Em 2025, nove estados brasileiros registraram juntos 4.330 mortes decorrentes de ações policiais, número que representa aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. Desses óbitos, 3.014 tiveram como vítimas pessoas negras — pretas ou pardas — o equivalente a 86,3% do total, segundo a 7ª edição do relatório Pele Alvo – Entre Racismo e Letalidade, produzido pela Rede de Observatórios da Segurança.
O estudo reúne dados do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo e identifica um padrão persistente: apesar das oscilações nos índices de criminalidade e das transformações na dinâmica do crime organizado, o perfil predominante das vítimas permanece praticamente inalterado. Homens jovens, negros e moradores de áreas periféricas continuam concentrando a maior parcela das mortes provocadas por intervenções policiais.
Mais do que um retrato estatístico, os números indicam uma desigualdade estrutural na distribuição dos riscos associados à política de segurança pública brasileira. O relatório sustenta que a letalidade policial não se distribui de maneira homogênea entre os grupos sociais, atingindo de forma desproporcional determinados segmentos da população.
Pesquisadores apontam permanência do perfil das vítimas
Segundo os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, mesmo com alterações recentes nos padrões da violência urbana e com a expansão das facções criminosas em diferentes regiões do país, os alvos preferenciais das ações letais do Estado continuam sendo os mesmos.
O relatório afirma que homens, jovens e negros permanecem no centro da dinâmica da violência letal, independentemente das mudanças registradas nos cenários locais de segurança pública. Para os autores, a persistência desse padrão exige uma discussão mais ampla sobre os critérios utilizados na formulação das políticas públicas de combate ao crime.
A pesquisa também chama atenção para o fato de que, em determinados estados, a probabilidade de uma pessoa negra morrer em uma intervenção policial é significativamente superior à de outros grupos populacionais.
Estados apresentam características distintas da letalidade policial
O levantamento apresenta recortes específicos para cada unidade da federação analisada.
No Amazonas, 75% das mortes foram provocadas pela Polícia Militar, enquanto Manaus concentrou 37,2% dos casos registrados. No Maranhão, 67,6% das vítimas tinham até 29 anos de idade. Já no Pará, quase 90% das mortes decorreram de ações da Polícia Militar, acumulando mais de quatro mil registros em sete anos.
Em Pernambuco, Recife respondeu por 12,4% das vítimas contabilizadas no estado. No Piauí, 85% das vítimas eram negras, enquanto no Rio de Janeiro o relatório aponta crescimento de 13,8% no número de mortes provocadas por agentes de segurança.
Os pesquisadores também destacam dificuldades históricas na produção de dados em alguns estados, especialmente no registro da identificação racial das vítimas, o que pode comprometer análises mais precisas sobre o fenômeno.
Debate envolve segurança pública e desigualdade racial
O relatório argumenta que a letalidade policial deve ser analisada não apenas sob a perspectiva do enfrentamento à criminalidade, mas também como um indicador das desigualdades existentes na sociedade brasileira.
Para os autores, compreender quem morre em ações policiais ajuda a identificar quais grupos estão mais expostos à violência institucional e quais mecanismos sociais podem contribuir para a reprodução desse padrão ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, secretarias estaduais de segurança pública afirmam que as operações seguem protocolos legais e técnicos e ressaltam que mortes decorrentes de intervenção policial são submetidas a mecanismos de controle interno, investigações e acompanhamento pelos órgãos competentes.
O que os dados dizem sobre o Rio Grande do Norte
Embora o Rio Grande do Norte não integre os nove estados analisados pelo estudo, os resultados dialogam com discussões que também estão presentes no estado, especialmente diante do crescimento do debate sobre uso da força, monitoramento da atividade policial e transparência dos indicadores de segurança pública.
Nos últimos anos, pesquisadores, entidades de direitos humanos e instituições ligadas à segurança têm defendido o aperfeiçoamento dos bancos de dados e a ampliação da divulgação de informações sobre intervenções policiais, permitindo análises mais detalhadas sobre perfil das vítimas, circunstâncias das ocorrências e impactos sociais da violência letal.
O relatório da Rede de Observatórios da Segurança reforça que a discussão sobre segurança pública no Brasil envolve não apenas a redução da criminalidade, mas também a compreensão sobre quem paga o maior custo humano das estratégias de enfrentamento adotadas pelo Estado.


































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