gestão do reitor José Ivonildo do Rêgo (1995-1999), período em que as diretrizes da extensão universitária buscavam ampliar as atividades voltadas para o interior do estado. O então pró-reitor de Extensão, professor Arnon Alberto Mascarenhas de Andrade, juntamente com o docente Telésforo Nóbrega de Medeiros e a servidora Marjorie da Fonseca Medeiros, foram os principais articuladores da proposta que, rapidamente, ganhou adesão de outros setores da Universidade.
O objetivo inicial do Trilhas Potiguares era promover uma intervenção universitária nos municípios do interior do RN, especialmente aqueles com até 15 mil habitantes, levando conhecimento acadêmico, mas também valorizando o saber local. Assim, o programa foi concebido como uma via de mão dupla, em que a Universidade não apenas levava conhecimento, mas também aprendia com as comunidades.
Um trecho do livro Na trilha do Trilhas Potiguares, de Maria da Conceição Fraga e Ana Eugênia de Vasconcelos Villar, traz um relato do professor Arnon de Andrade, já falecido, que explicita isso. Ele diz: “a gente tinha a proposta não apenas de levar o conhecimento adquirido na Universidade para a população no interior, mas tínhamos também a expectativa de sistematizar o conhecimento produzido no interior, de tal modo que houvesse uma troca: nós levaríamos conhecimento sistematizado pela pesquisa e eles nos dariam conhecimento reproduzido no ensaio e erro, na tradição no trabalho artístico, na intuição etc. Era um trabalho extremamente rico, os estudantes sempre diziam que, depois de participar do Trilhas, eles não seriam os mesmos estudantes de antes, e assim o Trilhas seguia nesse caminho.”
A primeira edição do programa ocorreu em apenas dois finais de semana, de 18 a 20 e 24 a 26 de maio de 1996, inserido na programação das Olimpíadas Universitárias, e envolveu um grupo de professores e alunos que se deslocaram para o interior do estado. Com o passar dos anos, o Trilhas Potiguares expandiu-se, passando a atuar em múltiplos municípios simultaneamente e envolvendo equipes interdisciplinares de estudantes, professores e técnicos de diferentes áreas do conhecimento.

Ao longo dos anos, o programa enfrentou desafios significativos, especialmente no início, quando os recursos eram escassos. A primeira coordenadora do projeto, Marjorie da Fonseca Medeiros, em entrevista concedida em 2013, relatou as dificuldades enfrentadas na época. “A grande dificuldade é que a gente não tinha recurso nenhum. No início, era tudo voluntário. O único recurso que a gente tinha eram os motoristas que recebiam diárias para levar os alunos e coordenadores às comunidades, e a gente tinha parcerias nesses municípios, que forneciam alimentação; e conseguíamos alguns parceiros na própria cidade para revelação de fotografias, concurso fotográfico, concurso de crônicas, exposições. Então, a gente conseguia parcerias e financiamentos nesse sentido, mas era tudo muito pouco e com muita dificuldade”, lembrou.
Expansão
Da escassez de recursos à expansão nacional e internacional, a dedicação dos coordenadores, professores, técnicos e estudantes foi fundamental para superar as dificuldades e consolidar o Trilhas Potiguares. Com reconhecimento acadêmico e social, o projeto cresceu e segue sendo exemplo de como a universidade pública pode ser agente de transformação social, promovendo o desenvolvimento local e a integração entre saberes acadêmicos e populares.

Em 2026, o Trilhas Potiguares tem como tema Sociedade e academia: 30 anos de extensão com diálogo, parceria e impacto social. Durante a assinatura do convênio com as prefeituras dos 15 municípios que participam da edição especial de 30 anos, o reitor da UFRN, José Daniel Diniz Melo, destacou a relevância das atividades desenvolvidas tanto para os alunos quanto para as comunidades envolvidas. Ele também reforçou que a parceria “representa famílias que serão alcançadas por ações de saúde, educação, cultura, meio ambiente e cidadania” e que “gestores municipais verão na parceria com a Universidade um apoio real para os desafios do dia a dia”.
Este ano, os municípios potiguares participantes são: Alexandria, Arez, Cruzeta, Frutuoso Gomes, Galinhos, Itajá, Lagoa de Velhos, Lajes, Martins, Maxaranguape, Pedro Avelino, Pureza, Ruy Barbosa, Serra Negra do Norte e Viçosa.
Na trilha do Trilhas

Lançado em 2017, o livro Na trilha do Trilhas Potiguares registra as duas primeiras décadas do projeto, que já despontava como uma das mais marcantes experiências de extensão universitária do Brasil. A obra, organizada por Maria da Conceição Fraga e Ana Eugênia de Vasconcelos Villar, resgata a memória, os desafios e as conquistas do programa, mostrando também que o PTP enfrentou muitos desafios, especialmente no início, quando tudo era feito de forma voluntária e com poucos recursos.
Além do relato histórico, a publicação traz depoimentos de alunos, professores, técnicos e membros das comunidades atendidas, revelando o impacto transformador do programa. O livro também destaca as inovações e adaptações do Trilhas ao longo dos anos, como a inclusão de alunos com necessidades especiais, a criação de manuais para participantes e municípios e a realização de projetos especiais como o Trilhas na Copa.
Fontes de pesquisa: Livro Na trilha do Trilhas Potiguares, de Maria da Conceição Fraga e Ana Eugênia de Vasconcelos Villar (EDUFRN, 2017) e site Trilhas Potiguares.
Fonte: Agecom/UFRN







































































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