A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) abriu nesta segunda-feira (16) as inscrições para o Processo Seletivo de Pessoas Idosas (PSP 60+), iniciativa que disponibiliza 103 vagas destinadas exclusivamente a candidatos com idade igual ou superior a 60 anos.
As inscrições são gratuitas e poderão ser realizadas até 21 de agosto pela internet. Mais do que um novo processo seletivo, a iniciativa sinaliza uma mudança na forma como instituições de ensino superior começam a responder a uma das maiores transformações demográficas do país: o envelhecimento da população brasileira.
Durante décadas, o ensino superior foi estruturado quase exclusivamente para atender jovens recém-saídos do ensino médio. A ampliação da expectativa de vida, a permanência mais longa das pessoas em atividades produtivas e a busca por qualificação em diferentes fases da existência começaram a desafiar essa lógica. O resultado é que universidades passaram a enfrentar uma realidade para a qual nem sempre foram planejadas: estudantes que chegam às salas de aula após os 60, 70 ou até 80 anos de idade.
A universidade reconhece que aprender não é uma atividade restrita à juventude
O PSP 60+ está vinculado ao Programa Uern 60+, criado pela Resolução nº 23/2024 do Conselho Universitário. Segundo a instituição, a proposta busca fortalecer políticas de envelhecimento ativo, educação ao longo da vida, inclusão e valorização das experiências acumuladas pelas pessoas idosas.
A iniciativa parte de uma mudança conceitual que vem ganhando espaço em diferentes sistemas educacionais. O conhecimento deixou de ser entendido como algo adquirido apenas nos primeiros anos da vida adulta. Em um mercado de trabalho em constante transformação e em uma sociedade marcada pelo aumento da longevidade, a formação contínua passou a ser vista como necessidade permanente.
Essa mudança possui implicações que vão além do ambiente acadêmico. Ao abrir espaço para alunos idosos, a universidade também modifica o perfil das interações em sala de aula. Experiências profissionais, trajetórias pessoais e vivências acumuladas durante décadas passam a conviver com estudantes mais jovens, produzindo uma troca de conhecimentos que dificilmente ocorre em modelos educacionais tradicionais.
As vagas não substituem o ingresso regular
A Uern informa que as 103 vagas ofertadas possuem caráter extraordinário e não integram o quadro regular de vagas da universidade. Elas resultam da adesão voluntária dos departamentos acadêmicos ao Programa Uern 60+, permitindo ampliar o acesso sem reduzir oportunidades destinadas aos demais candidatos.
Esse detalhe é relevante porque revela a estratégia institucional adotada pela universidade. Em vez de redistribuir vagas existentes, a Uern criou uma modalidade complementar de acesso. A decisão reduz resistências internas e permite que o programa avance sem interferir diretamente nos mecanismos tradicionais de ingresso.
Ao mesmo tempo, a medida reconhece que o envelhecimento populacional produz demandas específicas que dificilmente seriam atendidas apenas pelos processos seletivos convencionais.
A seleção valoriza trajetória de vida e formação escolar
O processo seletivo será realizado em duas etapas. Na primeira, serão analisadas as médias das notas de conclusão do ensino médio ou equivalente. A fase possui caráter classificatório e eliminatório. Os candidatos aprovados seguirão para uma segunda etapa composta pela apresentação de um memorial de vida e pela realização de entrevista presencial.
O modelo revela uma compreensão mais ampla do perfil dos candidatos. Enquanto vestibulares tradicionais costumam medir exclusivamente desempenho acadêmico, o PSP 60+ incorpora elementos ligados à trajetória pessoal dos participantes. A inclusão do memorial de vida sinaliza que a universidade busca considerar experiências acumuladas ao longo dos anos como parte do processo de seleção.
Essa escolha dialoga com uma característica frequentemente observada entre estudantes idosos. Muitos deles não chegam à universidade em busca apenas de inserção profissional. Em diversos casos, a motivação envolve realização pessoal, retomada de projetos interrompidos ou desejo de aprofundar conhecimentos em áreas de interesse construídas ao longo da vida.
O envelhecimento da população desafia as instituições
A criação do programa ocorre em um contexto de transformação demográfica acelerada. O Brasil está envelhecendo em ritmo mais rápido do que o observado em diversas nações desenvolvidas. A queda das taxas de natalidade e o aumento da expectativa de vida estão alterando a composição da população e exigindo adaptações em áreas como saúde, previdência, mobilidade urbana e educação.
Historicamente, políticas públicas voltadas à terceira idade concentraram-se em assistência social e cuidados médicos. O surgimento de iniciativas como o Uern 60+ indica uma ampliação dessa perspectiva. O envelhecimento passa a ser tratado também como questão relacionada à cidadania, participação social e acesso ao conhecimento.
Essa mudança é particularmente relevante em estados como o Rio Grande do Norte, onde o crescimento da população idosa acompanha uma tendência nacional que deverá se intensificar nas próximas décadas.
A universidade do futuro pode ser mais diversa em idade do que em qualquer outro período
A abertura de vagas para pessoas com mais de 60 anos não representa apenas uma política de inclusão. Ela antecipa uma transformação que tende a se tornar cada vez mais comum no ensino superior brasileiro. À medida que a população envelhece, cresce também o número de pessoas que buscam formação acadêmica fora do percurso tradicional.
A decisão da Uern sinaliza que as universidades começam a se adaptar a essa realidade. O estudante universitário deixa de ser visto apenas como um jovem em início de trajetória profissional e passa a incluir indivíduos que carregam décadas de experiências acumuladas. A longo prazo, essa mudança pode alterar não apenas o perfil dos alunos, mas a própria concepção do que significa aprender ao longo da vida.








































































