O preço do gás de cozinha começou a subir no Rio Grande do Norte após reajuste repassado às distribuidoras, e o impacto já preocupa consumidores, revendedores e economistas. Segundo o Sindicato dos Revendedores Autorizados de Gás Liquefeito de Petróleo (Singás/RN), o aumento ao consumidor final deve variar entre R$ 8 e R$ 9 por botijão.
Com isso, o valor do GLP no estado poderá alcançar entre R$ 120 e R$ 125 nos próximos dias, dependendo da região e da velocidade de repasse pelos estabelecimentos.
Alta do diesel pressiona toda a cadeia de distribuição
Segundo o presidente do Singás/RN, Ivo Lopes, o reajuste não decorre apenas do preço do gás em si, mas também do aumento acumulado do diesel, que afeta diretamente a logística de distribuição.
“Na hora que você tem aumento, reduz o consumo. O poder de compra reduz”, afirmou.
A estrutura de distribuição do GLP depende fortemente do transporte rodoviário. Isso faz com que aumentos sucessivos no diesel acabem pressionando toda a cadeia até chegar ao consumidor final.
No Rio Grande do Norte, o problema é ampliado por fatores regionais como custos de transporte, menor escala de distribuição e carga tributária estadual.
Distribuidores relatam queda nas vendas
Revendedores já começaram a sentir impacto direto no consumo.
Bruno Souto, gerente comercial da Mega Gás, afirmou que parte das distribuidoras enfrenta desaceleração nas vendas e aumento de estoques devido à perda do poder de compra da população.
Segundo ele, o setor já vinha pressionado pelos reajustes anteriores dos combustíveis.
“A gente já vinha sofrendo uma pressão muito alta pelo aumento do diesel, e ainda fomos surpreendidos com mais um aumento no preço do produto”, declarou.
O empresário Edmilson Silva, da Ultragaz Edx, também relatou dificuldade de repassar integralmente o reajuste sem perder clientes.
Segundo ele, alguns distribuidores já avaliam até suspender programas populares de fornecimento do chamado “gás do povo”, devido à redução das margens e à expectativa de queda no consumo.
Famílias de baixa renda sentem impacto mais imediato
O aumento do GLP possui efeito particularmente agressivo sobre famílias de baixa renda porque o gás de cozinha é um item de consumo essencial e de baixa elasticidade.
Na prática, isso significa que as famílias não conseguem simplesmente deixar de consumir o produto, mesmo diante de aumentos sucessivos.
A consumidora Francisca Aurelina relatou que o peso do gás no orçamento doméstico vem se tornando cada vez mais difícil de administrar.
“Tudo aumenta, menos o salário mínimo”, afirmou.
A professora Maria de Fátima Souza também relatou preocupação com a necessidade de cortar outras despesas para conseguir manter o consumo doméstico básico.
Economistas alertam para efeito inflacionário
O economista Hélder Cavalcanti explica que o gás de cozinha possui impacto direto e indireto sobre a inflação porque integra o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Mas os efeitos vão além do orçamento doméstico.
Restaurantes, pequenos comércios, vendedores ambulantes, lanchonetes e produtores alimentícios também dependem diretamente do GLP para manter suas atividades funcionando. Isso faz com que aumentos do gás acabem se espalhando para diversos setores da economia.
Segundo o economista, o encarecimento contínuo do produto também aumenta o risco de substituição por alternativas mais precárias e perigosas, como lenha e carvão.
Esse fenômeno já ocorreu em outros períodos de forte pressão inflacionária no Brasil, especialmente entre famílias mais vulneráveis.
Preço do gás revela fragilidade estrutural do custo de vida
O caso do gás de cozinha expõe uma engrenagem econômica mais profunda do que um simples reajuste pontual.
No Brasil, itens essenciais como alimentação, energia e gás doméstico funcionam como indicadores diretos da capacidade de sobrevivência das famílias de baixa renda. Quando esses produtos sofrem aumentos sucessivos, o impacto não fica restrito ao consumo imediato: ele reorganiza todo o orçamento doméstico.
Famílias passam a reduzir alimentação, lazer, transporte e outras despesas básicas para absorver o aumento de itens indispensáveis.
E justamente por atingir um produto essencial, o reajuste do gás se transforma rapidamente em pressão social ampla — especialmente em estados onde renda média, informalidade e vulnerabilidade econômica tornam a capacidade de absorção desses aumentos ainda mais limitada.








































































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