Chuvas fazem 22 açudes sangrarem no RN, mas crise hídrica persiste no Seridó
As chuvas recentes que atingiram o interior do Rio Grande do Norte provocaram uma reviravolta parcial no cenário hídrico do estado. Segundo relatório técnico do Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn), 22 açudes já atingiram 100% da capacidade e começaram a sangrar após a recarga provocada pelas precipitações das últimas semanas.
O levantamento aponta que o nível de 30 reservatórios subiu rapidamente durante o período chuvoso, alterando significativamente o mapa hídrico potiguar.
Entre os mananciais que entraram recentemente na lista de sangria estão:
- açude Flechas, em José da Penha;
- Rodeador, entre Umarizal e Rafael Godeiro;
- Gangorra, em Rafael Fernandes.
O açude Flechas registrou aumento de quase 34% no volume acumulado antes de começar a transbordar.
Reservatórios críticos seguem em situação dramática
Apesar da melhora em parte do estado, o relatório do Igarn mostra que a crise hídrica permanece severa em várias regiões do RN.
Dez reservatórios continuam operando em volume morto ou situação crítica, todos com menos de 10% da capacidade total.
A situação mais grave segue concentrada no Seridó.
O tradicional açude Itans, em Caicó, possui apenas 0,74% da capacidade. Já o reservatório Passagem das Traíras, em São José do Seridó, praticamente secou, mantendo apenas 0,14% do volume disponível.
Em Currais Novos, o açude Dourado permanece em estado crítico com apenas 4,40% da capacidade total.
Estado ultrapassa metade da capacidade hídrica
Segundo os dados divulgados pelo Igarn, as reservas hídricas superficiais do RN somam atualmente 2,85 bilhões de metros cúbicos, o equivalente a 53,87% da capacidade total dos 69 reservatórios monitorados pelo órgão.
A barragem Armando Ribeiro Gonçalves, maior reservatório do estado, acumula 44,79% do volume máximo.
Outros açudes também registraram recuperação expressiva.
O açude Brejo, em Olho D’Água do Borges, saiu de 12,61% para 82,57% da capacidade após as chuvas recentes. Já o açude Tourão, em Patu, atingiu 62,32% do volume armazenado.
RN convive com duas realidades hídricas simultâneas
O cenário atual revela uma característica estrutural da geografia hídrica potiguar:
o estado frequentemente convive simultaneamente com abundância localizada e escassez extrema.
As chuvas não se distribuem de maneira homogênea pelo território. Isso faz com que determinadas bacias hidrográficas consigam recuperar rapidamente reservatórios enquanto outras permanecem sob forte estresse hídrico mesmo durante anos considerados bons.
Na prática, o problema da água no semiárido nordestino não depende apenas da quantidade de chuva.
Depende também da capacidade de armazenamento, distribuição, integração hídrica e gestão territorial dos reservatórios.
Crise hídrica expõe vulnerabilidade histórica do Seridó
O caso do Seridó revela uma vulnerabilidade estrutural histórica do interior potiguar.
A região possui clima mais seco, maior irregularidade pluviométrica e forte dependência de reservatórios estratégicos para abastecimento humano e atividades econômicas.
Quando grandes açudes como Itans ou Passagem das Traíras entram em colapso, os impactos ultrapassam abastecimento doméstico.
Eles atingem agricultura, pecuária, comércio local, produção rural e estabilidade econômica regional.
E justamente porque o semiárido depende fortemente da capacidade de armazenar água nos poucos períodos chuvosos disponíveis, anos consecutivos de baixa recarga produzem efeitos acumulativos difíceis de reverter rapidamente.
Mudanças climáticas ampliam instabilidade hídrica
A alternância extrema entre açudes sangrando e reservatórios praticamente secos também evidencia outro fenômeno cada vez mais presente no Nordeste:
a intensificação da irregularidade climática.
Eventos concentrados de chuva forte convivem com períodos prolongados de estiagem, dificultando previsibilidade hídrica e planejamento de longo prazo.
Isso transforma gestão da água em uma questão estratégica permanente para o RN.
Porque o desafio deixa de ser apenas enfrentar seca episódica e passa a envolver adaptação contínua a ciclos climáticos mais instáveis, imprevisíveis e desiguais dentro do próprio território potiguar.







































































Comentários