A engorda de Ponta Negra transformou a paisagem de um dos cartões-postais mais conhecidos de Natal. Mas, para além das discussões técnicas e dos debates travados entre prefeitura, órgãos ambientais e especialistas, existe uma história contada por quem vive diariamente o território afetado pelas intervenções. É justamente essa perspectiva que o documentário Maré Cheia: entre rendas, redes e resistência pretende colocar no centro da discussão.
A produção será lançada na próxima quarta-feira (10), no auditório da Biblioteca Central Zila Mamede, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e reúne depoimentos de moradores da Vila de Ponta Negra, pesquisadores, representantes de órgãos públicos e integrantes de instituições que acompanharam as mudanças ocorridas na praia nos últimos anos.
A praia mudou; a comunidade também
Entre os relatos presentes no documentário estão depoimentos de moradores que associam as transformações físicas da praia a mudanças profundas na dinâmica da comunidade tradicional instalada na região.
Uma das entrevistadas é a rendeira Maria Helena, que descreve a sensação de ruptura provocada pelas intervenções realizadas na orla. Em seu depoimento, ela afirma que a praia conhecida pela comunidade deixou de existir da forma como era percebida antes das obras.
O documentário também aborda os efeitos das alterações sobre atividades historicamente ligadas à Vila de Ponta Negra, como a pesca artesanal e a produção de renda de bilro, práticas que ajudam a compor a identidade cultural da comunidade.
A discussão vai além da engenharia
Segundo os responsáveis pela produção, o objetivo não é produzir uma obra contra a engorda da praia, mas registrar como o processo foi vivido pelos moradores e quais impactos eles identificam no cotidiano da comunidade.
A narrativa reúne diferentes perspectivas sobre as intervenções realizadas na orla e incorpora discussões relacionadas a questões ambientais, urbanísticas e sociais. Também participam do documentário pesquisadores, integrantes do Ministério Público Federal e especialistas que acompanharam debates e estudos envolvendo a obra.
A proposta é deslocar o foco da discussão exclusivamente técnica para incluir experiências de quem vive no território diretamente afetado pelas mudanças.
Quem fala quando a obra termina?
Grandes intervenções urbanas costumam ser avaliadas por indicadores de engenharia, turismo ou valorização imobiliária. O documentário parte de outra pergunta: o que acontece com as comunidades tradicionais depois que as máquinas vão embora?
Ao reunir depoimentos de moradores da Vila de Ponta Negra, a produção tenta registrar uma dimensão frequentemente ausente dos debates públicos: a percepção daqueles que convivem diariamente com as consequências das decisões tomadas sobre o território onde vivem.
Exibição será seguida de debate
Após a sessão de estreia, os organizadores promoverão uma roda de conversa com convidados e participantes do projeto. A proposta é ampliar a discussão sobre os temas apresentados no documentário e abrir espaço para diferentes visões sobre os impactos das intervenções realizadas na praia de Ponta Negra.
Mais do que registrar uma obra urbana, Maré Cheia: entre rendas, redes e resistência procura documentar uma disputa que continua aberta em Natal: quem tem o direito de definir o futuro de um território e quais vozes são ouvidas quando esse futuro começa a ser construído.





































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