Em 13 de maio, Flávio Bolsonaro foi perguntado se Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, financiava o filme sobre seu pai. Respondeu: “É mentira”. Hoje, o senador e candidato à Presidência é investigado no Supremo Tribunal Federal por suspeitas relacionadas justamente a esse financiamento. Mensagens mostram que ele cobrou pessoalmente o banqueiro; registros financeiros apontam pelo menos US$ 12,3 milhões remetidos a um fundo nos Estados Unidos, dentro de uma negociação que previa US$ 24 milhões. A Polícia Federal ainda procura saber quem recebeu, ao final, o dinheiro e para quê.
📳Clique aqui para seguir o canal do JOL RN no WhatsApp
A negativa que durou algumas horas
Antes de admitir a negociação, Flávio apresentava o escândalo do Master como assunto da esquerda. Em março, afirmou que “essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”. Em maio, apareceu com uma camiseta que atribuía o Master a Lula. Quando o Intercept Brasil lhe perguntou diretamente sobre os pagamentos de Vorcaro ao projeto Dark Horse, negou. Horas depois da publicação das mensagens, reconheceu que havia procurado o banqueiro para obter financiamento privado: “Sim, tinha um contrato”, declarou. Disse também que o conhecera em dezembro de 2024, quando ainda não havia acusações públicas contra ele.
A mudança não é uma divergência de interpretação sobre um conhecido. O objeto da pergunta era uma operação específica, de milhões de dólares, negociada pelo próprio senador. Flávio diz que não recebeu dinheiro pessoalmente, não ofereceu vantagens ao financiador e não intermediou negócios com o governo. Mais tarde, atribuiu parte das negativas anteriores a uma cláusula de confidencialidade. São as explicações dele; os registros bancários e as conversas tornam verificável que existiu a relação financeira que ele inicialmente recusou confirmar.
Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça autorizou, a pedido da PF, a inclusão formal de Flávio em um inquérito sobre Dark Horse. O pedido policial menciona possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Investigação não é condenação: até agora, a questão é apurar a origem, a circulação e os beneficiários finais dos valores. Em relatório divulgado em setembro, a própria PF descreveu Flávio como “interlocutor direto” de Vorcaro, citando cobranças, reuniões e acompanhamento das filmagens. A Procuradoria-Geral da República pediu ainda exame de propostas legislativas que eventualmente tenham beneficiado o Master; nenhuma contrapartida ilícita foi demonstrada por esse pedido.
De uma promessa de US$ 24 milhões a um fundo no Texas
Os documentos revelados pelo Intercept Brasil mostram uma negociação para que Vorcaro financiasse Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, com US$ 24 milhões, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões à época. Planilhas estabeleceram parcelas, e mensagens registraram cobranças quando elas atrasaram. O primeiro pagamento comprovado foi de US$ 2 milhões, remetido em 13 de fevereiro de 2025. O dinheiro saiu da Entre Investimentos e Participações, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, e chegou ao Havengate Development Fund, no Texas. Vorcaro orientara interlocutores a fazer a transferência por meio da Entre depois de dificuldades para enviar os recursos diretamente.
O Havengate tinha entre seus administradores Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, e Altieris Santana. Um contrato de produção obtido pelo Intercept designava Eduardo e o deputado Mario Frias como produtores executivos, com atribuições previstas sobre a captação e a gestão financeira do filme; o documento, por si só, não demonstra quais decisões cada um efetivamente executou. Eduardo negou ter recebido dinheiro de Vorcaro. A PF investiga a hipótese de que parte dos recursos remetidos aos EUA tenha custeado despesas do irmão de Flávio naquele país. A hipótese ainda não foi comprovada.
Quando o caso veio a público em maio, seis remessas identificadas pelo Intercept somavam US$ 10,6 milhões. Documentos posteriores e a confirmação de Freixo às autoridades elevaram o total conhecido a pelo menos US$ 12,3 milhões enviados ao Havengate, incluindo uma remessa de cerca de US$ 1,66 milhão em setembro. Os dois números descrevem etapas sucessivas da apuração, não pagamentos a somar. Tampouco se pode concluir, apenas pela entrada no fundo, que cada dólar chegou à produtora do filme ou foi recebido pessoalmente por algum Bolsonaro. É precisamente essa passagem, do fundo aos beneficiários finais, que falta esclarecer.
As cobranças continuaram enquanto o Master afundava
A cronologia da PF desmonta a impressão de um contato ocasional encerrado antes da crise do banco. Em 20 de agosto de 2025, uma mensagem registrada no telefone de Vorcaro indicou que Flávio estava a caminho de um encontro. Em 3 de setembro, o Banco Central rejeitou a compra do Master pelo BRB. Cinco dias depois, Flávio enviou ao banqueiro um áudio cobrando parcelas atrasadas e alertando para o risco de não pagar atores e diretor estrangeiros. Vorcaro pediu desculpas e prometeu resolver o problema. A coincidência temporal prova a continuidade das tratativas após a decisão do BC; não prova que o senador conhecesse detalhes das fraudes sob investigação.
Em 16 de setembro, os dois conversaram por telefone no mesmo dia em que a Entre remeteu aproximadamente US$ 1,66 milhão ao Havengate, segundo os dados financeiros examinados pela PF. Em 22 de outubro, com as filmagens iniciadas, Flávio voltou a cobrar: comunicou que a produção estava no limite e precisava saber se Vorcaro continuaria financiando o projeto. Também o convidou para um jantar com integrantes estrangeiros da equipe; as mensagens não confirmam que esse jantar ocorreu. Em 7 de novembro, agradeceu ao banqueiro pela ajuda que, escreveu, tornava o filme possível.
Em 16 de novembro, véspera da primeira prisão de Vorcaro, Flávio voltou a procurar o financiador e lhe escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. O Banco Central liquidou o Master no dia 18. Segundo relato posterior do próprio senador, houve ainda um encontro com Vorcaro quando o banqueiro já estava em prisão domiciliar, para encerrar a captação para o filme. Dizer que a aproximação começou antes de acusações públicas é uma parte da cronologia; a outra são as cobranças, ligações e manifestações de proximidade feitas depois, até a queda do banco.
O jato, o intermediário e o apartamento
A relação também deixa rastros fora das conversas sobre o filme. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio retornou da Flórida a Brasília com a mulher, as filhas e o amigo Willer Tomaz em um jato de prefixo PP-NLR. A revista piauí cruzou registros aeronáuticos e identificou que a Prime You possuía um terço da aeronave; Vorcaro era sócio da empresa na época. Tomaz detinha outra cota e afirmou que costumava dar carona a amigos, sem custo ou contrapartida. Não há prova de que Flávio soubesse da participação societária de Vorcaro no avião. No dia seguinte ao desembarque, porém, o senador pressionou um intermediário para acelerar a primeira parcela do financiamento do filme, prevista para aquela data.
Meses depois, Flávio atacou Alexandre de Moraes por usar o mesmo jato, também ligado à Prime You. A piauí revelou outro ponto de encontro na rede de relações: durante a campanha, o senador utilizou um apartamento de empresa de Willer Tomaz, comprado de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro. O voo e o imóvel não demonstram pagamento ilícito ao candidato. Mostram, isso sim, que o vínculo com o círculo do banqueiro não se resume às mensagens que vieram a público em maio.
A prestação de contas prometida ainda não reconstitui o dinheiro
Em maio, Flávio pediu à produtora e ao fundo americano uma prestação de contas pública em até 30 dias. A Go Up Entertainment apresentou à polícia uma perícia privada, contratada por sua defesa, segundo a qual Dark Horse custou R$ 75,2 milhões e foi financiado com recursos privados, sem dinheiro de emendas ou incentivos públicos. O documento atribui ao Havengate um aporte de US$ 13,4 milhões, mas não tornou públicos os contratos, a identificação completa dos financiadores, as despesas individualizadas nem toda a movimentação do fundo. A defesa do senador afirma que a prestação já foi feita, que não houve irregularidade e que regras de confidencialidade impedem a divulgação de certos dados.
É aí que está a pergunta central, que um laudo privado não resolve sozinho: quanto dos US$ 12,3 milhões atribuídos a Vorcaro pagou efetivamente o filme, quanto permaneceu no Havengate e quem recebeu cada parcela? Outra apuração, sob relatoria de Flávio Dino no STF, examina suspeitas de desvio de emendas destinadas a uma entidade ligada à produtora e teve Mario Frias entre os alvos de operação. São procedimentos distintos; a suspeita sobre emendas não autoriza afirmar que Flávio recebeu verba pública para o filme.
Nesta quinta-feira, 24 de setembro, Antônio Carlos Freixo Júnior, cuja empresa enviou os recursos ao Havengate, tornou-se alvo da Operação Crédito Oculto, sobre suspeitas de lavagem na compra de uma distribuidora de combustíveis. O objeto dessa operação é outra transação. Ela não prova ilegalidade nas remessas de Dark Horse, mas reforça a necessidade de que o caminho do dinheiro do filme seja demonstrado por documentos verificáveis.
No Rio, outras relações sob escrutínio
O caso Vorcaro não inaugura as perguntas sobre as companhias políticas de Flávio. Como deputado estadual, ele apresentou, em 2003, moção de louvor ao ex-policial Adriano da Nóbrega e, em 2005, propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes quando Adriano estava preso preventivamente sob acusação de homicídio. Anos depois, o Ministério Público o apontaria como líder de milícias do Rio. A então mulher e a mãe de Adriano ocuparam cargos no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa. Fabrício Queiroz, antigo assessor, disse ter indicado as duas. Flávio afirmou que a homenagem reconhecia a atuação de Adriano no Bope e que ele era falsamente acusado à época.
Queiroz foi personagem central da investigação das rachadinhas, na qual o Ministério Público do Rio denunciou Flávio e ex-assessores. A denúncia foi rejeitada e o caso arquivado em 2022, depois que tribunais anularam provas usadas na acusação. Não houve condenação de Flávio nesse processo. O desfecho judicial precisa constar do histórico, assim como as acusações que levaram à investigação.
Um episódio mais recente foi revelado pela piauí: em 2023, Robson Calixto Fonseca, o Peixe, pediu ao gabinete de Flávio recursos para um projeto de futebol do Ifop, na Taquara. Mensagens recuperadas pela PF mostram uma assessora orientando-o a formalizar e reforçar o pedido. O instituto recebeu R$ 199.999,79 de emenda indicada pelo senador. Peixe seria condenado em 2026 por integrar a organização criminosa armada dos irmãos Brazão, condenados como mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. O TCU apontou irregularidades na execução do projeto; o instituto contesta essas conclusões. Flávio diz que a emenda cumpriu a lei e que a execução cabe à entidade beneficiária. O dinheiro foi destinado ao instituto; não há prova de que tenha financiado o assassinato ou de que Flávio tenha participado dele.
Em Washington, outra escolha sob cobrança
No exterior, Flávio também tentou influenciar decisões do governo Donald Trump sobre o Brasil. Em manifestação escrita ao representante comercial dos EUA, pediu que uma decisão sobre novas tarifas fosse adiada até depois da eleição brasileira, por temer benefício político a Lula. Defendeu o Pix e se opôs à sobretaxa de 25%, mas apontou como medidas adequadas contra autoridades brasileiras a suspensão de vistos e sanções baseadas na Lei Magnitsky. No documento, chamou o caso Master de uma fraude histórica sem mencionar que havia solicitado milhões ao ex-controlador do banco para o filme do pai. É uma atuação política documentada, cuja coerência com o discurso nacionalista do candidato cabe ao eleitor avaliar.
Por ora, a ligação de Flávio com Vorcaro já está demonstrada por negociação de financiamento, cobranças diretas, encontros, remessas identificadas e um inquérito formal. Isso não equivale a provar corrupção ou a ligar o dinheiro do filme às milícias do Rio. O passo decisivo é obter a prestação completa das contas do Havengate, dos contratos e dos pagamentos da produção, enquanto a PF examina eventual beneficiário fora do projeto e qualquer contrapartida ao banqueiro. Sem essa documentação, permanece aberta uma questão concreta para um candidato à Presidência: quem ficou com os milhões que ele ajudou a captar de Daniel Vorcaro?



































































Comentários