Um corpo de três mil quilômetros é um desejo e uma alucinação. Não me conformo com a ideia de ter um metro e setenta e cinco, se quem eu amo se espalha por um país continental.
É fato que cresci muito desde que nasci, mas meu corpo segue sendo o de um bebê perante a imensidão do que existe. Minhas mãos são insuficientes para alcançar as pessoas que eu preciso acarinhar e, assim, elas me faltam e eu falto a elas.
Mamíferos dormem juntos para garantir calor, e a saudade é fria como uma faca. Gostaria de cortar o tecido que nos separa e puxar o espaço até se formar um botão. Estaríamos juntos e ilhados em um grande abraço que poderia durar um minuto; bastaria para desatar alguns nós. Sonho com quem amo, porque a imaginação é dada a passeios e, assim, pulo as catracas que a imanência me impõe.
Por outro lado, penso que, se um corpo do tamanho da saudade consegue se acomodar no meu, é sinal de que tenho dimensões maiores do que se vê. Um dia, escrevi “meu corpo é minha sede, mas tenho filiais”, e me percebo pulverizada em tantos lugares que três mil quilômetros seriam modestos.
Estou nas memórias, nos álbuns, nas telas, e é como se cada pessoa fosse um roteador conectado a uma rede. Sou pequena, é verdade, mas o que integro ultrapassa a superfície da epiderme. O centro da Terra me puxa para baixo, e enxergo estrelas a anos-luz. Não há como insistir em um corpo limitado se ele vive a experiência de algo maior.
Envio te amos por massas de ar.
Imagem: Reprodução
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.

































































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