Há uma ordem que não nasce da justiça, mas do medo. Não brota de pacto; emerge da coerção: instala-se quando o mais forte deixa claro que resistir custará caro demais. Roma batizou isso de Pax Romana. Donald Trump, com a sutileza de um porrete e a vaidade de um imperador de cassino, tenta reencenar o mesmo princípio no século XXI: estabilidade global garantida pelo músculo, soberania tratada como mercadoria e dignidade reduzida a detalhe diplomático.
A Pax Romana funcionava nesses mesmos moldes, fabricando uma tranquilidade adulterada, cuja “eficácia” era medida quando o que restava era o silêncio dos dominados. Vejam bem: não se tratava de concordância com as decisões insidiosas de Roma (longe disso…), nem de um mundo subitamente reconciliado. Era outra coisa, muito mais sombria: as forças já não bastavam para continuar enfrentando injustiças tão evidentes quanto indesculpáveis. Em resumo, aquela quietude era apenas o atestado de vitória do valentão.
É por isso que a denúncia do historiador romano Tácito, mesmo tendo quase dois milênios, permanece atual como se tivesse sido escrita ontem. Ele descreve a lógica do império com a frieza de uma sentença:
“Saquear, assassinar e usurpar com base em mentiras, eles chamam de Império; e onde criam um deserto, eles chamam de paz.”
Não é ornamento literário: é radiografia moral. E é precisamente esse mecanismo que Trump tenta normalizar: coerção como método, intimidação como linguagem, e silêncio alheio usado como certificado de “ordem”.
A Groenlândia, nas últimas semanas, virou o símbolo perfeito desse retorno. Não pela ilha em si, mas pelo que ela representa quando passa a ser tratada como ativo negociável: um lugar que deixa de ser lar e vira item de prateleira; deixa de ser povo e vira peça; deixa de ser direito e vira preço.
Trump voltou a falar do território como se fosse extensão natural do poder americano. O enredo seguiu a cartilha: bravatas públicas, ruído de força, pressão econômica, e o constrangimento imposto aos aliados como se fosse simples jogo de cintura. Depois, quando o mal-estar europeu começou a endurecer, veio o recuo performático. Em Davos, Trump suavizou o tom e afastou a hipótese militar, como se isso apagasse a violência moral deixada no caminho.
Só que a ameaça já tinha cumprido sua função. Porque impérios não precisam necessariamente atacar para vencer: muitas vezes basta dissuadir. O efeito desejado não é a invasão em si, mas o reflexo condicionado do outro lado: ceder antes que a mão desça.
O blefe corporativo e a chantagem como doutrina
Há quem trate esse comportamento como estilo: a técnica agressiva de negociação importada do universo empresarial. É verdade que Trump nada nesse esgoto com naturalidade. Sua biografia inteira é esse teatro: pressão, humilhação, imposição e autopromoção. Para ele, limites são apenas obstáculos temporários; um “não” serve como porta de entrada para a insistência.
Só que existe um abismo entre blefe de contrato e chantagem geopolítica.
No balcão privado, o custo costuma ser financeiro. Na arena internacional, o preço envolve soberania, vidas, destinos coletivos. Um empresário pode agir como predador e sair com fama de “duro”. Já um chefe de Estado que exporta esse método produz instabilidade em escala planetária.
A perversidade está na lógica: Trump não apenas ameaça, ele testa. Observa as reações. Mede a covardia. Calcula o silêncio. E, quando percebe que o constrangimento compensa, transforma o abuso em rotina.
É assim que impérios renascem: não com trombetas, mas com a passividade cúmplice de quem insiste em chamar crime de “negociação”.
Legiões, dissuasão e a paz que nasce da ameaça
Roma não precisava vencer apenas no campo de batalha. Bastava que o mundo soubesse que ela podia vencer. A legião era mais do que arma: era linguagem. Seu poder não residia somente no choque do ferro, mas na promessa embutida em cada estandarte. A simples possibilidade de marcha dissolvia resistências, apressava rendições, dobrava cidades inteiras antes mesmo do primeiro golpe. Em muitos casos, o império triunfava sem guerra porque já havia triunfado no imaginário.
Essa era a engenharia íntima da Pax Romana: uma “ordem” edificada sobre a certeza do castigo. O silêncio não surgia como conciliação, mas como cansaço; não como pacto, mas como cálculo; não como concordância, mas como desistência. A paz era, na prática, a interrupção da coragem.
Trump tenta restaurar esse mecanismo em linguagem contemporânea. Seu império não marcha com sandálias e estandartes, mas com o aparato militar mais poderoso do planeta pairando como sombra permanente. Sim, há tarifas, sanções e asfixia econômica, mas tratá-las como eixo único seria ingenuidade. Elas funcionam como primeiro degrau do constrangimento: a porta pela qual se entra no quarto escuro da submissão.
E, quando quer deixar isso explícito, Trump não disfarça. Em Davos, resumiu seu método em duas linhas que deveriam envergonhar qualquer chancelaria que ainda finja não entender o jogo:
“Vocês podem dizer sim e seremos muito gratos, ou podem dizer não, e nós nos lembraremos.”
Nessa frase está tudo. O “sim” não é acordo: é obediência premiada. O “não” não é divergência legítima: é afronta cuja punição será cobrada depois, no formato e no tempo que o império decidir. Não é negociação; é chantagem com vocabulário de etiqueta.
Na Venezuela, essa lógica já ultrapassou o teatro verbal: pressão real, musculatura aplicada sobre fluxos estratégicos, soberania reduzida a obstáculo. Na Europa, no episódio da Groenlândia, bastou o espectro: a insinuação de força militar provocou tremor diplomático, como se o mundo tivesse voltado a uma era em que territórios se discutiam no grito e na ameaça. Em ambos os casos, muda o palco, não o método: não se busca consenso, busca-se obediência.
E aí mora o ponto mais sombrio: o “deserto” não precisa vir em forma de cinzas. Pode vir como economia estrangulada, governo encurralado, instituição dobrada, sociedade ensinada a calar. Hoje, o império fabrica quietude sem incendiar cidades, desde que consiga algo mais valioso: a resignação.
O “Conselho da Paz”: o auditório global do ego
O episódio do chamado Conselho da Paz é a caricatura perfeita do trumpismo: uma proposta que usa o vocabulário da cooperação internacional para encobrir o personalismo mais grotesco.
O desenho institucional dessa aberração do Direito Internacional mal se dá ao trabalho de disfarçar a egolatria típica de um riquinho mimado. Não há, ali, qualquer esforço real de equilíbrio entre nações, tampouco uma tentativa minimamente séria de construir governança global: o que se vê é um palco desenhado para engrandecer um homem e rebaixar todo o resto.
Trata-se, essencialmente, de uma paródia bizarra do Conselho de Segurança da ONU, porém com diferenças ainda mais preocupantes. Trump será o presidente vitalício; os Estados Unidos concentrarão o poder de veto; e, de quebra, caberá exclusivamente ao próprio Trump decidir quem entra e quem sai desse clubinho particular. Em outras palavras: os demais países não passam de uma plateia de espectadores, com direito apenas a aplaudir, sorrir e dizer “sim” incondicionalmente.
E o mais grave é que isso não está sendo tratado como piada de mau gosto, mas como proposta. A Reuters noticiou a iniciativa e descreveu o formato discutido no entorno de Trump, revelando o grau de concentração de poder embutido na “arquitetura” do projeto. Quando uma aberração dessas se apresenta com terno e microfone, e ainda encontra interlocutores dispostos a debater seus detalhes como se fosse um novo tratado civilizatório, o problema já não é só Trump: é o mundo disposto a normalizar o delírio.
Hitler e Trump: a semelhança que importa não está no bigode
A história raramente replica personagens; ela reapresenta métodos. E, no caso do autoritarismo, ele segue uma gramática antiga: o homem forte aparece como cura, o mundo é pintado como decadente, um inimigo é eleito como praga, e a violência recebe verniz de virtude. Primeiro vem a retórica. Depois, a normalização. Por fim, a conversão da brutalidade em política de Estado.
Hitler não ergueu Auschwitz num acesso súbito de loucura. O horror foi precedido por degraus: propaganda, culto, disciplina social, desumanização do “outro”, guerra contra a imprensa, demonização de opositores, corrosão de instituições. Enquanto isso, parte da elite europeia tentava manter negócios e “estabilidade”, tratando agressões como detalhe negociável. A cada concessão, o agressor aprendia. A cada silêncio, ganhava incentivo.
O alerta histórico é simples e brutal: monstros evoluem quando o custo de ser monstro é baixo.
Trump opera sob lógica semelhante, só que adaptada ao século XXI. Ele não precisa de desfiles paramilitares para instalar uma ética de dominação. Basta o espetáculo permanente, a propaganda em tempo integral, a fabricação do inimigo interno e externo, a intimidação como linguagem internacional.
Ele pressiona aliados como quem chantageia devedores. Trata soberania como inconveniência. Testa limites com prazer infantil. Se encontra resistência, dobra o volume. Se vê recuo, avança. Quando o mundo reage, dá um passo atrás e posa de sensato, como se estivesse evitando aquilo que ele próprio ameaçou. É a coreografia clássica do abusador: estica o elástico, mede o estrago, aprende até onde pode ir.
E aí entra a Europa em sua tradição mais patética: o apaziguamento, esse nome educado para um comportamento indigno. A tentativa de comprar tranquilidade cedendo ao agressor. A crença tola de que o valentão chantagista ficará satisfeito depois de arrancar só “um pedaço”. Não fica. Nunca fica. Concessão não acalma expansionismo: educa o expansionista.
Foi assim nos anos 1930 com Hitler. Volta a ser assim agora, com vocabulário novo e covardia antiga. Hoje o ultimato pode vir embrulhado em tarifa. A anexação pode ser ensaiada em conferência internacional. A humilhação pode ser transmitida ao vivo. O objetivo, porém, permanece idêntico: substituir Direito por força, transformar chantagem em diplomacia, rebatizar submissão de “realismo”.
Se a humanidade aprendeu alguma coisa com Hitler, é isto: autoritarismo não se acomoda, não se normaliza, não se administra. A primeira fase da barbárie raramente chega com sangue na roupa. Ela aparece bem vestida, falando em ordem, segurança, grandeza e “paz”. O que assusta hoje não é apenas Trump. É um mundo que, tendo o manual da tragédia em mãos, insiste em repetir o erro como se tivesse escolhido a amnésia por conveniência.
ICE e Gestapo: a caça aos “não-humanos”
A comparação entre ICE e Gestapo não nasceu da fantasia de um articulista indignado. Ela se tornou recorrente porque certos métodos gritam por si. Quem tem memória histórica reconhece o cheiro de um Estado que caça.
A Gestapo foi polícia política do regime nazista, instrumento de perseguição e terror institucionalizado, conforme descrevem instituições de memória histórica como o Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Era o braço que materializava a doutrina: o Estado acima do indivíduo, a violência acima da lei, o medo como disciplina social.
É exatamente por isso que tanta gente olha para operações migratórias agressivas e enxerga a rima moral.
Quando agentes invadem comunidades tratadas como guetos de “estrangeiros”, arrancam pessoas de suas casas com violência, as levam para destinos obscuros e dificultam o contato com familiares, não se está diante de simples aplicação de norma. Isso é teatro de poder. Um espetáculo punitivo planejado para humilhar e amedrontar o grupo inteiro, não apenas o indivíduo detido.
A linguagem também denuncia o projeto. Trump já se referiu a imigrantes como “animais”. Essa palavra não é gafe. É técnica. A desumanização não aparece por acaso: ela prepara a sociedade para aceitar brutalidade como se fosse necessidade.
O século XX ensinou que ninguém é perseguido de um dia para o outro. Primeiro, a vítima é rebaixada. Depois, o abuso é normalizado. Por fim, o castigo vira política pública. E então… chamam isso de ordem.
Roma também precisava de bárbaros.
Todo império precisa de um alvo para justificar a própria violência.
Goebbels sem Ministério: propaganda como clima
Goebbels organizou propaganda como Estado. Trump opera propaganda como ecossistema. Hoje, não é preciso um ministério para fabricar realidade: basta rede social, aliados midiáticos, repetição incansável e guerra permanente contra qualquer árbitro do fato.
Organizações como o Committee to Protect Journalists (CPJ) documentaram, em 2020, a escalada de ataques de Trump à imprensa e o incentivo sistemático ao descrédito do jornalismo. A estratégia é simples: destruir a confiança do público no instrumento que verifica.
Há também números incontornáveis. O serviço de checagem do Washington Post contabilizou 30.573 declarações falsas ou enganosas feitas por Trump durante seu primeiro mandato, levantamento publicado em 2021. Não é “exagero”. Não é “estilo”. Não é “erro”. É indústria.
E indústria serve a um objetivo: não convencer todos, mas cansar os honestos. Não produzir verdade alternativa, mas demolir o próprio conceito de verdade. Quando ninguém confia em nada, sobra apenas a fé no líder. E fé política é sempre um prelúdio de tragédia.
Santayana avisou…
O filósofo e humanista espanhol George Santayana escreveu que “aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la”. A frase sobrevive porque continua doendo: ela aponta uma fraqueza humana que atravessa épocas, línguas e regimes.
O que se vê hoje é ainda pior do que ignorância: é escolha.
O planeta entende o que está acontecendo. Enxerga a chantagem. Reconhece o método. Percebe o abuso. Só que, diante disso, prefere negociar. Prefere contornar. Prefere engolir. Prefere salvar contratos.
E aí a covardia muda de nome. Chama-se diplomacia.
A submissão também troca de roupa. Vira pragmatismo.
O silêncio comprado por medo passa a ser vendido como estabilidade.
Roma saqueava, assassinava, usurpava e chamava isso de Império. Depois criava um deserto e chamava aquilo de Pax. Trump ameaça, constrange, chantageia e chama isso de ordem global. E o mundo, preocupado com conveniências, assina embaixo.
Só que a história não respeita eufemismos.
Ela cobra e entrega consequências futuras que nascem no hoje.
Por Otaviano Lacet*


































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