A tempestade anunciada está chegando — e com números, não com retórica
O Fundo Monetário Internacional (FMI) deixou explícito o que até então muitos insistiam em tratar como exagero apocalíptico: quase 40% dos empregos no mundo estão diretamente ameaçados pela Inteligência Artificial, percentual que dispara para 60% nas economias avançadas, onde a automação já não é novidade, mas rotina.
O World Economic Forum, em sua última edição do Future of Jobs, amplia o alerta: até 2027, 83 milhões de empregos desaparecerão, enquanto apenas 69 milhões surgirão. O saldo líquido global será de 14 milhões de vagas a menos — e isso sem considerar a aceleração introduzida por robôs físicos e humanoides.
Esses dados não vêm de panfletos militantes. Não vêm de youtubers alarmistas. Não vêm de analistas “anti-tecnologia”. Vêm das instituições que tradicionalmente defendem a modernização como horizonte inevitável do capitalismo. Ou seja: não se trata de paranoia, mas sim de realidade — uma que está se impondo sobre nós sem debate público honesto, nem preparo estatal, ou contrapartida social por parte das empresas. Tudo isso, via de regra, embalado por uma celebração acrítica da imprensa.
Enquanto isso, o Brasil segue a mesma trilha: estudos da Fundação Dom Cabral e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que cerca de 60% dos empregos formais do país têm alta ou média probabilidade de automação, especialmente:
- 79% das funções na agricultura;
- 68% na indústria;
- 33% no setor de serviços.
Com esse pano de fundo explícito, a narrativa corporativa de “progresso inevitável” começa a perder seu brilho — e exibe o que realmente é: um reposicionamento global das empresas para maximizar lucro e minimizar gente.
O verniz moderno de uma velha crueldade
Nesse cenário, não surpreende que uma manchete recente — que viralizou mundo afora — informasse que a “big tech” Hewlett-Packard Company (comumente referida apenas como “HP”) pretende demitir mais de seis mil funcionários até 2028, justificando a decisão pela adoção de IAs e com o suposto imperativo de “eficiência”. O padrão é tão repetitivo e clichê que chega a cansar: primeiro anuncia-se o corte, depois adornam tal ação com palavras bonitas (tipo: “otimização de recursos”, “reestruturação”, “reciclar nosso pool de criatividade” e “realinhar a estratégia corporativa”…), por fim tenta-se convencer a opinião pública de que aquilo não só é a expressão máxima da “modernidade”, como também que irá trazer “mais benefícios” — só não explicam que estes são, na verdade, apenas para os CEOs das empresas.
A cereja do cinismo? Voltando a nossa querida “HP”, a própria empresa admite que, apesar dos cortes que fará na mão-de-obra humana, ainda assim os preços dos seus computadores devem subir “para equilibrar gastos”. É quase poético, se não fosse trágico: demite-se para economizar na folha, aumenta-se o preço do produto e lucra-se duas vezes. Essa alquimia perversa transforma o ser humano em variável incômoda, excessiva, descartável — e transforma o lucro em finalidade absoluta.
O pacto social rompido — e o artigo constitucional que o mercado finge não existir
O discurso da inevitabilidade tecnológica é sedutor porque alivia consciências: se a tecnologia “exige” as demissões, então ninguém é culpado. Mas isso é falso. Demissões por automação são escolhas estratégicas e, por isso mesmo, carregam responsabilidade social.
E aqui entra o ponto que as corporações sistematicamente fingem ignorar: o art. 170 da Constituição Federal, que estabelece que a ordem econômica brasileira se funda na valorização do trabalho humano e deve obedecer ao princípio da função social da propriedade:
“A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna (…), observados os seguintes princípios: (…) III — função social da propriedade.”
Traduzindo:
Empresa não existe apenas para lucrar. Ela é parte do pacto social brasileiro. Ela tem deveres. Ela tem limites. Ela tem obrigações para além da rentabilidade trimestral. Quando uma corporação opta por substituir milhares de trabalhadores por IA, sabendo que o custo social será absorvido pelo Estado (e, portanto, por todos nós), ela rompe esse pacto.
É o velho “privatizar lucros, socializar prejuízos” — agora turbinado pela automação.
Quando nem é “culpa da IA”: os robôs humanoides entram em cena
Se o leitor imagina que o problema se restringe ao universo dos algoritmos, engana-se. A próxima onda já começou.
A chinesa UBTECH Robotics realizou recentemente a primeira entrega em larga escala de robôs humanoides industriais, o modelo Walker S2, projetado para operar em fábricas 24 horas por dia, sem qualquer pausa, salário, benefício ou limitação humana. E a clientela desta empresa não é composta de startups obscuras, mas de gigantes que dominam os setores em que atuam: BYD, Geely, FAW-Volkswagen, DongFeng e Foxconn.
A UBTECH confirmou mais de US$ 112 milhões em pedidos apenas neste primeiro ciclo, com mais de 100 unidades já entregues. Não se trata mais de ficção científica. Trata-se de produção em série. Ou seja: a nova rodada de demissões industriais está batendo à porta — e desta vez nem dá para colocar a culpa só na IA. Agora é o robô em forma humana, trabalhando no lugar do humano.
O Itaú e a lógica nefasta do banco sem gente
No Brasil, talvez nenhum episódio recente revele tão claramente a distorção entre inovação e responsabilidade quanto o caso envolvendo o Itaú, o maior banco privado da América Latina. Este, sob o argumento genérico da “modernização”, promoveu (ao longo de 2024-2024) aproximadamente mil demissões simultâneas, atingindo sobretudo trabalhadores em regime remoto e híbrido. Todas as dispensas foram agrupadas debaixo do mesmo falso rótulo: “baixa produtividade”.
A justificativa, contudo, esbarra em fatos que não se conciliam com a narrativa oficial. Os desligamentos ocorreram sem qualquer diálogo prévio com sindicatos, apesar de o STF, no julgamento do RE n.º 999.435 (Tema n.º 638), ter afirmado de maneira inequívoca que dispensas coletivas exigem negociação prévia, ainda que desprovida de necessidade de autorização formal. Trata-se de um parâmetro constitucional e civilizatório — não de uma formalidade dispensável.
Em paralelo, a instituição fechou 227 agências físicas somente em 2024, ao mesmo tempo em que ampliou investimentos em automação, sistemas de vigilância digital e soluções baseadas em IA generativa. A “coincidência”, repetida em ciclos, revela o que o discurso corporativo tenta diluir: há uma substituição estrutural em curso, e ela se dá de forma acelerada e assimétrica.
Os documentos analisados pelo Ministério Público do Trabalho e pelas entidades representativas trazem elementos ainda mais perturbadores. Muitos dos desligados foram avaliados exclusivamente por métricas algorítmicas, baseadas em softwares que monitoravam cada clique, pausa, movimento de teclado e tempo de inatividade — um sistema que, além de intrusivo, suscita dúvidas quanto à conformidade com a LGPD e com princípios clássicos da boa-fé objetiva.
Há relatos de profissionais que trabalhavam madrugadas consecutivas, inclusive fins de semana inteiros, e mesmo assim foram classificados como “insuficientes”. Outros receberam prêmios internos de desempenho semanas antes da dispensa. Há ainda casos de pessoas que só descobriram a demissão ao perceberem que o acesso aos sistemas havia sido revogado — antes mesmo de qualquer comunicação humana. São cenas que lembram mais um desligamento automatizado em série do que um processo minimamente digno.
Detalhe: tudo isso ocorre num momento em que o banco divulgou lucro líquido superior a R$ 22 bilhões em apenas seis meses. Ou seja, não se trata de reestruturação forçada por crise, mas de uma escolha que privilegia uma contabilidade impecável às custas de um tecido social fragilizado.
Não surpreende que o ministro do STF Flávio Dino, ao comentar o caso no 46º Congresso Nacional da Advocacia Trabalhista, tenha ressaltado que tais práticas representam um risco sistêmico: violam direitos fundamentais, ampliam a precarização e abrem precedentes perigosos num mercado que já opera no limite da assimetria de forças entre trabalhadores e corporações.
O episódio expõe ainda um ponto crucial, muitas vezes ofuscado pelo brilho frio da tecnologia: quando a inovação não é acompanhada de responsabilidade, ela se converte apenas em instrumento de exclusão.
Por trás do discurso de “eficiência”, há vidas desconsideradas, trajetórias interrompidas e comunidades inteiras impactadas pelo efeito dominó do desemprego.
O que está em jogo, portanto, não é o desenvolvimento tecnológico em si, mas o modo como ele vem sendo instrumentalizado para minimizar pessoas e maximizar margens de lucro — justamente o oposto da “função social” que o art. 170 da Constituição Federal determina como pedra angular da ordem econômica brasileira.
O passado já nos avisou — e escolhemos não aprender
A promessa de “modernização” sempre cobrou seu preço — e quase sempre de quem não tinha como pagar. A mecanização do campo, nas décadas de 60, 70 e 80, elevou a produtividade e engordou lucros, mas também expulsou milhões de trabalhadores rurais para cidades incapazes de absorvê-los.
O rastro disso está até hoje nas favelas superlotadas, no déficit habitacional, na violência urbana e na desigualdade crônica do país. Agora, estamos repetindo a lógica, mas com alcance ampliado: se antes a mecanização atingiu o campo, agora a automação digital e robótica atinge todos os setores.
A evolução que exclui — e o risco de um futuro sem lugar para as pessoas
A cada anúncio “festivo” de modernização, corporativo ou governamental, o que se esconde é o óbvio: estamos construindo um mundo em que a tecnologia avança, o lucro cresce, a produtividade dispara — e o ser humano vira um obstáculo operacional.
Não existe “progresso” digno desse nome se ele destrói empregos, concentra renda, fragiliza o tecido social e empurra milhões para a precarização. Uma tecnologia que melhora balanços, mas piora vidas, não é evolução — é regressão disfarçada de inovação.
Se deixarmos que essa lógica siga sem contestação, o futuro está dado: uma elite tecnológica ultrarrica, e uma massa crescente de descartáveis econômicos. E, nesse cenário, o título do artigo deixa de ser provocação e vira diagnóstico:
IA para poucos, prejuízo para todos.
Por Otaviano Lacet*
*Jornalista, Escritor e Editor, com pós-graduações em Jornalismo Digital; Análise do Discurso Midiático; Produção Textual; MBA em Comunicação e Semiótica; Docência no Ensino Superior.





































































