Cerca de 30% dos medicamentos distribuídos pela Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat) estão atualmente em falta em Mossoró, segundo confirmou a coordenação da unidade. O desabastecimento vem afetando pacientes que dependem de tratamentos contínuos e medicamentos de alto custo fornecidos pelo sistema público de saúde.
Entre os medicamentos em falta estão a hidroxiureia, utilizada no tratamento de doenças hematológicas, e a somatropina, hormônio usado em tratamentos de crescimento.
Segundo a coordenação da Unicat, grande parte dos medicamentos em falta está em processo de aquisição por meio de licitação.
Pacientes relatam interrupção e insegurança
O agricultor Fabiano Nogueira afirmou que a esposa está há mais de três meses sem conseguir receber hidroxiureia pela rede pública.
Segundo ele, a família passou a conviver com uma rotina de incerteza diante da dificuldade de acesso ao medicamento.
“Esse medicamento tem que ter, não pode ficar sem tomar. Se ficar sem, ela tem crise, tem dores”, relatou.
Fabiano afirmou ainda que já precisou recorrer à Justiça para garantir o tratamento da esposa e, em outras ocasiões, comprar o medicamento com recursos próprios para evitar interrupção terapêutica.
O caso revela um padrão recorrente no sistema público de saúde brasileiro:
quando medicamentos de uso contínuo deixam de ser fornecidos regularmente, o custo da instabilidade é transferido diretamente para famílias que frequentemente já vivem sob pressão financeira.
Mães relatam espera por hormônio de crescimento
Além da hidroxiureia, mães de crianças que dependem de somatropina também relataram dificuldades para conseguir acesso ao medicamento.
Algumas famílias afirmaram aguardar reposição há mais de um mês.
Segundo a coordenação da Unicat, a previsão é que a somatropina volte a ser disponibilizada no dia 20 de junho. A unidade informou ainda que o processo de compra já está em andamento e aguarda regularização do abastecimento.
Dependência de licitações fragiliza continuidade dos tratamentos
O problema expõe uma engrenagem estrutural da assistência farmacêutica pública no Brasil.
Grande parte dos medicamentos distribuídos pelo SUS depende de processos licitatórios longos, contratos de fornecimento, disponibilidade industrial e logística de distribuição interestadual. Quando uma dessas etapas falha, o impacto chega diretamente ao paciente.
Na prática, isso significa que tratamentos médicos contínuos frequentemente passam a depender não apenas da necessidade clínica, mas também da velocidade burocrática das compras públicas.
E justamente porque muitos desses medicamentos possuem alto custo, poucas alternativas terapêuticas e necessidade de uso permanente, qualquer atraso no fornecimento produz risco imediato de agravamento de saúde.
Judicialização revela limite operacional do sistema
O relato de pacientes recorrendo à Justiça para garantir medicamentos também evidencia outro fenômeno cada vez mais presente no SUS: a judicialização da saúde.
Quando o sistema falha em garantir acesso regular a medicamentos essenciais, famílias passam a acionar o Judiciário como mecanismo de obtenção emergencial de tratamentos.
Isso cria um ciclo institucional complexo.
De um lado, decisões judiciais ajudam pacientes a garantir acesso individual aos remédios. Do outro, a judicialização frequentemente desorganiza planejamento orçamentário e logística da própria rede pública de saúde.
Falta de medicamentos afeta mais do que tratamento clínico
O desabastecimento também produz efeitos que vão além da dimensão médica imediata.
Pacientes que dependem de tratamentos contínuos vivem sob necessidade permanente de estabilidade terapêutica. Quando o medicamento deixa de chegar regularmente, surgem insegurança emocional, interrupções clínicas e pressão financeira sobre famílias que muitas vezes precisam escolher entre comprar remédios caros ou manter outras despesas básicas.
Isso transforma a assistência farmacêutica em algo maior do que simples distribuição de medicamentos.
Ela se torna parte da própria capacidade do sistema público de garantir continuidade de vida, previsibilidade terapêutica e proteção social para pacientes crônicos e vulneráveis.







































































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