Entidades médicas pedem rigor na venda de colírios por risco de glaucoma
As principais entidades brasileiras ligadas à oftalmologia lançaram um manifesto cobrando maior rigor na venda de colírios e medicamentos à base de corticoides devido ao risco de desenvolvimento de glaucoma e cegueira irreversível associados ao uso indiscriminado desses produtos.
O documento foi divulgado nesta quarta-feira (21) dentro da campanha “24 Horas pelo Glaucoma”, voltada à conscientização sobre diagnóstico precoce e prevenção da doença ocular.
Segundo as entidades, a automedicação com colírios anti-inflamatórios e pomadas oftálmicas se tornou prática comum no Brasil, frequentemente sem acompanhamento médico adequado.
Corticoides podem provocar danos irreversíveis
Os especialistas alertam que o uso prolongado de corticoides pode alterar o funcionamento natural dos olhos e dificultar a drenagem do líquido intraocular.
Quando isso acontece, a pressão ocular sobe progressivamente e pode causar lesões permanentes no nervo óptico, levando ao glaucoma.
Segundo o manifesto, estudos indicam que entre 30% e 40% das pessoas que utilizam indiscriminadamente colírios ou pomadas oftálmicas com corticosteroides apresentam algum grau de elevação da pressão intraocular.
A presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), Maria Auxiliadora Frazão, afirmou que o país convive com uma lacuna regulatória que facilita automedicação e uso recorrente desses medicamentos sem supervisão médica.
Crianças estão entre os grupos mais vulneráveis
Segundo as entidades médicas, crianças e pessoas com histórico familiar de glaucoma estão entre os grupos mais suscetíveis ao agravamento rápido da pressão ocular provocado pelos corticoides.
A presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), Christiane Rolim de Moura, afirmou que o problema não envolve proibir tratamentos importantes, mas garantir acompanhamento seguro durante o uso dessas substâncias.
“São medicamentos fundamentais em várias doenças, mas que exigem acompanhamento adequado porque podem provocar consequências desastrosas quando utilizados sem controle”, afirmou.
As entidades também defendem maior participação de profissionais de outras especialidades médicas na conscientização sobre os riscos do uso prolongado de corticoides.
Metade dos casos de glaucoma não é diagnosticada
Segundo o manifesto, o Brasil possui cerca de 1,7 milhão de pessoas convivendo com glaucoma. No entanto, aproximadamente metade dos casos permanece sem diagnóstico.
As entidades afirmam que parte desse problema está relacionada:
- à ausência de sintomas nas fases iniciais;
- à dificuldade de acesso a consultas oftalmológicas de rotina;
- ao uso contínuo de medicamentos sem monitoramento especializado.
O glaucoma é considerado uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo justamente porque a perda visual causada pela doença não pode ser recuperada após o dano ao nervo óptico.
Automedicação revela fragilidade cultural e regulatória
O alerta das sociedades médicas expõe um problema estrutural recorrente do sistema de saúde brasileiro:
a normalização cultural da automedicação.
Grande parte da população passou a tratar medicamentos anti-inflamatórios, antibióticos e colírios como produtos de uso cotidiano relativamente inofensivos, frequentemente orientados por experiências pessoais, farmácias ou recomendações informais.
Isso cria um cenário particularmente perigoso no caso dos corticoides.
Porque os efeitos mais graves costumam surgir de forma lenta, acumulativa e silenciosa, fazendo com que muitos pacientes só descubram o problema quando já existe dano ocular permanente.
Farmácias se tornaram porta informal de diagnóstico
O caso também revela uma distorção importante no funcionamento do acesso à saúde no Brasil.
Diante da dificuldade de consultas rápidas no sistema público e dos altos custos da rede privada, farmácias acabam frequentemente funcionando como espaços informais de triagem e orientação médica para sintomas cotidianos.
Na prática, parte significativa da população substitui avaliação clínica especializada por compra direta de medicamentos.
Isso amplia consumo inadequado, uso prolongado sem acompanhamento e dificuldade de diagnóstico precoce de doenças silenciosas como o glaucoma.
Pressão sobre regulação deve crescer
A campanha das entidades médicas tende a ampliar pressão sobre órgãos reguladores e políticas de controle farmacêutico.
O debate envolve uma tensão permanente:
- facilitar acesso rápido a medicamentos;
- evitar uso indiscriminado de substâncias com potencial de causar danos graves.
E justamente porque colírios e medicamentos oftalmológicos costumam ser percebidos como produtos de baixo risco, especialistas defendem que a conscientização pública se torne tão importante quanto o próprio endurecimento das regras de venda.






































































Comentários