No dia 23 de fevereiro, foi realizado o Seminário Macambira: A Resistência das Mulheres Quilombolas Diante das Eólicas, organizado pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Territórios do Semiárido (SEMIAR), do Departamento de Geografia do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres). A atividade, que ocorreu na Comunidade Quilombola Macambira, em Lagoa Nova (RN), consistiu na apresentação e validação social de duas dissertações de mestrado realizadas com/sobre/para a comunidade quilombola, com foco particular nas percepções das mulheres quilombolas sobre seu território, considerando os conflitos e as resistências.
Uma das dissertações é de autoria de Maria Flávia Dantas da Cruz, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia (GeoCeres/Caicó), e teve como objetivo principal analisar as contribuições dos quintais produtivos no fortalecimento da convivência com o semiárido na Comunidade Quilombola Macambira, a partir do trabalho realizado pelas mulheres. O estudo comprovou que os quintais produtivos são um importante instrumento de resistência para as mulheres, pois promovem novas formas de resistir e existir na Macambira, dinamizando a comunidade por meio da promoção e construção de novos modos de vida.

Já a outra dissertação é de autoria de Rachel de Souza Maximino, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (PPEUR/Natal), e teve como objetivo principal analisar, a partir da perspectiva das mulheres quilombolas de Macambira, os impactos da instalação e operação dos complexos eólicos sobre seus corpos-territórios, assim como os papéis de gênero na comunidade e suas resistências.
Com o estudo, foi possível observar as relações e as consequências dos conflitos socioambientais nos corpos das mulheres de Macambira, assim como a forma como as atividades de gênero e suas resistências se refletem no território. Ambas as dissertações foram orientadas pelo professor Leandro Vieira Cavalcante, do Departamento de Geografia do Ceres e coordenador do Grupo SEMIAR.

A ação de extensão tratou da validação social das duas pesquisas de mestrado, momento em que as próprias mulheres da comunidade quilombola puderam debater seus resultados e discutir suas contribuições para o fortalecimento das estratégias comunitárias de resistência. O objetivo principal, para além de apresentar as pesquisas construídas coletivamente com as mulheres de Macambira, foi validar socialmente seus resultados.
A atividade contou com a participação de 90 pessoas, que puderam acompanhar as apresentações, bem como apontar as contribuições das pesquisas para o fortalecimento das lutas comunitárias de Macambira, além de reforçar o papel das mulheres quilombolas. Estiveram presentes no seminário mulheres dos municípios de Lagoa Nova, Bodó e Caicó, representando 10 grupos de mulheres, além de representantes da Cáritas Diocesana de Caicó, do coletivo Seridó Vivo e da UFRN, por meio do SEMIAR, da Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM) e do PPEUR.

As mulheres presentes falaram abertamente sobre o que acharam das dissertações e refletiram, coletivamente, sobre a importância das pesquisas. Por meio de um diálogo de saberes, as mestrandas e o orientador dialogaram com as quilombolas acerca das questões apresentadas. Ao final, foi realizado um ato simbólico de aprovação social das duas dissertações, que serão apresentadas às bancas examinadoras nos próximos dias.
De acordo com Ozeane Albuquerque, coordenadora de projetos sociais da Cáritas, a ação foi importante porque se propôs, desde o início, a construir o conhecimento juntamente com as mulheres, reforçando o papel social das dissertações e da própria Universidade. Além disso, a coordenadora ressaltou a importância de considerar o protagonismo das mulheres enquanto produtoras de conhecimento.
Segundo Idaianna Maria, quilombola de Macambira, as pesquisas possibilitaram perceber como as mulheres da comunidade são empoderadas e conscientes das problemáticas. Ela também destacou que foi emocionante ver a história da Macambira sendo contada pelas próprias mulheres, por meio das dissertações, e parabenizou o compromisso com a realização das pesquisas.
Para o professor Leandro Vieira, a atividade reveste-se de grande importância por se constituir como um espaço de validação social do conhecimento produzido a partir de pesquisas comprometidas com a ética e, politicamente, com a realidade da Comunidade Quilombola Macambira. Ainda segundo o docente, “ao socializar os resultados das dissertações construídas coletivamente com as mulheres quilombolas, rompe-se com a lógica acadêmica tradicional de produção isolada do saber, reconhecendo as mulheres como sujeitas centrais do processo investigativo”.

Para ele, “a ação reafirma a pesquisa como prática dialógica, em que a Universidade se coloca em relação horizontal com a comunidade, fortalecendo o reconhecimento dos saberes locais e das experiências vividas no enfrentamento aos conflitos decorrentes dos empreendimentos eólicos”.
De acordo com a mestranda Flávia Dantas, a validação social da pesquisa foi um momento muito importante de apresentação dos resultados da dissertação e de devolutiva do conhecimento à própria comunidade. “Como pesquisadora, foi muito gratificante receber a aprovação das quilombolas presentes no momento da apresentação, bem como o reconhecimento de suas próprias potencialidades e da resistência que produzem no território”, ressalta.
Já a mestranda Rachel Maximino destacou que “o momento de validação social foi muito emocionante. Ver que a pesquisa conseguiu transmitir o que as mulheres de Macambira vêm passando foi a maior vitória que eu poderia alcançar com a minha dissertação”. Após sua apresentação, Rachel se emocionou ao relembrar as idas a campo e os cafés compartilhados com as mulheres da comunidade.

“A Universidade deve realizar pesquisas que contribuam para a construção de um futuro mais justo para a população. Por isso, iniciativas como essas — tanto as pesquisas quanto as devolutivas —, assim como a atuação de grupos como o SEMIAR, são tão importantes”, destaca.
Por fim, o professor Leandro ressalta a necessidade de a Universidade ampliar seu diálogo com as comunidades tradicionais, ao mesmo tempo em que produz ações de pesquisa e extensão para e com os sujeitos dos territórios, com compromisso político, ético e acadêmico, a exemplo da práxis do grupo SEMIAR.
Imagens: Mylena Ália
Fonte: Agecom/UFRN





































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