A Polícia Militar do Rio Grande do Norte excluiu dos quadros da corporação dois policiais militares envolvidos no caso que ficou conhecido como “Viatura do Mal”, um dos maiores escândalos de corrupção já investigados dentro da instituição. A decisão foi publicada no Boletim Geral da última segunda-feira (22), encerrando a tramitação administrativa iniciada após as investigações da Operação Novos Rumos, deflagrada há 11 anos pelo Ministério Público do Estado.
Os dois policiais, ambos cabos já reformados, tiveram a exclusão confirmada pela corporação. A Polícia Militar não divulgou suas identidades nem informou se outros procedimentos administrativos relacionados ao caso ainda permanecem em andamento. A decisão representa o desfecho administrativo de um episódio que revelou um esquema de corrupção praticado durante patrulhamentos ostensivos na capital potiguar e que expôs fragilidades nos mecanismos internos de controle disciplinar das forças de segurança.
Mais do que a punição de dois militares, o caso reacende uma discussão sobre a velocidade com que processos administrativos disciplinares são concluídos no serviço público. Entre o início das investigações e a exclusão definitiva dos policiais decorreram mais de uma década, período em que o processo percorreu diferentes fases judiciais e administrativas.
Operação revelou esquema envolvendo patrulhamento policial
O caso veio à tona em 2015, quando o Ministério Público do Rio Grande do Norte deflagrou a Operação Novos Rumos. As investigações apontaram que policiais militares da viatura 924, pertencente ao 9º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento da Zona Oeste de Natal, estariam envolvidos em práticas como corrupção, furtos, tortura e facilitação do tráfico de drogas durante abordagens policiais.
Ao todo, 15 policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público. A investigação resultou na expedição de 12 mandados de prisão pela Vara da Auditoria Militar, cumpridos com apoio de equipes do Bope e do BPChoque.
Segundo o MP, interceptações telefônicas e escutas ambientais instaladas na própria viatura registraram conversas entre os policiais durante o serviço. Parte do material indicava negociações ilícitas, questionamentos sobre honestidade entre os próprios integrantes da equipe e relatos relacionados à prática de crimes durante o patrulhamento ostensivo.
Denúncias incluíam cobrança de propina e liberação de suspeitos
As investigações também identificaram relatos de suspeitos que teriam sido liberados após pagamento de dinheiro ou entrega de bens apreendidos durante as abordagens policiais.
De acordo com a apuração do Ministério Público, o esquema envolvia a utilização da própria estrutura policial para obtenção de vantagens ilícitas, comprometendo a finalidade do patrulhamento ostensivo e a confiança da população na atuação da corporação.
A gravidade das acusações fez com que a operação tivesse ampla repercussão estadual e nacional, tornando-se um dos episódios mais emblemáticos envolvendo desvios de conduta dentro da Polícia Militar potiguar.
Condenações ocorreram anos antes da exclusão administrativa
Embora a exclusão dos militares tenha sido publicada apenas agora, parte das consequências judiciais ocorreu anos atrás.
Em 2019, seis policiais militares envolvidos no caso foram condenados e presos em decorrência das investigações conduzidas pela Justiça Militar. A responsabilização criminal, no entanto, não encerrou automaticamente os procedimentos administrativos internos, que seguiram tramitando até a decisão publicada neste mês.
A diferença entre as duas esferas ajuda a explicar a longa duração do processo. Enquanto a condenação criminal depende do julgamento judicial, a exclusão dos quadros da corporação exige um procedimento administrativo próprio, com garantias de ampla defesa e análise disciplinar específica.
Caso expõe lentidão dos processos disciplinares
O intervalo de 11 anos entre a abertura das investigações e a exclusão definitiva dos policiais evidencia um problema recorrente nas instituições públicas brasileiras: a demora para conclusão de processos administrativos disciplinares.
Esse tipo de morosidade produz efeitos que vão além da responsabilização individual. Quanto maior o tempo necessário para concluir investigações e aplicar sanções, maior tende a ser a percepção de impunidade e menor a capacidade das instituições de demonstrar respostas rápidas a desvios de conduta.
No caso da segurança pública, essa questão ganha dimensão ainda maior porque envolve agentes responsáveis justamente pela aplicação da lei.
Desafio permanece além das punições
A exclusão dos dois policiais encerra uma etapa administrativa, mas não elimina as questões institucionais reveladas pela Operação Novos Rumos.
O caso mostrou que mecanismos de fiscalização interna, inteligência policial e atuação do Ministério Público são essenciais para identificar desvios dentro das corporações. Ao mesmo tempo, evidencia que a efetividade desses instrumentos depende não apenas da capacidade de investigar, mas também da rapidez na conclusão dos processos e na aplicação das sanções cabíveis.
Para a Polícia Militar do Rio Grande do Norte, o episódio permanece como um dos principais exemplos da necessidade de fortalecer mecanismos permanentes de controle interno, transparência e integridade institucional, reduzindo o tempo entre a descoberta de irregularidades e a adoção das medidas disciplinares correspondentes.






































































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