Um grupo com sete cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) criou um produto para ser usado no tratamento da água, tornando-a propícia ao consumo humano. O invento é um floculante, modificado quimicamente, à base de extrato de castanhola. Como o nome indica, a tecnologia atua no momento da floculação, uma das etapas de purificação da água, momento em que partículas pequenas são suspensas, formando flocos maiores e mais fáceis de serem removidos. Essa agregação é facilitada pela adição de agentes químicos, justamente os floculantes, que ajudam a unir as partículas.
“A invenção situa-se na área de saneamento, no tratamento de água para clarificação de águas residuais para o consumo humano, tratamento de águas efluentes e remoção de turbidez de água. O produto é tão eficiente quanto os produtos existentes no mercado, trazendo benefícios como redução de lodo e maior tempo de vida útil dos equipamentos evitando corrosão. E quando comparado aos químicos, que é a maioria disponível no mercado, quanto a seus problemas ambientais como poluição do lençol freático e problemas neurológicos, não traz qualquer malefício ao ambiente” pontua Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo Carnaval.
Professora da Escola Agrícola de Jundiaí, unidade da UFRN localizada em Macaíba, Tatiane Carnaval foi a responsável pela orientação do estudo que resultou na descoberta científica. Atualmente em Portugal fazendo pós-doutorado, a docente está realizando experimentos complementares às amostras, com o intuito de analisar a parte química delas, compostos fenólicos e taninos por um método inovador. “Estamos analisando tempo de vida útil do produto em prateleira, melhores métodos de extração, entre outras variáveis que fortaleçam o registro futuramente”, situa.

Luan Cavalcanti da Silva, na época mestrando do Programa de Pós Graduação em Ciências Florestais (PPGCFL), salienta que o resultado da pesquisa é uma alternativa para o tratamento de água com um coagulante natural. Com o uso das cascas de Terminalia catappa, conhecidas como castanholas — espécie comum em áreas litorâneas e coletadas na própria EAJ para o estudo — foi comprovado que a opção sustentável reduz a turbidez da água, mantém o pH equilibrado, reduz o lodo e aumenta o tempo de uso dos materiais, além de não conter riscos à saúde. “É um caminho que intui a descoberta de novas potencialidades de espécies florestais, com foco em produtos florestais não madeireiros, fortalecendo a área florestal e o uso sustentável de seus recursos”, afirma.
A pesquisa foi inclusive uma das premiadas, em 2024, na categoria Produções Científicas do Prêmio Inovação das Água Potiguares, distinção criada pelo Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn), cujo objetivo é reconhecer iniciativas que se destaquem pela contribuição da segurança hídrica, gestão e uso dos recursos hídricos visando ao desenvolvimento sustentável. A patente recebeu o nome de Coagulante à base de taninos extraídos de terminalia catappa, seu processo de obtenção e seu uso para remoção da turbidez de água e foi depositada pela UFRN no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (INPI) no mês de maio. Além de Luan e Tatiane, integram o grupo de inventores Denys Santos de Souza, Paula Evanyn Pessoa do Nascimento, Kayo Lucas Batista de Paiva, João Gilberto Meza Ucella Filho e Alexandre Santos Pimenta.
Os cientistas frisam que o desenvolvimento de coagulantes e floculantes provenientes de matérias-primas naturais biodegradáveis vem ganhando espaço nos centros de pesquisas. Com isso, desenvolver um coagulante que otimize as etapas do sistema de abastecimento é essencial para reduzir tempo e custo de uma estação de tratamento de água. Nesse contexto, os taninos das cascas das árvores são agentes a serem considerados porque vêm de fonte natural, são biodegradáveis e não geram lodos poluentes.

No caso específico, após a coleta do material, as cascas foram separadas do material lenhoso, ensacadas e estocadas para o posterior processamento. A seguir, o material foi seco ao ar livre em galpão coberto. Após a secagem, foi necessário diminuir a granulometria do material até a granulometria de serragem. Esse processo pode ser realizado com auxílio de máquinas.
Para comprovação do efeito coagulante para remoção de turbidez de água, os cientistas utilizaram amostras de água turva provenientes de um açude localizado na Escola Agrícola de Jundiaí. Para se obter resultados visivelmente satisfatórios, a turbidez foi aumentada com água barrenta do próprio local. A eficiência dos taninos cationizados foi comparada com um produto comercial, em procedimentos realizados no âmbito do Laboratório de Produtos Florestais Não Madeireiros.
“O resultado de turbidez obtido demonstra que o coagulante natural de Terminalia catappa é eficaz para ser utilizado no tratamento de água, diminuindo sua turbidez em até 96,67%. Já em relação ao grau de acidez da água, foi alcançado o valor mínimo estabelecido pela legislação, enquanto que com o produto comercial existente foi necessária a correção, já que ocorreu a acidificação da água”, contextualiza Tatiane Carnaval.

Imagens: Cícero Oliveira
Fonte: Agecom/UFRN


































































