O crescimento do turismo nos parrachos de Perobas e Rio do Fogo levou o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) a recomendar uma série de mudanças na forma como a atividade é realizada na Área de Proteção Ambiental (APA) dos Recifes de Corais. A orientação foi encaminhada ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) e às prefeituras de Touros e Rio do Fogo após fiscalizações apontarem que o número de visitantes ultrapassou os limites previstos no Plano de Manejo da unidade de conservação.
Atualmente, o plano estabelece capacidade máxima de 100 visitantes por dia nos parrachos de Perobas e de 50 em Rio do Fogo. No entanto, inspeções realizadas pelos órgãos ambientais registraram a presença de até 400 turistas em apenas dois dias, cenário que, segundo o Ministério Público, aumenta os riscos de degradação dos recifes de corais e compromete a sustentabilidade da atividade turística na região.
Turismo impulsiona a economia, mas também amplia a pressão ambiental
Os parrachos do litoral Norte figuram entre os principais destinos de ecoturismo do Rio Grande do Norte. Passeios de lancha, mergulho e flutuação movimentam a economia de comunidades como Perobas e Rio do Fogo, gerando renda para barqueiros, guias, comerciantes, pousadas e restaurantes. O crescimento da procura, entretanto, passou a produzir impactos que desafiam a capacidade de suporte do ecossistema.
Segundo a Promotoria de Justiça de Touros, o excesso de embarcações e visitantes já provoca danos físicos às formações coralíneas e aumenta o risco de contaminação da água por combustíveis utilizados nas embarcações turísticas. Em ambientes de alta sensibilidade ecológica, pequenas alterações acumuladas ao longo do tempo podem comprometer processos naturais que levam décadas para serem restaurados.
Recomendação cria critérios para reduzir impactos
Entre as medidas propostas pelo MPRN está a adoção de critérios técnicos e sociais para autorizar as embarcações que operam nos parrachos. O documento recomenda limitar o embarque a uma embarcação por núcleo familiar, impedir a ancoragem direta sobre os recifes e proibir a fixação de cordas nas formações coralíneas, prática que pode provocar danos físicos ao ecossistema.
A recomendação também estabelece que operadores comunitários beneficiados pelo sistema de autorizações não mantenham vínculo empregatício formal em outras atividades, preservando o caráter social da política pública voltada às comunidades tradicionais que dependem economicamente do turismo. Além disso, o Ministério Público orienta que seja mantido o atual sistema de autorizações temporárias e de rodízio entre os operadores até a conclusão do Estudo de Capacidade de Carga da APA, previsto para o segundo semestre deste ano.
Preservar os recifes também protege a economia local
Na avaliação do biólogo e ambientalista Mário Gomes, ouvido pela reportagem original, controlar o acesso aos parrachos não significa restringir o turismo, mas criar condições para que ele permaneça economicamente viável no longo prazo. Segundo ele, os recifes respondem rapidamente ao excesso de visitantes, seja pelo pisoteio dos corais, pela movimentação intensa de embarcações ou pelo aumento da poluição.
O especialista ressalta que a conservação ambiental interessa diretamente às comunidades que vivem da atividade turística. Se os recifes perderem sua biodiversidade e beleza cênica, diminuirá também o principal atrativo responsável por movimentar a economia regional. Nesse cenário, os primeiros prejudicados tendem a ser justamente os trabalhadores e pequenos empreendedores que dependem diariamente da visitação.
O desafio é encontrar equilíbrio entre conservação e desenvolvimento
O caso dos parrachos de Perobas e Rio do Fogo ilustra um desafio cada vez mais presente no Rio Grande do Norte. O crescimento do turismo fortalece economias locais, amplia a geração de empregos e impulsiona investimentos em infraestrutura. Ao mesmo tempo, aumenta a pressão sobre ecossistemas frágeis que constituem justamente o patrimônio natural responsável por atrair visitantes.
Essa relação cria um paradoxo. Quanto maior o sucesso de um destino turístico, maior tende a ser a necessidade de disciplinar seu uso. Sem planejamento, fiscalização e limites técnicos, o próprio crescimento da atividade pode comprometer os recursos naturais que sustentam sua existência.
O que está em jogo para o Rio Grande do Norte
Os órgãos notificados terão prazo de 30 dias para informar ao Ministério Público se irão acatar as recomendações. Caso isso não ocorra, o MPRN poderá adotar medidas judiciais para garantir a proteção da área ambiental.
A discussão ultrapassa os limites de Perobas e Rio do Fogo. O Rio Grande do Norte aposta cada vez mais no turismo de natureza como estratégia de desenvolvimento econômico, mas essa expansão dependerá da capacidade do Estado de conciliar crescimento da atividade com preservação ambiental. Em áreas como os recifes de corais, onde a recuperação dos ecossistemas pode levar décadas, estabelecer regras de uso não representa um obstáculo ao turismo, mas uma condição para que ele continue gerando emprego, renda e desenvolvimento para as futuras gerações.






































































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