Imagine uma aula de biologia em que o sertão vira laboratório, a escola vira campo de pesquisa e toda uma cidade se torna parceira no processo de descoberta científica. Essa é a proposta da viagem anual do Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária (PPgBP) da UFRN, que transforma Serra Negra do Norte, no Seridó potiguar, em centro vivo de ciência aplicada e engajamento social.
Desde 2014, o PPgBP mantém uma colaboração consistente com a Escola Rural Municipal Manoel Mariz, no mesmo município. A iniciativa, coordenada pela professora Renata Antonaci, tem como ponto de partida as disciplinas Biologia Parasitária para a Comunidade I e II e Viagem ao Campo I e II, que combinam conteúdo teórico com prática em campo e levam o conhecimento acadêmico para fora dos muros da universidade, direto para quem mais precisa.

Durante sete dias, estudantes e professores se instalam na Estação Ecológica do Seridó (Esec-Seridó), uma unidade de conservação federal de proteção integral, gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A rotina inclui palestras, ações educativas, coletas de insetos e análises laboratoriais. Todo o planejamento é construído em diálogo com os professores da escola parceira, priorizando as demandas específicas da comunidade local.
Educação infantil
As atividades com crianças vão além da sala de aula. Ao promover hábitos de higiene e prevenção desde cedo, elas atuam também como multiplicadoras do conhecimento em casa. Por isso, a primeira parada dos universitários é a Manoel Mariz. Lá, os visitantes desenvolvem ações com alunos da Educação Infantil e das primeiras séries do Ensino Fundamental, tratando de temas como prevenção de doenças parasitárias, higiene e saúde por meio de palestras, jogos, paródias, teatro e fantoches.

Enquanto isso, os estudantes coletam amostras fecais das crianças, que são analisadas em laboratório durante o período da disciplina. Esses exames permitem identificar parasitos intestinais e servem ainda como instrumento de aprendizado prático para os participantes do programa. As análises são feitas com dois métodos, o de Hoffman-Pons-Janer, baseado na sedimentação espontânea para localizar cistos de protozoários, ovos e larvas de helmintos, e o de Baermann-Moraes, que utiliza água e temperatura para atrair larvas de helmintos.
Os resultados mais comuns revelam a presença de protozoários intestinais como Giardia lamblia, Entamoeba coli e Endolimax nana, geralmente transmitidos por meio de água contaminada ou alimentos crus. As famílias recebem os resultados e podem, a partir deles, buscar o tratamento necessário.
Fauna local
Mas o trabalho não para na escola. Nas áreas próximas à Esec-Seridó, os estudantes fazem o levantamento da fauna de vetores locais. São coletados barbeiros, mosquitos, flebotomíneos e caramujos, relacionados à transmissão da doença de Chagas, arboviroses, leishmanioses e esquistossomose. Até as moscas de importância forense entram na lista, capturadas por armadilhas com iscas em decomposição.

Ao longo da semana, todos os exemplares são montados e identificados no próprio campo, pelos estudantes do programa. Cada coleta tem autorização do ICMBio, com objetivo didático.
Para encerrar a semana, a equipe monta estandes em praças centrais de Serra Negra do Norte ou Caicó. Lá, o conhecimento circula de forma direta. A comunidade participa, faz perguntas, tira dúvidas sobre doenças infecciosas e parasitárias e pode, inclusive, realizar testes rápidos para hepatite B, HIV e sífilis.
Biopar no bar?

Sim, isso também acontece. O PPgBP aposta numa forma direta de divulgar ciência, tirando a biologia parasitária da universidade e levando a conversa para onde o público está. Inspirado no Pint of Science, o projeto Biopar no Bar acontece, em média, a cada três meses, sempre em espaços descontraídos e abertos ao diálogo.
Sem linguagem técnica ou formalidade, os encontros viram rodas de conversa. “Fazemos uma mesa redonda, levamos alguns especialistas e ficamos conversando com quem está lá. A ideia é não ser nada técnico, só para as pessoas entenderem o básico, tentar falar um pouquinho de prevenção e controle”, explica a professora Renata Antonaci.
Imagens: Cedidas
Fonte: Agecom/UFRN






































































