A raiva goteja dentro de mim, escorre como infiltração, escalda. Monstrengo de olhos esbugalhados, escova sanitária que desce a garganta. A raiva me constrange e incita, formigueiro sereno até que pisem nele. Ferroada, combustão, vulcão em atividade.
Minha raiva pode não inaugurar uma cascata de insultos, mas não deixa de bater. Ficará nas bochechas, testa e língua. Não digo que é confusão, raiva é lucidez e pode andar com o amor; cabe a ele entender que ela não é seu espelho e o amor é capaz disso. Meu amor diz à minha raiva que tudo bem ela dar voltas no corpo, mas não cuspa de imediato. A raiva se vira com o rosto enrugado de contrair, lembra muito a dor.
A raiva não é peixe de aquário. Dou-lhe o mar e ela nada, vigorosa, olímpica, como nenhuma paz poderia fazer. Deixo que fale, que descreva pés gigantes em seu formigueiro. A raiva é uma dor com sede de vingança, artefato como o fogo; cão de guarda que veio com a casa e do qual não há como se desfazer. Melhor aprender a direcionar a chama e a se relacionar com o animal. Ignorar sua existência faz de nós, exatamente, ignorantes. Pessoas pacíficas também sentem raiva, desconfie se alguém disser que não.
Depois de suas corridas e chutes no espaço, ela deita, cansada, o corpo amornando. A raiva é incendiária, mas até ela cansa e até ela cede. A raiva é um acerto de contas, uma criança em uma cama elástica, lutando contra a própria estatura, buscando morder o céu.
Imagem: Reprodução
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.



































![[VÍDEO] Motociclista morre após ser atingido por viatura na BR-304 em Mossoró](https://www.jolrn.com.br/wp-content/uploads/2026/04/IMG_6085-360x180.png)





































